LGPD na Escola. Você sabe como atender à lei?

A Lei No. 13.709 de 14 de agosto de 2018 – Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD) regulamenta os direitos e deveres das empresas e usuários quanto à coleta, guarda e uso de dados pessoais.

 

E o que são os dados pessoais no âmbito da lei? Além dos dados como nome, CPF, RG ou Identidade, telefone, e-mail etc, a LGPD também considera alguns dados pessoais como sensíveis, ou seja, aqueles que podem acarretar em prática discriminatória, como raça, cor, religião, escolaridade, estado civil etc.

 

E por que então a LGPD foi criada? Para garantir que todos os direitos dos donos dos dados sejam respeitados e protege-las o máximo possível de terem seus dados expostos ou utilizados para análises de empresas e/ou grupos de maneira arbitrária e sem o consentimento.

 

As escolas são fonte de dados pessoais e ainda mais de dados sensíveis, uma vez que tratam de relações de desenvolvimento humano como histórico escolar e avaliações de desempenho, bem como outras informações como dados contratuais e bancário.

 

Mesmo que sua escola tenha um tráfego desses dados considerado pequeno, a LGPD vale para todos e pode aplicar sanções em caso de descumprimentos. Por isso, destacamos aqui alguns pontos importantes que sua escola pode fazer para se manter protegida e em acordo com a lei.

 

  • Revisão dos processos da escola que captam e guardam dados: Eleja uma pessoa para fazer esses processos e dê a ela orientações que visem captar esses dados de maneira privada, guardando-os em local seguro e de acesso restrito a outras pessoas da equipe, seja em papel ou em meio eletrônico.

 

  • Acesso aos sistemas da Escola: Tenha controle sobre os acessos de seus colaboradores em todos os sistemas utilizados pela escola que captam e guardam dados pessoais. Cada pessoa deve ter o seu login e senha de acesso e não é seguro que elas compartilhem os mesmos acessos, uma vez que comprometerá a rastreabilidade dos acessos em caso de incidentes.

 

  • Invista e monitore a rede de computadores e o acesso à internet: Periodicamente faça uma análise da sua rede de internet e mantenha os sistemas de segurança sempre atualizado.

 

  • Mantenha os dados guardados na nuvem sempre que possível. Você pode criar uma conta gratuita na Google e ter 15GB para armazenar e-mails, documentos e fotos.

 

  • Monitore o uso de dispositivos de terceiros, divulgue boas práticas para uso de celular, tablets e notebooks, principalmente para aqueles que tiram fotos e gravam vídeos das crianças.

 

  • Quanto aos pais, sempre que houver disponibilidade de conversar, deixe-os a par da LGPD, afinal, nem todos podem ter acesso a Lei, mas é importante que eles saibam que sua escola está atenta, que segue as recomendações e que, inclusive, preza por boas práticas com sua equipe em relação aos dados pessoais deles e de seus filhos.

Como a Agenda Digital Olá, pais! pode te ajudar com a LGPD

1 – Antes de implantarmos a tecnologia, sempre identificamos seus processos e ajustamos a ferramenta ao seu dia-a-dia. Assim, seus processos principais são mantidos e sempre que possível, melhorados.

2 – Você determina quem pode fazer o que na agenda. O perfl dos colaboradores são determinados de acordo com suas responsabilidades na escola. E, se preferir, as informações passam por revisão antes de seguir para os pais.

3 – Todas as informações são armazenadas em nuvem e não ocupam espaço nos dispositivos da escola ou dos colaboradores. Preservamos a segurança dos dos através de acessos pessoais e não compartilháveis, para que cada informação seja guardada de maneira íntegra para histórico e consulta futuras, se necessário.

O que os pais precisam para se sentirem seguros com a volta às aulas?

Podemos dizer que os últimos dois anos foram os mais desafiadores para a educação no mundo.

A pandemia fez com que as escolas se reinventasse instantaneamente para conseguir planejar, realizar as aulas, atender aos pais, segurar a ansiedade, se proteger, estar com a família, controlar-se emocionalmente …. enfim, tudo para conseguir fazer a educação acontecer.

Com a vacinação avançando e as decisões de reabertura das escolas com 100% dos alunos em muitos estados, o  que os pais precisam para se sentirem seguros e enviarem seus filhos à escola?

A decisão dos pais de enviar ou não seus filhos à escola envolve dentre tantas coisas a sensação de estar ou não fazendo a coisa certa.

É imprescindível que os gestores e educadores mantenham os pais informados de suas ações; de tudo que já foi feito e ainda está sendo construído para que as crianças possam estar seguras no ambiente escolar.

Além dos protocolos já tão divulgados pelas autoridades de Saúde, como a higienização de mãos, distanciamento entre mesas e cadeiras e uso de máscaras, as escolas devem manter outros protocolos, como: 1) uso de máscara de tecido por no máximo 3 horas e de máscara cirúrgica por no máximo 4 horas; 2)  Manutenção de ambientes ventilados; 3) escalonamento no horário de entrada e saída e dos intervalos entre as turmas; 4) medição de temperatura para estudantes e equipe escolar; 5) Restrição do uso das áreas comuns, como bibliotecas, parquinhos, pátios e quadras e; 6) Restrição ao máximo do uso de materiais coletivos, evitando assim o compartilhamento desses materiais.

Algo muito importante é elaborar um planejamento claro e objetivo, dando aos pais a oportunidade de conversarem sobre as ações escolares sempre que desejarem, afinal, a pandemia é algo novo para todos, logo, a contribuição de cada um levará a um plano mais bem elaborado.

Outra ação que pode diminuir a ansiedade dos pais é a informação diária e contínua: divulgação massiva das ações tomadas pela  escola; desde as mais simples, como o distanciamento entre os alunos até as estratégias modificadas para realização das atividades em sala de aula. Isso demonstra como os educadores estão se reinventando no dia-a-dia para que os alunos tenham cada vez mais segurança em estar no ambiente escolar.

Manter os pais perto da escola, mesmo que virtualmente, pode ser um fator decisivo para que eles se sintam confortáveis para enviar seus filhos às aulas presenciais todos os dias, mitigando assim os impactos negativos da mídia diária.

E se a sua escola tem educação infantil, divulgue muitas fotos para os pais! Deixem que eles saibam que seus filhos estão cumprindo todas as regras de segurança, dentre elas o distanciamento social sim,  mas que eles não estão isolados, não!

Volta às aulas durante a pandemia de Covid-19

Após um ano e meio em casa estudando online, sem ter que conviver com a diversidade e com as regras sociais, nossos alunos voltam às aulas.

A pandemia fez com que nossas crianças permanecessem muito tempo restritas ao ambiente de suas casas. E como sabemos cada núcleo familiar acaba tendo seus costumes, suas bases, suas regras e, ainda, diante de uma situação tão atípica como uma crise mundial na saúde, cada família se adaptou como pode, afinal, muitas tiveram que dar conta do trabalho, da casa e dos filhos.

Nesse processo de adaptação em prol da educação das crianças, algumas famílias levaram as regras da escola para dentro de casa, já outras, optaram por não serem rígidas dada a situação, então, deixaram a criançada solta fazendo o que fosse mais prazeroso.

Sem sombra de dúvida todas as famílias fizeram e, ainda estão fazendo, o melhor que está ao seu alcance para a educação de seus filhos, mas qual o impacto dessas decisões na vida escolar dos alunos?

Whatsapp (11) 94486-3554

Estudiosos divergem sobre os impactos da pandemia nas crianças, alguns dizem que haverá consequências negativas, como ansiedade e estresse emocional e outros, já mais otimistas, alegam que essa geração de crianças poderá desenvolver mais afetividade e capacidade adaptativa às adversidades da vida.

Por toda a situação vivida nos últimos tempos, o que sabemos é que neste retorno às aulas presenciais, nossos educadores tem agora uma tarefa adicional à educação: Entender como cada criança está voltando à escola: Alguns super felizes por reverem seus amigos, falantes e animados por compartilhar novas histórias e vivências e outros com medo da pandemia ainda, inseguros, ansiosos e cheios de dúvidas quanto a situação que estão vivendo, tentando se encaixar de novo nesse ambiente escolar.

O que podemos dizer é que a escola com certeza será o lugar de acolhimento, entendimento e trabalho e que nossos educadores contribuirão significativamente para que nossas crianças possam sair dessa pandemia mais fortes!

APP da Escola
A cultura digital chegou às escolas para ficar?

A pandemia mudou e ainda está mudando nossas vidas. Mas, qual o legado que essas transformações deixarão em um mundo pós covid-19?

Na educação, as mudanças que estavam em curso como o uso da tecnologia em sala de aula e ensino a distância foram aceleradas significativamente.

Escolas, que antes trabalhavam com agenda de papel, por exemplo, tiveram que implantar a tecnologia no meio da pandemia, introduzindo assim o início de uma cultura digital, propiciando que os alunos estivessem em rede e promovendo assim o aprendizado mesmo fora do ambiente escolar.

Outro ponto que teve aceleração significativa foi a  busca por conhecimento em como operar plataformas digitais de vídeo e conteúdo foi o assunto que dominou grupos de whatsapp (os nossos, com certeza). Muitos educadores viraram verdadeiros  “youtubers”, tudo para garantir o engajamento dos alunos mesmo a distância.

E os pais que antes mantinham “distanciamento escolar”? Esses passaram a buscar informações diariamente, interagindo e se comunicando com a escola, gerando uma parceria em prol da educação, afinal, não havia como seguir as normas e as determinações promovidas primeiro pelo Governo e depois pela própria escola sem se comunicar!

Outro exemplo de mudança por efeito da pandemia foi o ensino híbrido, que vem permitindo a flexibilização de algumas atividades, propiciando momentos em grupo, onde o aluno interage com professores e até colegas, estando ele dentro ou fora da sala de aula e também momentos com tarefas individuais, onde o aluno pode estudar sozinho, de forma remota.

Que em 2022 mudanças e inovações na educação continuem acontecendo!

Que não seja por um motivo tão ruim e trágico; que seja pela busca de uma educação de qualidade para todos, que seja porque mais empresas enxergam a educação como um mercado potencial, que educadores estejam engajados em projetos disruptivos e que o Brasil continue sendo visto como um país do futuro e que a educação contribua significativamente para que estejamos sempre bem posicionados no ranking mundial da inovação.

Meditar também é coisa de criança

Estamos vivendo uma fase muito difícil com a pandemia. A busca do equilíbrio e o combate à ansiedade são essenciais para não entrarmos em um verdadeiro furacão capaz de destruir nossa estabilidade mental, emocional e física. E desta vez, a postagem se dirige não só para as crianças, mas também para aqueles que cuidam dela, sejam jovens ou adultos.

Independentemente da pandemia, também vivemos uma fase de muita ebulição, de uma preocupação enorme com o ter e o fazer, mas de pouco investimento no ser. Uma época de muita exposição a estímulos externos o que inclui computadores, celulares e televisão. Ao considerarmos todos esses fatores, podemos ter clareza dessa necessidade de dar uma pausa e ter um tempo para o silêncio e para si.

É importante aprendermos e ensinarmos nossos pequenos a criar momentos de autoencontro e de aquietamento.  Para as crianças isso pode ser mais simples do que se imagina, e na escola, isso pode ocorrer de forma muito natural com o trabalho em grupo, como já acompanhei algumas vezes, mesmo com aulas remotas. Inicialmente, tudo se mostra uma grande brincadeira para os pequenos, que, gradativamente, vão aprendendo a serenar o corpo e a mente. Isso se aplica à meditação e, também, às atividades de respiração e relaxamento que são excelentes caminhos para o autoequilíbrio e a educação emocional. Os cuidados a se tomar são a linguagem adequada, a criação de imagens que falem ao mundo infantil e um tempo mais curto.

As atividades de relaxamento e respiração, que conduzem a um estado meditativo, estimulam áreas do cérebro relacionadas à atenção, à memória e ao raciocínio, assim como à autoconsciência e à autorregulação emocional. Isso se dá através da plasticidade cerebral que tem o poder de transformar o cérebro emocional, criando muitas possibilidades, como observa o cardiologista brasileiro Georg Tuppy. Segundo ele, “não estamos presos ao cérebro com o qual nascemos, pois temos a capacidade de direcionar deliberadamente as funções que vão florir e as que vão fenecer, as capacidades morais que vão surgir e as que não vão surgir, as emoções que vão florescer e as que vão ser silenciadas”. Aquela observação que ouvimos muitas vezes de “nasci assim e vou morrer assim”, está longe de ser verdadeira como mostram os estudos das neurociências. Esta é uma desculpa dos que se acomodam e não querem investir em mudanças.

 Em qualquer idade, meditar traz efeitos muito positivos como acalmar a mente, propiciar um sono mais tranquilo, relaxar, diminuir a ansiedade, estimular o funcionamento do sistema imunológico, estimular a criatividade, a imaginação e a autodisciplina, aprender a respirar em momentos de tensão, trabalhar a autoestima positiva.

A criança que passar pela experiência da meditação com regularidade, se tornará um jovem e um adulto com muito mais facilidade de meditar e usufruir os efeitos desta técnica milenar que ganha, a cada dia, maior número de adeptos. Pesquisas revelam resultados muito positivos, incluindo a melhora de doenças e/ou maior equilíbrio para lidar com elas. No Rio de Janeiro, o INCA – Instituto Nacional do Câncer, tem uma experiência maravilhosa no setor pediátrico com sessões de meditação, que ajudam as crianças e seus responsáveis a lidarem com as tensões e dificuldades de enfrentar o tratamento. Também componentes da equipe de enfermagem participam desses momentos de alívio de uma rotina de tensão, contribuindo para que se tornem mais empáticos.

A meditação nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e aumenta a empatia, a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Isso facilita que se criem relações em que raças, crenças religiosas ou culturas não sejam barreiras e que predomine o espírito de solidariedade e fraternidade de que o mundo está bastante carente. As práticas meditativas contribuem, por tudo isso, a aumentar a inteligência emocional e a resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades e delas se recobrar mais facilmente.

Hoje ficamos por aqui, mas ainda voltaremos a esse assunto.

Grande abraço e, se gostou, compartilhe. Deixe seu comentário e sugestões, eles são muito importantes. Responderei logo que possível.

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Frustrar ou não frustrar a criança: eis a questão

Quando falamos em frustrações sofridas pelas crianças, temos que tecer algumas reflexões sobre atitudes que podem ser tomadas em relação aos pequenos e às quais precisamos estar atentos. Afetividade, motricidade e cognição estão permanentemente envolvidas na aprendizagem como vimos no último post. As tendências naturais para o movimento e para sua expressão são, desde os primeiros anos, prejudicadas pela prioridade dada à formação intelectual em detrimento do desenvolvimento corporal. E assim, não há uma harmonização entre inteligência, sensações e necessidades básicas, criando-se uma desordem psicossomática que se manifesta cada vez com maior frequência e que pode se traduzir por tensões, ansiedade, perturbações respiratórias, dificuldades de aprendizagem e perda da espontaneidade.

Segundo Wilhelm Reich, um dos primeiros a sistematizar a relação entre o corpo e o psiquismo em inícios do século passado, apesar de todo anseio natural pela liberdade e pela vivacidade, as crianças contêm seus impulsos quando não há um ambiente natural propício ao desenvolvimento de sua vitalidade sadia. Muitas vezes, a criança sofre pressões para assumir atitudes que contrariam necessidades essenciais que acabam por fazê-la assumir uma atitude rígida e não-natural. Por exemplo: uma criança muda de posição inúmeras vezes ao realizar uma atividade; inclina o corpo, o movimenta de acordo com o que realiza com as mãos, se alonga, se dobra, senta-se sobre os pés, se levanta; se agita mais quando está alegre ou narra uma aventura, enfim, pensa, sente e age com todo o corpo. Como exigir que fique sentada imóvel durante muito tempo na escola? Isso contraria uma dessas necessidades básicas: o movimento.

Quando o educador despreza potencialidades infantis, vendo suas necessidades de contato, movimento e brincadeira, apenas como fonte de transgressão ou impedimentos para a aprendizagem, corre-se o risco de realmente se queimarem etapas do desenvolvimento das crianças, impedindo-as de desfrutarem a infância em sua plenitude. Para a criança da educação infantil e séries iniciais torna-se evidente a necessidade do trabalho intelectual conectado ao trabalho motor, lúdico e expressivo para que a criança atinja patamares mais elevados no processo de aprendizagem.

É importante que os sentimentos da criança sejam reconhecidos; que ela seja estimulada a vencer desafios e superar dificuldades, mas sem críticas e castigos duros, sem palavras ou atitudes violentas se ainda não conseguiu chegar lá; elogios pontuais são sempre bem-vindos, e os erros podem ser mostrados com amorosidade. E, também, dar-lhes autonomia de escolhas sempre que possível e quando não prejudicar a disciplina necessária. É claro que não podemos deixar que tenha atitudes como fazer birra, se não tem um desejo atendido, pois, lidar com a frustração faz parte do crescimento, mas podemos sim admitir que ela tem o direito de ficar zangada e de dizer ou demonstrar isso, mas não podemos permitir que morda a coleguinha ou chute a professora, que jogue objetos ou grite descontroladamente. As emoções precisam ser trabalhadas e educadas também.

Para Reich, a frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência.

Entretanto, quando o ambiente escolar e/ou familiar é cercado por uma atmosfera de frustração constante, forma-se na criança um caráter inibido e sem autonomia, o que é prejudicial para seu desenvolvimento. Entretanto, se o educador não tem autoridade, assumindo uma atitude muito permissiva, criam-se crianças sem limites. E todos nós sabemos da importância de estabelecer limites para a vida social, familiar e escolar. Relações interpessoais saudáveis exigem que existam normas de convivência.

De acordo com Reich, uma prática educativa saudável seria aquela em que o professor e/ou os pais colocam limites, algumas regras que podem causar descontentamentos, mas que ajudam no desenvolvimento infantil, sem, no entanto, causar inibição através de repressões, críticas e censuras excessivas, o que gera o encouraçamento, de que falaremos em breve. Educar com amor e autoridade ao mesmo tempo seria a medida ideal para a formação dos nossos pequenos.

Dúvidas, sugestões ou comentários? Deixe seu recadinho que responderei logo que possível.

Grande abraço e até lá

Muito mais que corpo: é corporeidade

Falar de corporeidade é trazer um novo olhar para o ser humano. É possibilitar que ele seja visto em sua totalidade. Qualquer assunto que trabalhemos em relação à criança exige que tenhamos esta compreensão. Mas, afinal, o que é corporeidade, este conceito que tem um significado tal que precisa ser discutido para que se entendam necessidades fundamentais da criança (e do adulto também)?

Corpo todos nós sabemos o que é, nossa estrutura que tem músculos, ossos, cartilagens, veias, artérias, que guarda os diversos órgãos, e muito mais. A fisiologia do movimento, a anatomia e a biologia são algumas das áreas que se dedicam ao estudo do corpo. Quem não se lembra das aulas de Ciências e Biologia que nos obrigavam a decorar muitos nomes que nos deixavam enlouquecidos nas vésperas das provas?Corporeidade é um conceito relativamente novo que foi trazido pelo filósofo francês Merleau-Ponty, no século passado. Este conceito começa a ganhar maior amplitude em outras áreas com os estudos que vários autores passam a desenvolver e difundir.  Somente no final do século XX e início do atual, ele chega às universidades brasileiras e aos cursos de Pedagogia e Educação Física com maior abrangência. E ele engloba não só o corpo e o movimento, ou seja, a motricidade, mas também a afetividade (que não tem necessariamente relação com afeto ou carinho, pois envolve a grande variedade de emoções, sentimentos e paixões que nos afetam). Envolve ainda a racionalidade e as relações estabelecidas pelo ser com seu meio sociocultural.  Quando se fala de uma educação integral ou da integralidade do ser, estamos falando de corporeidade.

Além das dimensões motora, afetiva, intelectual e social, a corporeidade inclui ainda a dimensão espiritual do ser humano. E é importante que abramos parêntesis aqui: é preciso entender que espiritualidade não tem nenhuma relação com religiões, embora, possamos dizer que, de modo geral, as religiões objetivam desenvolver o lado espiritual do ser. Quando se fala da dimensão espiritual da corporeidade, fala-se daquilo que vai além de necessidades materiais ou físicas, de necessidades mais profundas do ser humano que o ajudam a tornar-se uma pessoa melhor, como o cuidado com o outro, com seu meio e consigo mesmo, a solidariedade, o respeito, o compromisso e a amorosidade. Voltaremos a essa questão daqui a um tempo, uma vez que a falta desses atributos é um grande gerador do preconceito, do vandalismo, da violência, entre outros danos que as sociedades têm vivenciado.

A criança, que é nosso foco aqui (mas, também, pessoas de qualquer idade), para seu desenvolvimento equilibrado, precisa ser vista como alguém que pensa, sente, se movimenta e está vinculada a seu meio sociocultural. Infelizmente e com muita frequência, a educação cerceia o movimento e a expressão, como se estes atrapalhassem o desenvolvimento da criança. No entanto, o movimento é condição fundamental para a construção do seu conhecimento, para o processo de conhecimento de si mesma e de diferenciação do outro, enfim, de sua constituição como sujeito. Claro que não é admissível ou desejável que a criança não tenha limites. Não se pode deixar que ela suba na mesa, se pendure nas cortinas ou no ventilador (se a sala os tiver). Limites são necessários e as regras ou os famosos combinados são importantíssimos. Entretanto, mobilidade e inteligência são inseparáveis, pois é através do movimento que o pensamento se estrutura e que as emoções se organizam. Se observarmos uma criança que começa a descobrir o mundo por volta dos nove meses, podemos comprovar a importância de experimentar suas possibilidades, segurar tudo, experimentar formas diferentes de usar os objetos, de explorar tudo que é novo. Mais adiante, ela vai experimentar suas possibilidades de movimento, de ocupar espaços, de subir, de descer, enfim, ela vai, através da exploração pelo movimento, conhecer o seu entorno e seu próprio corpo. Observe, também, como a criança fala com o corpo inteiro quando expressa suas emoções, quando conta o que viu que a encantou, ou narra uma história que ouviu. Os gestos e os movimentos são complementos essenciais. “É muito grande” sempre vem acompanhado de mãos e braços que se abrem, o não quero, por braços que se cruzam na frente do corpo ou por um dar as costas, e, com certeza, você que lê o texto já se lembrou de muitos outros exemplos. E os gestos vão expressar também o que é culturalmente vivenciado por essa criança. E aqui já vale uma observação: se quando os responsáveis pela criança baterem nela quando sua atitude os desagradar, é claro que ela vai fazer isso com o coleguinha ou até com o professor que o deixar aborrecido. Maus hábitos são aprendidos, mas os bons também!!! O importante, especialmente para professores, é lembrar que nosso corpo expressa o que vivemos, e que não devemos julgar a criança como má por isso. Neste caso, castigos e “isolamento” não resolvem! Um bom papo, a atenção e carinho podem ajudar muito mais.

Grande abraço e até a próxma

http://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/9225
O que podemos fazer para um ano novo de fato?

Estamos diante de 2021 e após um ano tão difícil e atípico como o que se despediu, nutrimos grandes esperanças. Este ano vai ficar marcado não só nas nossas histórias pessoais e na de nosso país, como na de todo planeta. Nossos desejos se voltam para dias melhores, para que haja uma mudança de fato e muitos rezam, ardentemente como de hábito, não tanto por um novo amor, mais dinheiro ou sucesso, e sim pela chegada da vacina, pela saúde, por uma vida mais digna, por um emprego que garanta a comida de cada dia. A pandemia remexeu com nossas vidas; nos obrigou a nos afastarmos da família, dos amigos, trouxe home office, educação online, nos fez cancelar viagens, casamentos, batizados e formaturas. Causou uma grande desordem nas nossas casas, na economia de grande parte da população, quebrou todas as rotinas, desestabilizou vidas, embaralhou emoções e pensamentos. Muitos fantasmas passaram a assombrar a todos.

Como educadores – sejamos pais, avós ou professores, o que nos cabe para que um novo ano seja melhor que o anterior? Acredito que vale tecer algumas reflexões neste início de ano para que nossos pequenos possam colher frutos mais doces não só neste período de 365 dias que se iniciou há pouco, mas em anos vindouros ao longo de suas vidas. E que também nós, adultos, possamos fazê-lo.

Temos presenciado altos níveis de desrespeito, corrupção, descuido com a Natureza, violência, preconceitos, descaso com o ser humano.  Sem dúvida, queremos um ano melhor. Mas muito de tudo isso tem origem na falta de cuidado, de educação ou de valores cuja aprendizagem começa na família e continua na escola. O que podemos fazer para diminuir tais efeitos? Talvez, devido à correria do nosso cotidiano, à necessidade de trabalhar mais para ganhar o necessário, ao cansaço do final de cada dia, alguns aspectos sejam negligenciados. Coisas, às vezes pequenas, contudo, significativas e que exigem persistência, continuidade.

Cenas que não param de acontecer: embalagens sendo jogadas no chão das ruas e praças, nos córregos, arremessadas de carros, de janelas, E quando vamos à praia ou vêm as inundações? Pode-se ver de tudo! Pobre Natureza! Coitado de nosso meio ambiente! Muitas vezes, atitudes que vivenciamos, especialmente com crianças mais velhas, adolescentes ou jovens, notadamente, não podem ser vistas como desrespeito, simplesmente, porque estes jovens indivíduos nem sempre têm noção de que há regras de convivência que não chegaram a aprender. Os professores têm se ressentido com algumas situações vividas na escola, atitudes que já deveriam vir de casa.

O primeiro ponto a enfatizar é que crianças aprendem o que vivem ou presenciam. Por isso é tão importante que as orientemos para que não façam como “todo mundo”, mas que façam o que deveria ser feito. Importante também lembrar que as transformações não virão em um passe de mágica, nem de uma mudança na legislação, mas que dependem de nós, de nossas ações, de nosso compromisso com elas. Nós somos os responsáveis pelas mudanças que desejamos.

Outro ponto a considerar é que ações correspondem a reações, e esta lei deve ser considerada quando educamos nossas crianças. Irritação gera irritação, mau humor afasta as pessoas, gentileza gera gentileza, sorrisos provocam novos sorrisos, amor, afeto e respeito nos aproximam do outro. Vamos estimulá-las a serem delicadas, e se pode começar com o uso das famosas palavrinhas mágicas: obrigada, por favor, com licença, que, quando partem dos pequenos, sempre geram simpatia. Não precisamos gostar de alguém para sermos delicados, e esta aprendizagem nos ajuda na convivência onde quer que estejamos.

Podemos criar ambientes mais saudáveis a nossa volta ensinando nossas crianças a se aceitarem em suas diferenças, a serem mais leves, mais generosas, a apreciarem o que possuem, a valorizar seus amiguinhos e aqueles que as amam; ensinando-as a respeitar os mais velhos, a serem gratas, a valorizarem o que têm ao invés de lamentarem por aquilo que não podem ter.

Ninguém é feliz o tempo todo, é importante ajudá-las a aceitar ou suportar o que lhes traz angústia ou tristeza, decepção ou medo até que tenham maturidade para fazê-lo sozinhas. Com nossa ajuda fica mais fácil. Nesse sentido, acolhamos seus sentimentos e os respeitemos, o que não significa aceitar as birras. Falar o que sentem as ajuda a se sentirem melhor e, muitas vezes, apenas nossa presença, atenção ou mesmo um abraço são suficientes para trazer-lhes conforto.

Em momentos de muito egoísmo como os que temos presenciado, procuremos ensinar-lhes solidariedade e empatia. Em meio a preconceitos e diferenças, ensinemos o respeito àqueles que pensam diferente, que são de outra raça ou seguem outros credos.

Ofereçamos aos nossos pequenos o nosso tempo (e mais vale a qualidade que a quantidade), brinquemos com eles, deixemos que façam escolhas e tomem decisões apropriadas para sua idade, estimulando-lhes a autonomia. Dessa forma, viverão um novo ano com maior autoestima, autoconfiança, com a segurança de que são amados, e, certamente, se sentirão mais felizes.

Um ano realmente novo para você e para aqueles que fazem parte de sua vida.

Grande abraço e até a próxima postagem

Comentários, sugestões e perguntas são sempre bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo, assim que possível responderei.

Ludicidade, arte e resiliência: de mãos dadas na pandemia

 

Este momento de pandemia e distanciamento social nos traz muitos desafios, e a criança não está imune a eles, muito pelo contrário. Irritabilidade, sono irregular, agitação são algumas das alterações facilmente observadas. A vida fechada num apartamento e sem o contato com avós, tios, primos ou amiguinhos da escola pode se transformar em viver dentro de uma panela de pressão, especialmente se aqueles que convivem com a criança são vítimas de mudanças de humor, de inseguranças, medos, ansiedade, o que, como observava Henri Wallon, um dos grandes estudiosos da infância, facilmente contagia os pequenos. Nesta crise vivida em que muitas podem ser as dificuldades – materiais, emocionais e físicas até pela falta do movimento e de uma vida mais regular – se torna necessário estimular nossa capacidade resiliente.

A resiliência é a capacidade de lidar com dificuldades sem se deixar arrastar por elas, sem desmoronar ou se afetar a ponto de perder o controle. Como seres humanos vulneráveis que somos, os problemas nos abalam sim, mas a capacidade resiliente, tão importante em meio a crises, nos permite como diz a letra da canção “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Cabe enfatizar que a resiliência não é inata, não nascemos ou não resilientes, embora a vivência de cada um possa gerar maior ou menor estrutura resiliente, estando vinculada ao desenvolvimento e crescimento humanos. Outro ponto importante e muito positivo é o fato de ser uma capacidade que pode ser trabalhada, tanto individualmente quanto em grupo, o que significa que a família e a escola podem ser espaços propícios para isso. Mas como, vocês podem me perguntar, se estamos sem aulas presenciais? Falaremos disso já, já.

O celular ou o notebook podem propiciar o contato das crianças com os avós, tios, primos e amiguinhos através de vídeos. Esta é uma forma de manter vínculos importantes para a criança. (Foto de Andrea Piacquadio -Pexels)

A primeira questão fundamental a se levar em conta (o que as pesquisas que desenvolvi ao longo de alguns anos me ajudaram a confirmar) é que a resiliência se relaciona com a corporeidade, que envolve pensamentos, sentimentos e ações (atitudes/comportamentos) e as relações estabelecidas com o outro e com o meio ambiente. Não foi à toa que quando iniciei este blog em 2016, o primeiro tema escolhido foi corporeidade, isto é, uma visão integrada do ser humano, temática a que sempre retorno pela sua importância e relação com vários aspectos do desenvolvimento infantil. O distanciamento do ser humano de sua corporeidade explica algumas dificuldades em lidar com os problemas que surgem no dia a dia, gerando muita ansiedade e angústia pela dificuldade de a pessoa entender as próprias emoções, de lidar com elas e de expressá-las.

José Tavares, estudioso de educação e resiliência, considera que todos nós deveríamos possuir características resilientes tais como vínculos afetivos, flexibilidade, empatia, criatividade, inteligência, autonomia, liberdade, autenticidade, autoconfiança, sendo capazes de enfrentar situações adversas mantendo nosso equilíbrio. Entretanto, o ritmo de vida acelerado e competitivo de nossos dias faz com que as pessoas não se percebam, vivam ligadas no piloto automático e em permanente estresse, o que se intensificou muito com a Covid 19. E, não tenham dúvida de que crianças também se estressam e muitos sintomas daí decorrem. Afinal, elas são extremamente sensíveis ao que as cerca. Assim, as características apontadas por Tavares como “naturalmente resilientes” vão se perdendo, ou mesmo, sendo abafadas. E nesta fase, com a pandemia que vivemos, isso pode se agravar e muito. A flexibilidade dá lugar à rigidez, a autenticidade e a criatividade abrem espaço ao senso comum e à repetição, e a autoestima e autoconfiança vão se perdendo.

Então, como podemos instigar a criança a ter maior contato consigo mesma e ter essas características estimuladas? Como podemos contribuir objetivamente para desenvolver sua capacidade resiliente?

Manter vínculos afetivos é fundamental para estimular a capacidade resiliente, inclusive aqueles que possibilitam o toque carinhoso e o abraço. (foto de Elly Farrytale – Pexels)

Vamos considerar, aqui, aspectos que podem ser facilmente compreendidos e vivenciados por pais e professores. O primeiro a considerar são os vínculos afetivos. O ser humano é um ser social, por isso necessita do contato com o outro para a sua formação como indivíduo. Sentir-se amada e protegida traz segurança para a criança, e isso inclui o estabelecimento de regras e limites e não apenas fazer o que ela deseja. A convivência com os avós, a família e os amiguinhos deve ser sempre estimulada. Neste momento, contatos através de vídeos ou até por telefone são muito importantes.

Embora não tenhamos ainda aulas presenciais, as aulas remotas devem criar possibilidades para que a criança manifeste seus sentimentos o que pode ocorrer pela expressão oral ou através de desenhos, histórias em que se podem trabalhar emoções, criação de personagens e músicas com movimentos. A presença da professora e dos coleguinhas, embora à distância, certamente será fundamental para a criança.

O segundo ponto importante são as brincadeiras, o prazer e a alegria. Alguns autores consideram que o humor (o bom humor, é claro!) é um dos pilares da resiliência. Acredito que nosso povo passe por tantas sem desmoronar por seu senso de humor tão aguçado. Assim, pais ou professores, possibilitem situações em que haja espaço para o riso, a leveza, a alegria. Deixe que as crianças rolem no chão e se movimentem de acordo com as possibilidades; deixe que se sujem na areia, que tenham contato com as plantas, com a água, com o sol e com espaços abertos, se houver esta possibilidade. O ato motor está relacionado não só ao mundo físico, mas também à afetividade e à cognição, não é simplesmente o deslocamento no espaço físico, ele é repleto de expressividade, reflete muito do que sentimos e pensamos.

As brincadeiras de faz de conta não podem ficar de fora, são uma oportunidade ímpar para as crianças trabalharem suas emoções, processarem suas tristezas, aquilo que ainda não conseguem entender bem. A criança, através deste tipo de brincadeira, pode transferir para os personagens que cria suas ansiedades, angústias, desencantos e dúvidas e olhar para eles de outra maneira. Panos coloridos e caixas de vários tamanhos forradas podem se transformar naquilo que se desejar: de bercinho de boneca a carro de corrida, e (quem sabe?) em um barco, uma tenda, ou um tambor. Tais atividades trabalham a autoexpressão, criatividade, flexibilidade, empatia, liberdade, espontaneidade e autonomia, características resilientes.

O terceiro ponto são as atividades artísticas, formas incríveis estimular autoexpressão, criatividade e todos os outros aspectos citados por Tavares. As atividades de artes na educação infantil devem proporcionar momentos prazerosos, que provoquem na criança o desejo da descoberta, a flexibilidade manual, a destreza, a criatividade, a produção e a reflexão, nas quais podem ser explorados diversos materiais. Não são recomendáveis o colorido de figuras xerocadas ou a cópia de modelos, uma vez que podam a expressão pessoal. Se a criança quiser desenhar um super-herói, estimule-a a criar a situação em que ele se encontra ou a fazer o seu próprio desenho. Geralmente, elas adoram livros de colorir e não há problema em usá-los se desejam. Mas não deixe de estimular um espaço de autonomia e criatividade. Deixe que dancem, que representem personagens dos livros infantis ou que criarem.

Ler, criar personagens, dramatizá-los o que pode ser orientado pelos pais ou professores mesmo que online, é essencial para trabalhar a sensibilidade das crianças. (Foto de Cottombro – Pexels)

Brincadeiras e jogos, pintura e colagem, cantigas, jogos musicais e teatrais, contação de histórias, dança e muito mais são atividades lúdicas e permitem que a corporeidade da criança seja trabalhada.

Quanto mais trabalharmos a relação com nossa corporeidade, compreendendo a indissociabilidade das dimensões humanas – motora, cognitiva, afetiva, espiritual e social, mais chances teremos de desenvolver nossa capacidade resiliente. Raiva, tristeza e frustrações fazem parte da vida do ser humano, e poder reconhecê-las e expressá-las de forma adequada pode contribuir para buscarmos melhores maneiras de enfrentar os problemas de forma mais equilibrada, com mais flexibilidade.

As boas experiências vividas com regularidade na infância deixam marcas indeléveis que ficam registradas no corpo e no eu mais profundo, e que estarão disponíveis quando o sofrimento bater à sua porta. Essa forma de nutrição da alma permite que novas forças sejam acessadas quando se fizerem necessárias.

Uma criança que tem uma infância feliz, que teve (tem) o apoio de quem cuida dela, seja pai, mãe ou outro responsável, que se sabe amada e respeitada terá chances maiores de se tornar um adulto mais equilibrado, mais feliz e mais resiliente.

Se tiver alguma dúvida em relação ao que foi apresentado, se algo não ficou claro, se tiver sugestões ou quiser fazer comentários, entre em contato conosco através do espaço abaixo no próprio site. Sua participação é sempre muito bem-vinda e significativa.

Rotina, autonomia e resiliência: os novos tempos exigem

No último artigo, mais uma vez nos detivemos em questões significativas neste momento em que nossas vidas sofreram muitas mudanças. Filhos em casa, home office, aulas online, novos protocolos de comunicação e de convivência. Falamos da importância do que nos traz a BNCC, que não só nos orienta para a educação escolar como dá dicas valiosas para a educação familiar. Nesta postagem, vamos nos deter mais um pouco na importância de criar rotinas e aproveitar este momento para trabalhar mais a autonomia da criança e a resiliência.

Rotina: mais segurança e equilíbrio

Estabelecer rotinas proporciona maior segurança aos nossos pequenos e ajuda a minimizar a ansiedade. Neste momento, em que muitas foram as mudanças sofridas, a manutenção de novas regras cria, além de uma “nova normalidade”, uma forma de equilibrar a convivência familiar, de estabelecer novos padrões que possam conciliar atividades de pais e de filhos. Como salientei no texto anterior, propor tarefas para todos é também um modo de desenvolver a autonomia das crianças e de incluí-las nas atividades da casa, o que as ajuda, ainda, a criar um maior senso de pertencimento. Cada um poderá ajudar com pequenas tarefas ou maiores, dependendo de sua idade e aptidão.

Mais importante que qualquer coisa é a intenção da criança de colaborar nas atividades de casa. Foto de Tatiana Syrikova

Mas não confunda rotina com camisa de força; se assim for, o resultado será infalivelmente o estresse. As atividades podem ser combinadas e passar por rodízios. Há muito a ser feito como molhar as plantas, alimentar o bichinho de estimação, colocar objetos no lugar ou recolher a roupa para lavar. Outro aspecto que volto a enfatizar é a importância de abrir espaço para o diálogo que una a família para trocas, para conversas. Dizer o que se pensa e do que se gosta ou não de fazer pode ajudar a criança a falar do que a incomoda e pode nos dar a chance de fazer o que talvez seja possível lhe oferecer. Ajudar, dialogar e expressar sentimentos é muito mais simples quando a criança ainda é pequena. E são maneiras de trabalhar a sua autonomia e a inteligência emocional.

Relembrando as orientações da Base Nacional Comum Curricular- BNCC para a Educação Infantil, se estabelecem seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças que lhes asseguram situações em que possam ter papel ativo e que lhes permitam vivenciar desafios, sendo estimuladas a resolvê-los. Mesmo em casa, tais situações podem e devem ser proporcionadas. A ideia é que possam, assim, “construir significados sobre si, os outros, e o mundo social e natural”. Tais direitos são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

Autonomia: o que toda criança precisa desenvolver

Dar força e assessorar a criança é fundamental Foto de Gustavo Fring do Pexels

É comum vermos pais que por pressa devido à pressão dos horários, por quererem ajudar a criança, para evitar sujeira ou mesmo com medo que se frustre, tomam a frente para resolver situações que precisam ser vividas por ela. São tarefas das mais simples às mais elaboradas como guardar brinquedos, amarrar cadarços, tirar a roupa ou colocá-la, arrumar a mochila, comer sozinha e outras tantas. Cada fase tem os seus desafios. Mas todas elas precisam de estímulo para que os pequenos, passo a passo, ganhem autonomia motora, cognitiva e emocional.

 

Deixar que a criança tome decisões aumenta sua autoconfiança e senso de iniciativa. Foto do Unsplash

Uma forma de estimular a autonomia da criança e que os especialistas apontam como fundamental é incentivá-la a brincar sozinha. Além de criar suas próprias brincadeiras, ela terá o tempo necessário para “conviver consigo mesma” e desenvolver mecanismos de se divertir e aprender sozinha. Isso não significa que a criança não tenha a companhia do adulto para suas brincadeiras em outros momentos, o que os neurocientistas afirmam gerar sentimentos de segurança e de prazer, sendo muito positivo para o seu desenvolvimento. Falamos aqui de um tempo que ela possa se entregar às brincadeiras e à fantasia, tempo que também é importante para seus pais.

Para estimular seus pequenos a brincarem sozinhos e a cumprir pequenas tarefas, deixe-os com brinquedos que não precisem da ajuda do adulto e que lhes permita brincar em segurança. Deixe-os imaginar situações, conversar com os personagens da sua fantasia, criar suas próprias regras. Jogos de encaixe e bloquinhos de construção são brinquedos que oferecem sempre novas possibilidades, que viram carros, aviões, barcos, casas e o que mais a imaginação comandar. E não podemos nos esquecer também das atividades de desenho e pintura se a criança puder ser deixada com canetinhas na mão sem pintar a casa toda.

Seu filho se atrapalha para montar o quebra-cabeça ou calçar a sandália? Coloca os dois pés na mesma perna da bermuda? Deixe que tente algumas vezes solucionar a questão ao invés de correr para resolver. Este é um pequeno começo de exercitar a busca da solução. Estimule-o a fazer de outro modo, a lidar com seu erro, a encontrar uma a forma de fazer.

Incentivar a criança a desenvolver atividades como as tarefas rotineiras de que falei acima é muito significativo, pois ela vai ser desafiada a buscar meios de realizar os afazeres que lhe cabem. Também realizar tarefas passadas pela escola, mesmo que supervisionada pelos pais, as ajuda a assumirem a responsabilidade que lhes cabe, e a se sentirem seguros de realizar tarefas. O psicólogo e neurocientista Hudson de Carvalho observa que, para um desenvolvimento psicológico saudável, é necessário propor à criança situações que estimulem a busca ativa por soluções. Isso significa que é benéfico para a criança lidar com situações que a desafiem a buscar saídas para superar dificuldades.

Lidar com a frustração: mais que um problema, uma solução

Frustrações fazem parte da vida, não há como evitá-las. E, por mais que seja difícil, precisamos ensinar nossos pequenos a enfrentá-las ou estaremos criando jovens e adultos insatisfeitos, que têm dificuldade de ser gratos, e que não conseguem lidar com os revezes da vida. Somente aprendendo a suportar as frustrações, tendo clareza de que a vida não nos oferece apenas respostas positivas, mas nos dá inumeráveis retornos negativos e que a persistência faz parte do processo de crescimento do ser poderemos viver com maior equilíbrio. A frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode e nem deve ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência. Ser resiliente não significa passar pelos problemas sem sofrimentos, mas sim ser capaz de superar a si mesmo, de se recompor, até mesmo se fortalecendo.

Resiliência é a capacidade de passar por dificuldades sem que o desespero nos incapacite para a ação, é ser capaz de enfrentar pressões, situações de estresse sem se deixar abater a ponto de desmoronar. Esta capacidade que temos tido necessidade de trabalhar em nós neste momento da pandemia, de grandes perdas para muitos, deve começar a ser estimulada ainda na primeira infância como acabamos de ver.  E a este assunto voltaremos no próximo artigo.

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Grande abraço e até a próxima

A foto em destaque é de Pragyan Bezbaruah de Pexels