Volta às aulas durante a pandemia de Covid-19

Após um ano e meio em casa estudando online, sem ter que conviver com a diversidade e com as regras sociais, nossos alunos voltam às aulas.

A pandemia fez com que nossas crianças permanecessem muito tempo restritas ao ambiente de suas casas. E como sabemos cada núcleo familiar acaba tendo seus costumes, suas bases, suas regras e, ainda, diante de uma situação tão atípica como uma crise mundial na saúde, cada família se adaptou como pode, afinal, muitas tiveram que dar conta do trabalho, da casa e dos filhos.

Nesse processo de adaptação em prol da educação das crianças, algumas famílias levaram as regras da escola para dentro de casa, já outras, optaram por não serem rígidas dada a situação, então, deixaram a criançada solta fazendo o que fosse mais prazeroso.

Sem sombra de dúvida todas as famílias fizeram e, ainda estão fazendo, o melhor que está ao seu alcance para a educação de seus filhos, mas qual o impacto dessas decisões na vida escolar dos alunos?

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Estudiosos divergem sobre os impactos da pandemia nas crianças, alguns dizem que haverá consequências negativas, como ansiedade e estresse emocional e outros, já mais otimistas, alegam que essa geração de crianças poderá desenvolver mais afetividade e capacidade adaptativa às adversidades da vida.

Por toda a situação vivida nos últimos tempos, o que sabemos é que neste retorno às aulas presenciais, nossos educadores tem agora uma tarefa adicional à educação: Entender como cada criança está voltando à escola: Alguns super felizes por reverem seus amigos, falantes e animados por compartilhar novas histórias e vivências e outros com medo da pandemia ainda, inseguros, ansiosos e cheios de dúvidas quanto a situação que estão vivendo, tentando se encaixar de novo nesse ambiente escolar.

O que podemos dizer é que a escola com certeza será o lugar de acolhimento, entendimento e trabalho e que nossos educadores contribuirão significativamente para que nossas crianças possam sair dessa pandemia mais fortes!

APP da Escola
A cultura digital chegou às escolas para ficar?

A pandemia mudou e ainda está mudando nossas vidas. Mas, qual o legado que essas transformações deixarão em um mundo pós covid-19?

Na educação, as mudanças que estavam em curso como o uso da tecnologia em sala de aula e ensino a distância foram aceleradas significativamente.

Escolas, que antes trabalhavam com agenda de papel, por exemplo, tiveram que implantar a tecnologia no meio da pandemia, introduzindo assim o início de uma cultura digital, propiciando que os alunos estivessem em rede e promovendo assim o aprendizado mesmo fora do ambiente escolar.

Outro ponto que teve aceleração significativa foi a  busca por conhecimento em como operar plataformas digitais de vídeo e conteúdo foi o assunto que dominou grupos de whatsapp (os nossos, com certeza). Muitos educadores viraram verdadeiros  “youtubers”, tudo para garantir o engajamento dos alunos mesmo a distância.

E os pais que antes mantinham “distanciamento escolar”? Esses passaram a buscar informações diariamente, interagindo e se comunicando com a escola, gerando uma parceria em prol da educação, afinal, não havia como seguir as normas e as determinações promovidas primeiro pelo Governo e depois pela própria escola sem se comunicar!

Outro exemplo de mudança por efeito da pandemia foi o ensino híbrido, que vem permitindo a flexibilização de algumas atividades, propiciando momentos em grupo, onde o aluno interage com professores e até colegas, estando ele dentro ou fora da sala de aula e também momentos com tarefas individuais, onde o aluno pode estudar sozinho, de forma remota.

Que em 2022 mudanças e inovações na educação continuem acontecendo!

Que não seja por um motivo tão ruim e trágico; que seja pela busca de uma educação de qualidade para todos, que seja porque mais empresas enxergam a educação como um mercado potencial, que educadores estejam engajados em projetos disruptivos e que o Brasil continue sendo visto como um país do futuro e que a educação contribua significativamente para que estejamos sempre bem posicionados no ranking mundial da inovação.

Ludicidade, arte e resiliência: de mãos dadas na pandemia

 

Este momento de pandemia e distanciamento social nos traz muitos desafios, e a criança não está imune a eles, muito pelo contrário. Irritabilidade, sono irregular, agitação são algumas das alterações facilmente observadas. A vida fechada num apartamento e sem o contato com avós, tios, primos ou amiguinhos da escola pode se transformar em viver dentro de uma panela de pressão, especialmente se aqueles que convivem com a criança são vítimas de mudanças de humor, de inseguranças, medos, ansiedade, o que, como observava Henri Wallon, um dos grandes estudiosos da infância, facilmente contagia os pequenos. Nesta crise vivida em que muitas podem ser as dificuldades – materiais, emocionais e físicas até pela falta do movimento e de uma vida mais regular – se torna necessário estimular nossa capacidade resiliente.

A resiliência é a capacidade de lidar com dificuldades sem se deixar arrastar por elas, sem desmoronar ou se afetar a ponto de perder o controle. Como seres humanos vulneráveis que somos, os problemas nos abalam sim, mas a capacidade resiliente, tão importante em meio a crises, nos permite como diz a letra da canção “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Cabe enfatizar que a resiliência não é inata, não nascemos ou não resilientes, embora a vivência de cada um possa gerar maior ou menor estrutura resiliente, estando vinculada ao desenvolvimento e crescimento humanos. Outro ponto importante e muito positivo é o fato de ser uma capacidade que pode ser trabalhada, tanto individualmente quanto em grupo, o que significa que a família e a escola podem ser espaços propícios para isso. Mas como, vocês podem me perguntar, se estamos sem aulas presenciais? Falaremos disso já, já.

O celular ou o notebook podem propiciar o contato das crianças com os avós, tios, primos e amiguinhos através de vídeos. Esta é uma forma de manter vínculos importantes para a criança. (Foto de Andrea Piacquadio -Pexels)

A primeira questão fundamental a se levar em conta (o que as pesquisas que desenvolvi ao longo de alguns anos me ajudaram a confirmar) é que a resiliência se relaciona com a corporeidade, que envolve pensamentos, sentimentos e ações (atitudes/comportamentos) e as relações estabelecidas com o outro e com o meio ambiente. Não foi à toa que quando iniciei este blog em 2016, o primeiro tema escolhido foi corporeidade, isto é, uma visão integrada do ser humano, temática a que sempre retorno pela sua importância e relação com vários aspectos do desenvolvimento infantil. O distanciamento do ser humano de sua corporeidade explica algumas dificuldades em lidar com os problemas que surgem no dia a dia, gerando muita ansiedade e angústia pela dificuldade de a pessoa entender as próprias emoções, de lidar com elas e de expressá-las.

José Tavares, estudioso de educação e resiliência, considera que todos nós deveríamos possuir características resilientes tais como vínculos afetivos, flexibilidade, empatia, criatividade, inteligência, autonomia, liberdade, autenticidade, autoconfiança, sendo capazes de enfrentar situações adversas mantendo nosso equilíbrio. Entretanto, o ritmo de vida acelerado e competitivo de nossos dias faz com que as pessoas não se percebam, vivam ligadas no piloto automático e em permanente estresse, o que se intensificou muito com a Covid 19. E, não tenham dúvida de que crianças também se estressam e muitos sintomas daí decorrem. Afinal, elas são extremamente sensíveis ao que as cerca. Assim, as características apontadas por Tavares como “naturalmente resilientes” vão se perdendo, ou mesmo, sendo abafadas. E nesta fase, com a pandemia que vivemos, isso pode se agravar e muito. A flexibilidade dá lugar à rigidez, a autenticidade e a criatividade abrem espaço ao senso comum e à repetição, e a autoestima e autoconfiança vão se perdendo.

Então, como podemos instigar a criança a ter maior contato consigo mesma e ter essas características estimuladas? Como podemos contribuir objetivamente para desenvolver sua capacidade resiliente?

Manter vínculos afetivos é fundamental para estimular a capacidade resiliente, inclusive aqueles que possibilitam o toque carinhoso e o abraço. (foto de Elly Farrytale – Pexels)

Vamos considerar, aqui, aspectos que podem ser facilmente compreendidos e vivenciados por pais e professores. O primeiro a considerar são os vínculos afetivos. O ser humano é um ser social, por isso necessita do contato com o outro para a sua formação como indivíduo. Sentir-se amada e protegida traz segurança para a criança, e isso inclui o estabelecimento de regras e limites e não apenas fazer o que ela deseja. A convivência com os avós, a família e os amiguinhos deve ser sempre estimulada. Neste momento, contatos através de vídeos ou até por telefone são muito importantes.

Embora não tenhamos ainda aulas presenciais, as aulas remotas devem criar possibilidades para que a criança manifeste seus sentimentos o que pode ocorrer pela expressão oral ou através de desenhos, histórias em que se podem trabalhar emoções, criação de personagens e músicas com movimentos. A presença da professora e dos coleguinhas, embora à distância, certamente será fundamental para a criança.

O segundo ponto importante são as brincadeiras, o prazer e a alegria. Alguns autores consideram que o humor (o bom humor, é claro!) é um dos pilares da resiliência. Acredito que nosso povo passe por tantas sem desmoronar por seu senso de humor tão aguçado. Assim, pais ou professores, possibilitem situações em que haja espaço para o riso, a leveza, a alegria. Deixe que as crianças rolem no chão e se movimentem de acordo com as possibilidades; deixe que se sujem na areia, que tenham contato com as plantas, com a água, com o sol e com espaços abertos, se houver esta possibilidade. O ato motor está relacionado não só ao mundo físico, mas também à afetividade e à cognição, não é simplesmente o deslocamento no espaço físico, ele é repleto de expressividade, reflete muito do que sentimos e pensamos.

As brincadeiras de faz de conta não podem ficar de fora, são uma oportunidade ímpar para as crianças trabalharem suas emoções, processarem suas tristezas, aquilo que ainda não conseguem entender bem. A criança, através deste tipo de brincadeira, pode transferir para os personagens que cria suas ansiedades, angústias, desencantos e dúvidas e olhar para eles de outra maneira. Panos coloridos e caixas de vários tamanhos forradas podem se transformar naquilo que se desejar: de bercinho de boneca a carro de corrida, e (quem sabe?) em um barco, uma tenda, ou um tambor. Tais atividades trabalham a autoexpressão, criatividade, flexibilidade, empatia, liberdade, espontaneidade e autonomia, características resilientes.

O terceiro ponto são as atividades artísticas, formas incríveis estimular autoexpressão, criatividade e todos os outros aspectos citados por Tavares. As atividades de artes na educação infantil devem proporcionar momentos prazerosos, que provoquem na criança o desejo da descoberta, a flexibilidade manual, a destreza, a criatividade, a produção e a reflexão, nas quais podem ser explorados diversos materiais. Não são recomendáveis o colorido de figuras xerocadas ou a cópia de modelos, uma vez que podam a expressão pessoal. Se a criança quiser desenhar um super-herói, estimule-a a criar a situação em que ele se encontra ou a fazer o seu próprio desenho. Geralmente, elas adoram livros de colorir e não há problema em usá-los se desejam. Mas não deixe de estimular um espaço de autonomia e criatividade. Deixe que dancem, que representem personagens dos livros infantis ou que criarem.

Ler, criar personagens, dramatizá-los o que pode ser orientado pelos pais ou professores mesmo que online, é essencial para trabalhar a sensibilidade das crianças. (Foto de Cottombro – Pexels)

Brincadeiras e jogos, pintura e colagem, cantigas, jogos musicais e teatrais, contação de histórias, dança e muito mais são atividades lúdicas e permitem que a corporeidade da criança seja trabalhada.

Quanto mais trabalharmos a relação com nossa corporeidade, compreendendo a indissociabilidade das dimensões humanas – motora, cognitiva, afetiva, espiritual e social, mais chances teremos de desenvolver nossa capacidade resiliente. Raiva, tristeza e frustrações fazem parte da vida do ser humano, e poder reconhecê-las e expressá-las de forma adequada pode contribuir para buscarmos melhores maneiras de enfrentar os problemas de forma mais equilibrada, com mais flexibilidade.

As boas experiências vividas com regularidade na infância deixam marcas indeléveis que ficam registradas no corpo e no eu mais profundo, e que estarão disponíveis quando o sofrimento bater à sua porta. Essa forma de nutrição da alma permite que novas forças sejam acessadas quando se fizerem necessárias.

Uma criança que tem uma infância feliz, que teve (tem) o apoio de quem cuida dela, seja pai, mãe ou outro responsável, que se sabe amada e respeitada terá chances maiores de se tornar um adulto mais equilibrado, mais feliz e mais resiliente.

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