A criança e a tecnologia: ganhos ou perdas?

Em textos anteriores, falamos da importância do movimento e da brincadeira para nossos pequenos e o quanto a imobilidade diante da tevê ou das telinhas de tablets e celulares pode bloquear o desenvolvimento de habilidades significativas para as crianças. Uma de nossas leitoras sugeriu em seus comentários que aprofundássemos um pouco mais a questão das relações entre a tecnologia e a criança, o que trazemos neste artigo.

crianca-segurando-tabletAs crianças têm verdadeiro fascínio por computadores e celulares e lidam com eles com uma facilidade que nos surpreende. Bem pequenos, já entram em sites e acessam seus vídeos preferidos. Marc Prensky denominou de nativo digital aqueles que já nasceram em um mundo em que a tecnologia criou uma realidade e formas diferenciadas de conectividade, exigindo de nós um novo olhar para as relações que se estabelecem entre a criança e as tecnologias atuais, uma vez que não podemos desconsiderá-las. Elas estão aí e nós as usamos todo o tempo. A criança quer fazer o mesmo, afinal, a imitação é uma forma de aprendizagem.

É impressionante a facilidade com que as novas gerações interagem com a tecnologia, enquanto nós, de gerações anteriores, tenhamos precisado nos dedicar a controlar até o movimento do mouse. Eu mesma fui “alfabetizada tecnologicamente” pelos meus filhos e precisava tomar um relaxante muscular a cada “aula”. Hoje, vendo a facilidade com que os pequenos dedinhos infantis fazem e desfazem, fico me perguntando como desconsiderar uma habilidade que talvez possamos chamar de “praticamente inata”.

Entendo, como alguns estudiosos do assunto, que a tecnologia tem o seu lado negativo e o positivo, podendo, portanto, trazer vantagens ou problemas, dependendo da forma como a criança se relaciona com ela. Quando falamos do processo de ensino e aprendizagem, ela pode trazer benefícios e se tornar uma importante ferramenta. Alguns canais próprios para o público infantil, por exemplo, oferecem programas pedagógicos de boa qualidade, estimulando a aprendizagem, o canto e a dança de maneira apropriada para o público infantil. Mas, infelizmente, isso, que eu saiba, só está disponível na tevê a cabo.

Alguns estudiosos podem se mostrar bastante radicais, como Valdemar Setzer, e acreditam que passatempos tecnológicos devem ser8630.16221-Jogando-videogame excluídos do mundo infantil. A razão deste autor citado para isso se deve ao fato de considerar que os meios eletrônicos exigem grande autocontrole e autodisciplina, o que ainda não foi adquirido pela criança. Argumenta, ainda, que antes de adquirir uma boa dose de discernimento entre o que é bom ou mau, verdadeiro ou falso, o que só é alcançado no final da adolescência, se torna um risco expor a criança a possibilidades e perigos com que ainda não está preparada para lidar. Acredito que isso aponta, inegavelmente, para um cuidado de que os pais não podem abrir mão, o de gerenciar por que caminhos virtuais navegam as crianças.

Um outro ponto mencionado por Setzer, que creio não poder ser desconsiderado, é o risco de  o computador estimular um pensamento muito exato e restrito para os pequenos, podado-lhes a imaginação e a criatividade, ideia compartilhada por outros estudiosos do assunto.

Tecnologia e saúde da criança

Um grande perigo, sem sombra de dúvida, é a substituição das brincadeiras e das atividades físicas pelos aparelhos eletrônicos. Como analisamos em textos anteriores, a criança se desenvolve e aprende através dessas atividades em que sua corporeidade pode ser trabalhada, o que inclui as relações com outras crianças, daí a importância de as escolas manterem espaço para o brincar. Sabemos que nem sempre a criança tem a oportunidade do contato com outros pequenos, e a escola é um espaço-tempo privilegiado para as trocas. Somos seres sociais e, como tais, precisamos aprender a lidar com pessoas, a enfrentar os desafios e prazeres da convivência, a aprendizagem das emoções.

crianca-comendo-computadorOutro ponto que vale enfatizar é que a inatividade gerada pelo uso abusivo da tecnologia tem gerado outro sério problema: a obesidade infantil e a rigidez corporal. A obesidade gerada pelo sedentarismo gera outros danos cujos índices registrados têm aumentado bastante: diabetes, hipertensão arterial e problemas cardíacos. A rigidez, além de poder provocar dores no corpo, diminui sensivelmente o fluxo da bioenergia, causando apatia e desânimo.

O uso indiscriminado da tecnologia, além dos riscos físicos já citados, pode trazer transtornos psicológicos como depressão, ansiedade, embotamento afetivo e social, isto é, a criança passa a ter dificuldades de expressar suas emoções e de se relacionar. Não podemos perder de vista que a criança, especialmente na primeira infância, está em fase de intenso desenvolvimento e amadurecimento cognitivo, afetivo, motor e social, cheia de energia e curiosidade, com muita imaginação e criatividade, pronta para descobrir o mundo que a cerca, o mundo real, mais importante que o virtual.

Não tenho dúvidas de que o uso indiscriminado e não supervisionado desses meios eletrônicos, é um grande risco. Cabe a nós,3231859613-criancas-brincando educadores – pais e professores, estimular o desenvolvimento infantil através da arte, das histórias, de atividades criativas e do movimento. De que seja valorizado o espaço para que possam vivenciar atividades lúdicas e que exigem movimento, estimulando-se a relação com familiares e amiguinhos.

O que fica muito claro para mim é o fato de que nós, educadores, precisamos ter bom senso Não se trata de proibir o uso da tecnologia, isso só causaria tentativas de burlar a proibição ou a sensação de ser diferente de outras crianças. Trata-se de criar limites e aproveitar as vantagens dos recursos tecnológicos que podem contribuir no processo de ensino-aprendizagem da criança, dosando-se o tempo de entrega da criança aos eletrônicos, evitando-se influências negativas que prejudiquem o desenvolvimento saudável de nossos pequenos.

Suas sugestões, comentários e perguntas são sempre muito bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo. Responderei assim que possível.

Um grande abraço e até a próxima.

Fotos de meu arquivo pessoal e da web.

 

Author

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.