Aprendizagem e neuroplasticidade: algumas relações iniciais

Não tenho a menor dúvida de que todos nós, educadores, sejamos professores ou pais, queremos que nossos pequenos se desenvolvam e aprendam, e que também tenham prazer em passar por esse processo. Entretanto, a aprendizagem não ocorre de maneira linear, não é a mesma para todos, e o conhecimento da neuroplasticidade pode nos ajudar a entender melhor alguns aspectos da estimulação da criança e do direcionamento da prática pedagógica.

Ao longo de nossa existência, o cérebro passa por uma constante mutação de sua rede de conexões neurais – as sinapses, e estas conexões se devem aos estímulos do meio ambiente, do contato com pessoas e situações. A plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem em se adaptar às necessidades do indivíduo. O Sistema Nervoso Central (SNC) é capaz de modificar sua organização estrutural e funcional em função dos estímulos externos. A partir de experiências vividas pelo indivíduo, redes de neurônios são reorganizadas, sinapses são reforçadas e são possibilitadas novas respostas em função do que é necessário.

Até meados do século passado, acreditava-se que as conexões entre os neurônios (sinapses) que se formavam na infância eram imutáveis. Mas estudos em neurociências nos mostram que não é isso que acontece, nos mostram que estas sinapses continuam a surgir durante a fase adulta, o que significa que sempre é tempo de aprender. Porém, os estudos também apontam que o sistema nervoso da criança tem maior plasticidade que o de um adulto, e isto significa que é importante que a criança possa ser estimulada nessa fase para favorecer seu desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social.

Um primeiro ponto importante para a prática pedagógica a enfatizar é que estímulos diferenciados (música, brincadeiras, movimento, desenhos, pinturas, modelagem, diálogos da criança com o adulto e com os amiguinhos, entre muitos outros) ativam estruturas cerebrais.

Outro ponto é que adquirir novos conhecimentos depende de conhecimentos anteriores, assim como de estímulos para aquisição e manutenção do aprendizado.  O conhecimento prévio necessário para adquirir uma nova noção é fundamental, assim como os métodos pedagógicos mais adequados para o nível de aprendizado do educando.  Por exemplo: A criança precisa adquirir uma coordenação global dos movimentos para que tempos ritmados possam ser trabalhados em danças e jogos cantados.  Ela precisa ainda ser estimulada de forma a “curtir” o novo conhecimento (Neste aspecto acredito que isto não é difícil).

Se isso ocorrer, aquele que faz a mediação da aprendizagem, o educador, poderá ter maiores chances de ser bem sucedido. Porém, se a qualidade da mediação não for boa o bastante, as sinapses ocorridas podem não ser eficientes o bastante para que a aprendizagem aconteça.

Dois aspectos merecem ainda ser destacados aqui: o primeiro se apoia na questão de que falamos em nosso artigo do mês de janeiro – a corporeidade, considerando que o indivíduo é uma totalidade que envolve cognição, afetividade, motricidade e relações com o outro e com seu meio social.  Assim, a aprendizagem também ocorre de forma mais ampla. Aquilo que nos afeta (isto é, que atua em nossa afetividade, que nos traz alguma emoção como alegria, encantamento ou prazer), ou que podemos vivenciar corporalmente, ou criativamente, que tem relação direta com com nosso grupo social (como o estudo da região em que a criança mora) será mais facilmente apreendido e aprendido. É importante ter clareza de que o aluno como um todo está envolvido na aprendizagem, não apenas o intelecto.

Outro aspecto a considerar é o que a teoria das Inteligências Múltiplas, criada pelo psicólogo norte-americano Howard Gardner, na década de 1980, nos traz de contribuição. Segundo ele, cada indivíduo tem uma forma própria de ser, com aptidões diferenciadas, interesses diversos. Gardner propôs sete diferentes tipos de inteligência, deixando de lado o conhecido QI (quociente de inteligência) usado na época. São elas: inteligência linguística, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, inteligência musical, interpessoal e intrapessoal.  Posteriormente, a inteligência naturalística foi adicionada à lista.

Assim sendo, não se aprende da mesma maneira, pois há maior ou menor afinidade com diferentes áreas de conhecimento, de acordo com o tipo de inteligência que predomina em cada indivíduo. Todos nós temos todas elas em maior ou menor grau e todas as inteligências podem ser estimuladas e desenvolvidas ao longo da vida. Isso nos permite compreender que é necessário que as crianças recebam maior suporte do professor para trabalhar determinados conteúdos em que haja maiores dificuldades. E isso pode significar mudar a maneira de ensinar. Se o professor repete, mesmo que numerosas vezes, da mesma maneira, a explicação de um conceito, são sempre ativadas as mesmas conexões neurais, o que não favorece a aprendizagem.

O fato de que todas as inteligências podem ser estimuladas e desenvolvidas se refere ao poder de o cérebro criar novas sinapses, ativando áreas menos desenvolvidas.

Se faz necessário considerar as competências e habilidades do indivíduo visto em sua totalidade, que não se valorizem apenas a inteligência linguística ou lógico-matemática, as duas formas de inteligência priorizadas na escola. São importantes? Claro, sem sombra de dúvida!!! O problema é que as demais formas de Inteligência não sejam devidamente consideradas, sejam deixadas de lado.

Se os educadores tiverem conhecimento da inter-relação entre neuroplasticidade  e o processo de aprendizagem, poderão ter maior clareza da importância de  instigar novas aquisições, inovar, propor atividades que estimulem motricidade, cognição, emoções e as relações, e que sejam significativas para as crianças, gerando maior desenvolvimento.

Nosso blog se transformou em livro…

Fotos retiradas da web.

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A vida com sentidos: percebendo o que nos cerca

 

Muitos são os significados que vamos dando ao que está a nossa volta e estes são captados por cinco sentidos que nos permitem perceber o que acontece em nós, nos conectarmos conosco e com nosso meio ambiente – audição, visão, tato, paladar e olfato. Eles são os responsáveis pela capacidade de interpretar os estímulos a nosso redor. Cheiro de fumaça? Algo está queimando. Uma buzina de repente? Opa, cuidado!! Espetada no pé? Pode ser caco de vidro. Vamos desinfetar!!! Cheiro e gosto ruins? Joga fora que estragou. Enfim, nossos sentidos permitem que ações adequadas sejam produzidas.

Entretanto, nem sempre estes sentidos são devidamente estimulados e, quando deixam de ser trabalhados, como se pode esperar que estabeleçamos contatos satisfatórios conosco ou com nosso entorno? Se não ouvi a buzina, nem saí bem rápido do meio da rua, posso ter problemas. Se comi aquele presunto estragado, não sentindo o cheiro e o gosto estranhos, vou passar aperto. Trabalhar os sentidos é trabalhar nossa corporeidade e nossa relação com o mundo que nos cerca. tato

Analisemos o momento que vivemos. Sofremos agressões constantes e violentas, mesmo que nem sempre nos demos conta disso, especialmente em grandes centros. Mas nosso corpo as registra e responde em forma de tensão, irritabilidade, desatenção, desinteresse, falta de acuidade auditiva ou visual, dessensibilizações diversas, entre outras reações. Barulho permanente, ar poluído, alimentação inadequada, muitos e variados estímulos visuais desordenados, tempo prolongado diante das telas da TV, do celular, do computador, dos videogames. “Metabolizar” este acúmulo de estímulos cobra seu preço, mas o custo será mais alto na proporção do tempo despendido e do maior ou menor desenvolvimento sensorial.

Os sentidos podem sofrer um processo de amortecimento como alerta Yvonne Berge. As constantes agressões sonoras embotam a audição, a percepção auditiva diminui, e a faculdade de escuta diferenciada não se desenvolve convenientemente. Por proteção, vai havendo um fechar-se aos ruídos agressores, mas essa “surdez” voluntária e inconsciente na maioria das vezes permanece mesmo quando cessam tais ruídos. O mais sério é que o barulho torna-se como droga necessária sem a qual o homem moderno não pode passar, mas que dificulta sua concentração ou atenção. O silêncio incomoda, preocupa (há quem só durma com o som da televisão, do MP4, ou dos avisos de que chegou mensagem nova no celular. Também o olfato se perde. A poluição não permite um respirar prazeroso e livre. O ar, que é uma das formas de alimento do ser humano, fonte de energização e equilíbrio, torna-se um causador de problemas. A visão é bastante atingida pela sobrecarga de impressões visuais (movimento excessivo, letreiros luminosos, televisão, cinema, efeitos especiais, …). O tato, então, fica praticamente adormecido, parecendo se restringir às pontas dos dedos. O restante do corpo praticamente não recebe estímulos. O paladar também não se livra das agressões e se torna, muitas vezes, incapaz de apreciar uma alimentação mais sadia e natural, acostumada aos “sabores”  da civilização (tudo é regado por mostarda, ketchup ou maionese, e um refrigerante para empurrar tudo isso). Na verdade, ocorre um embotamento da nossa acuidade sensorial.

Os nossos sentidos captam o mundo exterior mesmo que não tenhamos consciência disso. Quantas vezes sentimos uma irritação crescente, sem explicação aparente até que nos damos conta de que a televisão está “gritando”. Falamos mais alto porque o som do trânsito ou da festa não nos permite ouvir a própria voz. E, estudiosos afirmam que a audição é um dos sentidos mais atingidos pelos estímulos externos. Afirmam, ainda, que os sons que nos rodeiam não são percebidos muitas vezes, o que provoca o aumento do nível de tensão e dificuldades de equilíbrio. O ouvido está diretamente ligado à orientação espaciotemporal do corpo, como analisamos no último texto, falando do movimento. O ouvido (sistema vestibular) atua no ajuste do corpo ao seu meio, no seu equilíbrio. Não é à toa que uma labirintite nos tira completamente do eixo.

O ser humano constitui-se pela integralidade de suas partes e todas elas participam do processo de aprendizagem, que passa pelos sentidos, em especial, pela audição, visão e tato. A aprendizagem, seja ela qual for, passa pelo corpo. Toda aquisição de conhecimento tem uma inscrição corporal, que deveria vir sempre acompanhada de sensações de prazer e de estímulo à curiosidade, esta incrível qualidade da criança, que, com muita frequência, é abafada. Na figura que se segue, vemos um ótimo exemplo de estimulação sensorial, as crianças passam por um corredor construído com tubos de pvc com objetos de formas, cores e texturas diferentes Brinquedo sensorialpendurados. Ainda há objetos com sons que podem ser experimentados. Elas podem tocá-los, sentir as diferenças, olhás-las e ouvi-las. Também seus corpos são tocados, o que trabalho o tato além das mãos.

O processo escolar da criança deveria dar continuidade ao seu encantamento de aprender; ao deslumbramento que dela toma conta diante das descobertas; à percepção sensorial vívida que a desperta para sabores, aromas, ruídos, imagens, texturas; que faz com que sua curiosidade se aguce e a tome por inteiro; com que pulse alegremente diante do novo – dos sons, das cores, das tramas, dos gestos, das sensações…

Na próxima publicação, daqui a 15 dias, falaremos mais um pouco dos sentidos e do movimento. Até lá!!!

Seus comentários, perguntas e sugestões são sempre muito bem-vindos!!

menino_palyground - Ludicidade
Ludicidade: vida, cores, alegria e aprendizagem

Olá, educadores!!!

No artigo postado na última segunda-feira, dia 27 de junho, trouxe o conceito de corporeidade, que integra as dimensões cognitiva, afetiva, motora, social e espiritual do ser humano. Chamei a atenção para a importância desta visão de integralidade ao trabalharmos com a criança e para o fato de que há muitas formas prazerosas de trabalhar sua corporeidade.

É através do corpo, do movimento e dos sentidos que a criança percebe o mundo que a cerca, com ele interage e o transforma. O que é experienciado é imediatamente assimilado, o que é vivido é mais bem apreendido e aprendido. No entanto, têm sido impostas à criança uma imobilidade que contraria suas necessidades fundamentais e atividades pouco ou nada significativas para sua experiência pessoal que, muitas vezes, seguem rotinas rígidas e repetitivas que não possibilitam o desenvolvimento de sua autonomia, criatividade e expressividade. Os espaços são inadequados, muitas vezes, ocupados por mesinhas e cadeiras, que tolhem as atividades motoras da criança, reduzem seu campo de experiências e reprimem a expressão natural de suas emoções. Esta “repressão” acaba por entorpecer as sensações, enrijecer movimentos, limitar a expressividade, gerando desajeitamento, desconfiança, e mesmo timidez e insegurança, que podem acompanhá-la na adolescência e idade adulta.

As muitas pesquisas que orientei de mestrado, iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso (TCC) e outras tantas que li, além do acompanhamento de estágios, mostram que isso é muito mais comum do que imaginamos, e que é preciso insistir nessa questão, pois nossas crianças de hoje serão os adultos de amanhã.  E é mais que desejável que se tornem adultos que além de usarem a cabeça, saibam lidar com suas emoções e com seu corpo, enfim, que sejam pessoas felizes consigo mesmas e que saibam se relacionar adequadamente.

Aí, vocês podem me dizer: mas vai virar bagunça todo mundo se movimentando!!! Como vou controlar as crianças??? Calma! Existem muitas possibilidades e podemos escolher o que mais se adeque ao local e ao momento. Uma das possibilidades de trabalhar a corporeidade da criança, permitindo-lhe sentir, pensar e agir em contato com outras crianças e com os adultos se dá através da ludicidade. Quando se fala de atividades lúdicas, a primeira ideia que nos vem é de jogos e brincadeiras. E, sim, estes estão aí incluídos. Mas tais atividades apresentam muitas outras opções. Segundo estudos mais recentes, a visão de ludicidade é bem mais ampla, e é esta visão, da qual compartilho, que desejo trazer para vocês. A ludicidade tem características essenciais que explicam tal amplitude conceitual.  Pode-se citar como mais significativas:

 
a) Cognição, motricidade e afetividade se unem na atividade;
 
b) Na atividade lúdica, a criança desfruta plenamente o momento presente, ou seja, o aqui-agora, sem preocupações com resultados ou com recompensas. Não há um fim para a realização das atividades, a finalidade é a própria vivência lúdica;
 
c) A ludicidade se relaciona à ideia de prazer e não de obrigação; há entrega à atividade;
 
d) O sonho, a fantasia, a imaginação e a criatividade têm livre acesso e podem se manifestar à vontade.

Se observarmos as características acima, podemos perceber que além de brincadeiras e jogos, atividades artísticas como cantar, dançar, utilizar uma das muitas expressões dos jogos teatrais, recortar e colar, colorir, pintar, modelar massinha, construir fantoches; brincadeiras cantadas, contar e ouvir histórias; atividades de sensibilização e respiração, além de muitas outras, são lúdicas. Entretanto, mais importante do que o tipo de atividade proposta é a maneira como é apresentada e orientada para que possa permitir entrega e envolvimento, para que cada um se expresse com liberdade e sem rótulos (isso é/não é bonito, por exemplo).

Nas sociedades capitalistas, em que “tempo é dinheiro”, as atividades lúdicas são consideradas irrelevantes ou de pouco valor, sendo colocadas, com bastante frequência, em oposição a trabalho “sério” e vinculadas à ideia de passatempo. E podemos notar isso quando a professora deixa a criança brincar quando faltam dez a quinze minutos para terminar a aula ou como prêmio para quem ficar bem quietinho e não atrapalhar. No entanto, BRINCAR É COISA SÉRIA! Brincar é possibilitar à criança crescimento pessoal e social.

Como consequência da preocupação de preparar a criança para o futuro, a ludicidade vem perdendo seu espaço na infância, o que pode ser observado com a preocupação de professores que, sabendo da importância do lúdico para a criança, sugerem apenas atividades que sejam pretexto para o ensino de determinados assuntos. Não que isso não possa ser feito, claro que sim! Aprender de forma agradável é sempre bom.  Entretanto, se há preocupação excessiva do professor em utilizar a ludicidade com o objetivo de apenas “transmitir” determinado conhecimento, atividades que poderiam ser prazerosas se tornam exercícios estéreis e sem sentido para o professor e, mais ainda, para as crianças. E podem ter a certeza de que qualquer atividade lúdica traz aprendizagem, e não é pouca!!!

Em nosso próximo artigo, na semana que vem, vamos saber mais da importância da ludicidade para a criança e dos mitos que foram criados sobre isso. Se vocês tiverem alguma dúvida, mandem sua mensagem, pois poderei lhes responder no próximo artigo e (quem sabe?) tirar a mesma dúvida de outros educadores; ou lhes responder diretamente, se for mais apropriado. Boa leitura e até lá!!!