Em tempos de isolamento social: as aulas remotas

 

“Vovó, está muito complicado ter aula pela internet. Fico com a mão levantada um tempão, tenho colegas que não respeitam a professora, que conversam entre eles… Fico muito cansado e muitas vezes não consigo ouvir. (…) Parece que pra ela também é difícil”.  A fala de meu neto, que está cursando o segundo ano do Ensino Fundamental II, traz alguns dos problemas vividos com as aulas remotas. São problemas que unem crianças, mães e professoras. Tenho pessoalmente vivido algumas dificuldades com cursos pela internet, e procurado ouvir especialistas, assistir a seminários, ler desabafos de pais e educadores, mas este não é o espaço para aprofundamentos. Acredito, porém, que saber que as dificuldades vividas não acontecem apenas conosco, pode nos ajudar a redimensionar a questão.

Perguntei a meu neto: qual a pior coisa e a melhor de não poder ir à escola? Ele adora a escola e ficou muito triste com a parada das aulas. “A pior é não poder abraçar os amigos, conversar com eles, estar lá. A melhor é ficar protegido”. Esta resposta aponta para uma questão fundamental: é um momento de preservar a saúde, de preservar a vida. Embora com pouca idade, com a conversa que tivemos, ele deixou muito claro que este é um momento difícil, que não pode estar conosco, seus avós, com quem se preocupa, não pode estar com os amiguinhos da escola, ir à pracinha onde brinca após as aulas e subir nas árvores; que não pode tomar sorvete na padaria perto de casa, ou brincar com os amiguinhos do prédio onde mora. É um tempo de reclusão, sofrido e preocupante. É importante entender que a criança, como nós, adultos, se ressente com tantas mudanças e tantas dificuldades; que não é estranho que surja irritação e agitação excessiva.

Foto de Jaqueline Madeira

Após um tempo de adaptação, as escolas começaram a oferecer aulas remotas. Pensando nisso, resolvi fazer uma pesquisa informalíssima, mas que me permitisse ouvir algumas vozes, saber de colégios e locais diferenciados, de formas de ação. Isso porque em uma linha de percepções, tem-se de “acho ótimo” a “isso não faz sentido”. Pedi ajuda a ex-alunas que são mães e professoras. Por uma questão de respeito só darei o primeiro nome daquelas que me autorizaram a isso, às demais dei um nome fictício. Também omiti o nome das escolas. A intenção aqui não é tecer críticas ou tecer comparações, mas apresentar um quadro que claramente mostra que as experiências são muito variadas e que há um esforço muito grande das professoras no sentido de fazer algo para o qual não foram preparadas na grande maioria das vezes.

Quando falamos de aulas remotas, estão incluídos os aspectos humano, tecnológico e metodológico que não podemos desconsiderar. O lado humano é muito marcante, as professoras com quem tive contato sentem saudades, deixam recadinhos e fica evidente em suas falas que se preocupam com os pequenos. Tecnológica e metodologicamente, todas as professoras entrevistadas foram unânimes em afirmar que foi muito difícil no início, e que ainda há muitas dificuldades a serem vencidas. Mas que já não gastam tantas horas para conseguir um pequeno vídeo, nem tentar tantas vezes até sair bom. Algumas me enviaram os vídeos que vêm fazendo, onde claramente se percebe o cuidado e o empenho. Mas ainda persistem aulas em que a professora fala e os alunos ouvem, precisamente pelo desconhecimento de técnicas às quais nunca tiveram acesso. Há escolas que oferecem aulas três vezes por semana e nas terças e quintas enviam atividades escritas. Outras oferecem as aulas todos os dias e chats para que os alunos tirem dúvidas. Há, ainda, outras formas de comunicação com os pais. Não há uma forma única.

Laura, professora de uma escola particular em Belo Horizonte, conta que fica desesperada, pois, no grupo de whatsapp destinado aos pais, estes perguntam, o que chega a ser um absurdo, como o que fazer com a agitação da criança, com o fato de não querer acordar de manhã para a aula, de a criança estar sendo agressiva ou levantam questões que estão descritas nos vídeos enviados e que a própria criança poderia responder se ouvido com atenção. A ansiedade dos pais quer respostas da professora, que não é formada para ser psicóloga nem para assumir responsabilidades com o que não lhe cabe, tirando-lhe um tempo precioso de cuidar da própria família. Outro problema que também se mostra é o fato de os pais fazerem as tarefas, possivelmente para acabarem logo. A quem isso ajuda? Qual o objetivo disto?

Um aspecto fundamental que não pode ser desconsiderado é que as aulas remotas para quem as acompanha causam um desgaste muito maior que as aulas presenciais. O Professor José Moran, renomado estudioso e conferencista sobre novas tecnologias, assim como o neurologista Fernando Gomes entre outros estudiosos das neurociências enfatizam que o tempo de aulas virtuais não pode ser o mesmo das aulas presenciais. Elas exigem atenção maior e um maior nível de perda de energia, o que aprofundaremos no próximo post.

O que dizem as mães-professoras: alguns depoimentos

Juliana trabalha em uma instituição particular de ensino onde seu filho também tem aulas, em São Joao del-Rei – MG. Ela diz: “Como mãe não está sendo fácil, e não tenho tido tempo de acessar a plataforma todos os dias. Deixo para o fim de semana, fica tudo acumulado. Meu menino fica muito cansado, apesar de a professora ser bastante dinâmica e apresentar vídeos e jogos atrativos, ele não consegue fazer as atividades sozinho devido à idade, tem só seis anos, está no primeiro ano. Eu tenho apenas um notebook e fico das nove da manhã às nove da noite por conta das aulas que tenho que preparar para meus alunos,de  responder aos pais no whatsapp, aos alunos no chat e de preparar os vídeos e as atividades”.

Enquanto estava relendo as falas de Juliana, ela me enviou um áudio, me contando do retorno ao trabalho como supervisora na Prefeitura, também remoto, e como a vida dela virou uma loucura com todas as atividades que lhe cabem preparar. E ainda há um agravante que não podemos desconsiderar. Estamos em meio a uma pandemia que nos cobra cuidados especiais, isolamento social e todas as dificuldades que a vida doméstica nos exige. Como será isso, vai deixar de dormir? E seu filho que já vem, com certeza, sentindo falta de sua presença e a falta do acompanhamento regular, pois só o tem maior nos finais de semana. Como será? Como dar conta de tudo, especialmente, quando há senso de responsabilidade e comprometimento?

Jaqueline foi minha orientanda de doutorado em Oviedo, na Espanha onde mora. Para suas meninas as aulas remotas não foram um problema como para muitos dos nossos professores e de nossas crianças. Está sendo uma experiência positiva, porque a escola já usava a plataforma há quatro anos como uma forma complementar e todos têm um computador, o que infelizmente não ocorre aqui. O governo se encarrega de garanti-los. Têm aulas por videoconferência, trabalhos em grupo, podem compartilhar experiências com os colegas. A mais velha, já exercitada nas aulas remotas antes do distanciamento social, resolve bem suas atividades. Mas mesmo assim, a menor tem dificuldades e necessita de apoio constante dos pais que se alternam para ajudá-la, até pela pouca experiência com as aulas virtuais, uma vez que está há menos tempo na escola. Segundo Jaqueline, as escolas rurais e públicas também tiveram acesso a computadores via governo.

Neste aspecto, temos um grave problema em nosso país, pois há um número enorme de crianças que não possuem computador, nem rede, e há aqueles que vêm tentando aprender na pequena tela de um celular. Uma amiga me conta que leu que há alunos que enfrentam grandes caminhadas para chegar ao alto de um morro onde é possível o acesso à rede.

Renata mora em Campo Grande – MS, é professora da rede municipal e tem dois filhos com ensino remoto, um de 6 anos no Primeiro Ano e outro de 9 anos no quarto ano. Ela diz: “No início achavam chato pelo excesso de atividades, mas a escola se reorganizou, as crianças se acostumaram e gostaram da integração com os colegas. Mas para os pais ainda é bem complicado!”

Foto de Jaqueline Madeira

Renata, que é pedagoga, pontua que, se com formação pedagógica é difícil, que dirá para quem não a tem, ainda mais para crianças que estão no processo formal de alfabetização como um de seus meninos.

Renata me conta que a Secretaria de Educação solicitou que os professores fizessem um caderno de atividades. A escola imprime e entrega aos pais. “Não fazemos aulas virtuais, pois muitas famílias não têm acesso a computadores. E poucos pais participam do grupo do whatszap por onde orientamos como fazer as atividades”.  Será que isso funciona ou gera mais tensão?  As crianças aprendem? Estarão os pais em condições de ajudarem seus filhos?

Todas as mães-professoras se queixam do pouco tempo que podem disponibilizar para os próprios filhos, em especial aquelas que como Juliana, Renata, Thaís e Érica têm filhos em fase de alfabetização, fase esta que exige uma atenção muito especial e atenção dos professores.

Vimos que há vantagens e desvantagens. Mas, afinal, o que é melhor?  Esta resposta é possível? Que cuidados precisam ser tomados? Como minimizar problemas?

Hoje ficamos por aqui, no próximo artigo, continuamos.

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

Fotos gentilmente cedidas por Jaqueline Madeira  .

Em tempos de isolamento social – Parte 2

 

Antes de dar continuidade à nossa proposta de oferecer sugestões de atividades para os nossos pequenos nesses tempos de afastamento social, quero trazer algumas questões importantes que a estudiosa da Infância e pesquisadora Maria Cristina Soares de Gouvea da Universidade Federal de Minas Gerais aborda, e tecer algumas reflexões.

Como eu já havia pontuado antes, este momento é significativo pela aproximação da criança da sua família, e mais que isso, como afirma Gouvea, é um momento de reconstrução dos afetos e da solidariedade. Mas, para isso, é fundamental que os adultos não se furtem a tirar as dúvidas das crianças de forma clara, objetiva e lúdica quanto ao que está acontecendo. A criança tem que ser envolvida na responsabilidade do processo de proteção que se faz necessário. Como observei no último post, a criança percebe que há algo errado e sério acontecendo, mesmo que nada lhe seja dito. E são muitas as mudanças. “Sua anteninha”, que está sempre ligada, capta tudo o que acontece a sua volta.  Por isso mesmo, ela precisa saber, na medida da sua compreensão, o que está acontecendo e como se proteger. Uma boa forma de mostrar à criança de maneira lúdica a questão do vírus pode ser encontrada no link que coloquei abaixo, pelo qual se pode baixar o texto em pdf. Meus netos adoraram.

O tempo de exposição às telas de tevês, computadores e tablets precisa ser controlado. Substituir as telinhas por outras brincadeiras, ajuda a diminuir a irritabilidade e o tédio da criança.

Um segundo ponto que eu também já havia enfatizado, se refere aos meios de comunicação: tevê, celular e computador. Gouvea traz um novo alerta quanto à exposição da criança a estes meios de comunicação, apontando que o natural aumento dessa exposição devido ao isolamento não faz bem nem à saúde física nem à saúde mental da criança. Ela tende a aumentar sua irritabilidade e o seu tédio. Assim, ela aponta que é fundamental criar atividades físicas e lúdicas, recomendando que nós, adultos, dialoguemos com a criança e a infância que existem dentro da cada um de nós. Ao ouvir o áudio da Professora, lembrei-me de um dia, há pouco tempo atrás, em que meu filho e minha neta criaram duetos musicais modulando as vozes e inventando gestos, também das rodas de ciranda e jogos cantados que fizemos em família. Foi muito divertido. Uma outra atividade que sempre faz sucesso é brincar de “Seu Mestre Mandou”, que pode facilmente ser adaptado à faixa etária das crianças e propiciar movimento e ludicidade,  Da mesma forma, Jogos Cantados ou brincadeiras como Chicotinho Queimado também oportunizam o movimento necessário e o prazer da ludicidade. Não é difícil encontrá-los na internet nem fazer com que outros tantos revivam, vindos direto da nossa infância.

Nem sempre vem a ajuda, não é? Mas é sempre um momento de construção importante para a criança.

Também é importante que se construa uma rotina familiar que envolva a todos nas atividades domésticas. Assim, se pode combinar as tarefas de cada um (naturalmente de acordo com a idade e possibilidades infantis): colocar a mesa, arrumar a cama, alimentar os bichinhos de estimação, participar da produção das refeições, lavar a louça. Lavar a louça vira uma brincadeira assim como arrumar a mesa. Nas visitas de meus netos (antes da quarentena), percebo como curtem participar, se sentem importantes podendo ajudar. E se não ficar como gostaríamos, é só ensinar com jeitinho.

A pesquisadora apresenta uma questão que considero essencial e à qual tenho dado muita atenção. Este é um momento de manutenção e fortalecimentos dos laços mais próximos, especialmente com avós e tios. O pai da minha neta menorzinha, manda vídeos e eu respondo com outros vídeos. Outras vezes nos comunicamos ao vivo pelo zap, o que geralmente acontece com meu neto de oito anos anos. Também nos comunicamos com pequenos diálogos escritos. No caso de crianças mais velhas, os vídeos podem ser feitos por elas mesmas. O que não podemos é desconsiderar os laços de afeto, respeito e solidariedade que são importantes para ambas as partes.

Hoje vamos continuar com sugestões das atividades ludoartísticas, muito significativas neste momento que vivemos. Viktor Lowenfeld, estudioso de arte e psicologia, enfatiza o papel essencial da arte na educação das crianças. Pontua que, ao fazer desenhos, pinturas ou outras formas de construção artística, a criança realiza um processo complexo, pois une elementos variados de sua experiência para dar vida a um significado novo de uma totalidade. A criança une o que viu, o que sentiu, o que pensou e dá uma forma muito própria a isso. Ela busca compreender e dar sentidos a sua existência. Daí, o estudioso observar que a criança, mais que uma pintura ou escultura, cria uma parte de si mesma, um modo de interpretar e compreender o mundo.  E esta característica de a arte ajudar a criança na compreensão do que a cerca, neste momento que estamos vivenciando, volto a enfatizar, é de vital importância. Ela não consegue, muitas vezes, dizer como nós, através de palavras o que sente, mas a qualidade expressiva da arte pode ajudá-la. Assim, fazer arte não é um simples passatempo, é uma forma de comunicação consigo mesma, é importante para ela, para seus processos cognitivos, perceptuais, emocionais, sociais e para seu desenvolvimento criativo.

Sempre é bom lembrar que as atividades artísticas desenvolvem aspectos importantes do ser humano seja como indivíduo, seja como ser social como a intuição, a sensibilidade, a empatia (capacidade de compreensão e identificação com sentimentos do outro), a imaginação, a capacidade crítica e o pensamento divergente, que é a capacidade de pensar de forma original, de resolver algo de forma criativa, de encontrar soluções diferentes para um mesmo problema, tendo maior flexibilidade em lidar com situações.

No seu castelo, nossa menina se prepara para a festa.

Que tal preparar uma festa de aniversário?

Esta brincadeira pode estimular muito a criatividade da criança. Podemos começar pelos convites para a festa. A criança com a ajuda do adulto, se necessário, desenha ou pinta os convites em papeis cortados e dobrados ao meio. O bolo, os docinhos, as pipocas, os salgadinhos podem ser feitos com massinha de modelar ou até com massa caseira para modelagem. Papel colorido recortado ou branco pintado com tinta guache, aquarela, gizão de cera ou lápis de cor pode ser a toalha da mesa ou o painel da festa. Também pode ser o papel para embrulhar o presente para a/o aniversariante. O bolo, que pode ser uma vasilha plástica emborcada, se transforma num bolo todo enfeitado com confeitos de massinha. Os convidados? Todas as bonecas e bonecos, valendo comemorar o aniversário dos super-heróis ou super-heroínas e convidá-los para a festa. E a música não pode faltar. Nem as brincadeiras. Com certeza, outras ideias vão surgir!

Para quem mora em casa, pequenas flores, folhinhas, pedrinhas e galhos bem pequenos ajudam muito na decoração do bolo e dos convites também.

Contando histórias e ilustrando

A história pode ser contada pelo adulto ou a própria criança pode contá-la se já estiver lendo ou, também, narrar a história a partir da leitura das ilustrações. Uma atividade que agrada muitos as crianças é ilustrar a parte da história de que ela gostou mais. Também é muito prazeroso para os pequenos criar um personagem, dar-lhe um nome e criar uma situação em que ele esteja presente.

Dividir as brincadeira é um momento especial na vida de irmãos que, por enquanto, perderam os momentos escolares tão importantes para eles.

Vale enfatizar que a expressão livre, diferentemente de imagens mimeografadas permite que a criança expresse medos, angústias, e ouros sentimentos. As imagens prontas podem ter seu momento, mas não devem excluir a expressão infantil. Uma sugestão se você sentir que seus pequenos estão ansiosos: pedir que desenhem uma situação que os incomoda e, a seguir, propor que desenhem uma forma de resolver a questão. Quando trabalhava na dinamização de sala de leitura no município do Rio de Janeiro, uma das meninas do primeiro ano foi atropelada na frente da escola e o medo tomou conta de sua turminha e alguns choravam. Era meu dia de trabalhar com eles. Inventei uma história em que o menino caía do balanço e se machucava, mas que cada um de nós deveria imaginar uma forma de ele se recuperar totalmente, desenhá-la e contar para todos. Claramente, houve transferência da situação para a coleguinha machucada. Mas o mais interessante foram as formas que encontraram de curar o menino machucado da minha história (e da história real vivida pela coleguinha): o beijinho da mãe e da professora, injeções, carinho, perna engessada, varinha de condão de fada, poção do caldeirão da bruxa e outras tantas fórmulas. E a grande notícia: a ansiedade aos poucos foi se esvaindo junto com os traços do desenho.

Na próxima postagem continuamos. Por ora, ficamos por aqui. E você já sabe: solte a criatividade. Esta não está em quarentena. Se tiver fotos que possam me ajudar a ilustrar os textos ou brincadeiras que fizeram sucesso, me conte para que eu possa socializá-las.

https://ufrn.br/imprensa/noticias/34774/livro-infantil-mostra-criancas-enfrentando-virus

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

As fotos são do meu arquivo pessoal e de Daniela Fantoni, a quem agradeço por compartilhar comigo duas fotos dos seus pequenos.

 

 

 

 

Em tempos de isolamento social 1

Em tempos de quarentena, de crianças em casa, de aulas suspensas, mas também de home office, em que os adultos precisam trabalhar, necessitamos criar mecanismos que nos ajudem a acalmar a agitação aumentada da criançada por não poder gastar a energia com as atividades escolares, na pracinha, no parquinho ou na natação. Então, por ora, vou mudar o rumo dos nossos textos, voltando ao previsto mais adiante. Também vou diminuir a peridiocidade de sua publicação para oferecer mais sugestões de atividade.

É preciso dizer também que, apesar de todas as dificuldades que todos nós temos enfrentado, alguns aspectos são muito positivos como o contato mais próximo da criança com a família que, muitas vezes, mal consegue estar com ela.

A expressão artística é a primeira manifestação que não pode faltar: cantar, dançar, representar, desenhar e pintar seja com gizão de cera, lápis de cor, tinta guache ou aquarela. E vale enfatizar que além de ser um meio de tranquilizar a criança, as atividades artísticas têm um poder muito especial de permitir que os pequenos expressem suas angústias, falem de seus receios, façam perguntas, mostrem os sentimentos.

Criatividade e otimismo
Foto de Ana Oliveira Lopes Criatividade e otimismo

Pode parecer que não, mas a criança experimenta a ansiedade que é manifestada nas conversas dos adultos, nos jornais diários pela televisão e na própria tensão que vibra mesmo não sendo vista ou ouvida. Meus dois netos manifestaram sua preocupação. O mais velho, expressou sua apreensão conosco, seus avós, que estamos longe e só nos falamos por vídeo ou telefone (O que acontece com a menor também. Infelizmente estamos mais distantes fisicamente!) Por sermos mais velhos e pertencermos ao grupo de risco, ele manifestou que não quer nos perder, pois somos preciosos para ele. Um doce comentário para nós, mas uma preocupação com ele. Mas pudemos falar sobre isso porque ele conseguiu expressar em palavras. O pai da nossa neta mais nova, ao vê-la chorando, lhe perguntou o que tinha acontecido e ela pôde (e que bom que assim foi) falar de seu medo de que o papai ou a mamãe pudessem morrer. A possibilidade de falar sobre a questão fez uma grande diferença. O medo precisa ser verbalizado sempre que possível. O que não é dito se mantém presente e, muitas vezes, birra, irritabilidade, grude excessivo, aumento da agitação, medo de tudo podem indicar que há algo errado.

A criança, mesmo que pareça entretida com algo que está fazendo, está ouvindo ou percebendo o que acontece a sua volta. Ela tem um “super-radar” do qual nada escapa. Daí a importância de protegê-la de um noticiário mais pesado. Eu mesma, há alguns dias, desliguei a televisão ou, com certeza, já que estava perto da hora de dormir, teria um sono mais agitado. É importante se manter informado, mas não é necessário estar com o rádio ou a tevê ligados em tempo integral. Além disso, a linguagem do rádio e da tevê, com a finalidade mesmo de chamar nossa atenção, já traz elementos discursivos que podem gerar maior tensão.

Então, a ideia é trazer algumas sugestões de atividade que possam entreter nossos pequenos. E vamos começar pela arte. Que criança não gosta de fazer artes e pintar o sete? As atividades artísticas trazem para os pequenos a possibilidade de que se crie uma postura mais harmoniosa e equilibrada diante do mundo, integrando sentimentos, razão e imaginação, e exercitando sua habilidade de discriminar e fazer escolhas, sua capacidade crítica.

Embora possamos elencar muitos ganhos obtidos pela criança ao vivenciar tais atividades como o estímulo à autoestima, à autonomia e à criatividade, um resultado muito importante nos salta aos olhos: elas possibilitam a vivência lúdica, a entrega total a seu fazer. As atividades expressivas como as artísticas e as lúdicas contribuem para que se trabalhe a integralidade do ser, estimulando o intelecto, as emoções e a motricidade, além das relações com o meio e as pessoas. Elas trabalham a corporeidade de que já falamos muitas outras vezes.

Ao estimular a criança a desenhar, contar ou recontar uma história, manipular lápis de cor, giz de cera, pincéis, tinta guache e aquarela, incentivando-a a expressar suas emoções, estamos ajudando-a a se relacionar com o mundo a sua volta e a desenvolver a autocompreensão. Da mesma forma, propiciar-lhe situações em que possa perceber diferentes ritmos, cantar músicas variadas, apreciar imagens, ajudando-a a fazer sua leitura, perceber texturas e formas dos objetos é um modo de lhe oferecer recursos para a leitura de seu mundo.

Mais que um simples passatempo, a arte é uma forma de comunicação da criança consigo mesma e com o mundo. Uma forma de entender o que acontece à sua volta.

O jogo teatral

Brincando com jogos teatrais

Hoje começamos com um recurso expressivo muito significativo para o que estamos vivendo hoje: o jogo teatral. Esta é uma expressão artística, que muito agrada a criança, e que permite que ela exteriorize o que é difícil dizer com palavras. O jogo teatral pode se realizar com o próprio corpo, com bonecos, com fantoches e com o que mais for possível. Há algum tempo, a bermuda vermelha de meu neto virou uma grande fogueira na floresta, que eu, o gigante malvado incendiei. E ele se transformou num corajoso super-herói que enfrentou o fogo para preservar a vida das matas.

Com os jogos teatrais, a criança realiza sonhos, liberta sentimentos acumulados, alivia tensões, resolve problemas, dúvidas e frustrações. Em situações normais, é um excelente meio de socialização, mas em tempos de isolamento social, pode ser adaptado aos componentes da nossa casa. Parte da curiosidade pelo que nos rodeia passa a ser motivo para observar, raciocinar e criar: cenas domésticas, situações na escola, um filme visto…

A criança deve escolher o que quer representar. E as menores, geralmente, partem da própria vivência das situações cotidianas. Lembrei-me agora de quando dei uma maleta de ferramentas para minha neta; ela batia na porta, “tratava o serviço”, fazia o que era necessário, cobrava e se despedia. “Bom- dia, senhora! Qual o problema?”, começava ela. Todos os meus móveis e eletrodomésticos passaram por uma revisão.  Ontem, vi pelo vídeo a máquina de furar e ela me contou que ela virou secador de cabelos. Este é um dos poderes mágicos das nossas crianças, o potencial imaginário e transformador. Potencial que deve ser estimulado e que a arte desenvolve.

A representação pode ser sem palavras, através da mímica: adivinha o que eu estou dizendo? O corpo brincante se encarrega de construir um sem-fim de possibilidades.

Podemos usar uma música ou uma poesia e representá-las…  Uma história pode ganhar um novo final ou novos personagens. Também podemos criar um personagem e uma história para ele.

Brincar de cabaninha ou de casinha oferece múltiplas possibilidades de explorar o universo infantil

Desenvolver a imaginação sempre: usar sons, gestos, criar uma sonoplastia. “Abro a porta… e está rangendo. Preciso colocar óleo. Entro em casa, tiro a roupa, abro o chuveiro, canto no box.  Chiiiii!!! A campainha da porta tocou? Vou fechar o chuveiro para ouvir melhor! Tocou mesmo!!! Quem será? Tenho que me enrolar na toalha. Ai, ai, ai! Agora é o telefone que está tocando, vou atender… Quem estava na porta? E quem ligou para o telefone? Uau!! O chão molhou todo…”  Imaginação não vai faltar.

Esta atividade de criar situações com sonoplastia era muito usada por mim com grupos de crianças quando dinamizava sala de leitura. E pra variar bem, no caso de alunos um pouco mais velhos, eles sorteavam cartões em que havia nomes de fontes sonoras como buzina ou motor de carro, despertador, liquidificador, pregão do vendedor de vassouras, …  Também sorteavam cartões com situações. A ideia era criar e representar a situação com o ruído sorteado. Por exemplo: uma feira com barulho de trator; uma viagem de ônibus com um vendedor de bilhetes de loteria. E o fim era imprevisível…

Naturalmente, as situações e os ruídos se adequavam às idades das crianças e até a sua própria vivência.  Houve um dia em que um grupo me pediu para trabalhar com barulho de sirene e tiros. Eles precisavam elaborar a situação vivida na escola.

Na próxima postagem continuamos. Por ora, ficamos por aqui. E você já sabe: solte a criatividade. Esta não está em quarentena.

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

As fotos são do meu arquivo pessoal e uma delas cedida gentilmente por Ana Oliveira Lopes

 

 

 

Autorregulação, couraças, pulsação e respiração: o que têm em comum?

O que é importante sabermos?

Em alguns de nossos artigos anteriores, citei Wilhelm Reich, médico e cientista, e os conceitos acima, elementos fundamentais da sua teoria da unicidade soma-psique (corpo-mente). Esta é a primeira relação que une estes elementos que vamos aprofundar um pouco mais neste artigo, pois são muito significativos para todos nós, incluindo nossas crianças, que são o foco deste blog. São conceitos essenciais também para entendermos nosso fluxo de bioenergia que, se equilibrado, permite maior vitalidade e uma vida mais saudável.

Autorregulação e as couraças

Reich considera que todos nós temos uma aptidão natural para administrar nossas necessidades básicas tanto biológicas quanto energéticas: a autorregulação. Este é um mecanismo que permite circulação de energia e cria possibilidades de resposta a múltiplas alterações, permitindo que nosso organismo se adapte às demandas que surgem, gerando modificações corporais necessárias como, por exemplo, o controle da temperatura e da pulsação. Assim, estas alterações atuam como um modo de proteção ao organismo. Para o autor, a autorregulação supõe a existência de uma espécie de competência espontânea, visceral, uma capacidade do próprio organismo, que, se saudável, é um sistema autorregulado. Reich aponta uma relação entre um fluxo natural e espontâneo dessa energia e empecilhos que podem prejudicá-lo no processo educacional da criança seja ele familiar ou escolar.

Quando as necessidades básicas da criança não são atendidas, o que se observa, principalmente na educação autoritária ou com altos níveis de violência física ou psicológica, ocorre o encouraçamento, isto é, a formação de couraças musculares. As couraças têm por finalidade proteger a criança, bloqueando emoções com que ela não consegue lidar como o medo muito intenso. Cria-se como que um escudo de proteção. No entanto, embora a protejam da dor, interferem na expressão espontânea dessa criança, impedindo a livre circulação da energia vital, dificultando o processo autorregulador.

Reich apresenta o conceito de couraça como uma “solução inconsciente” para suprimir o medo e permitir uma expressão que seja aceita socialmente. Por exemplo, a criança chora devido a uma grande frustração, mesmo que justa como não poder usar o celular à mesa. Afinal, todos os amiguinhos estão usando. Chorar é uma reação espontânea e deixá-la chorar seria a solução. Meninos e meninas têm esta reação natural e, na maioria das vezes, vão aos poucos internalizando que o uso do celular tem restrições. Mas se a criança é obrigada a engolir o choro seguidamente à custa de castigos severos, ela acaba buscando se adaptar ao exigido, perdendo o direito de expressar sua frustração também compreensível e segurando este choro pela contração do abdômen e a contenção da respiração.

Quero deixar bem claro que as frustrações fazem parte do processo educacional, o que foi tema dos dois últimos artigos. O que precisa ser evitado são as formas de violência com a criança. Também é importante saber que a criança expressar suas frustrações é saudável, exceto se forem manifestadas com mordidas, socos, chutes ou outras atitudes inaceitáveis. Expressar emoções apropriadamente é uma aprendizagem necessária.

Embora evite um maior sofrimento, como vimos, as couraças interferem no fluxo da energia e na autorregulação. Leonardo Jeber, estudioso da teoria reichiana, enfatiza que “a autorregulação é possibilitada por um entorno acolhedor na organização da aula e no jeito de o educador se vincular e se posicionar diante dos alunos, o que significa também colocar limites, mas nunca com violência”. Chamo a atenção de que esta afirmação é válida também para a relação entre pais e filhos. É muito importante, também, ter clareza de que atitudes permissivas, a total falta de limites, o hábito constante de “passar a mão na cabeça da criança” ou fingir não ver seus erros são atitudes extremamente perniciosas como discutimos anteriormente.

 

Respiração, pulsação e flexibilização das couraças. Como o respirar bem vai se perdendo?

Respirar bem é fundamental para o bom funcionamento do metabolismo humano, porém, as tensões do dia a dia fazem com que a respiração profunda passe a uma respiração curta e superficial. Tentando evitar sensações de angústia e ansiedade, a criança interrompe o ritmo natural da respiração e tensiona o abdômen, tentando se proteger, diminuindo sua capacidade respiratória. Esta atitude é automática e universal. Entretanto esta diminuição da capacidade respiratória contribui para reduzir o fluxo energético, assim como o fluxo da criatividade, da autonomia e da espontaneidade.

Respirar profunda e relaxadamente aumenta o senso de concentração. Também não podemos esquecer que, ao se reequilibrar a respiração, se reequilibra a energia emocional. Através da respiração profunda há aumento da carga energética, o que significa, literalmente, que o corpo ganha mais vida. Reich enfatiza que o oxigênio fornece a energia que move o organismo, logo, quando a respiração é inadequada, o nível de vitalidade do organismo tem uma queda sensível. Respirar é equilibrar a pulsação vital, o que significa equilibrar todo o organismo.

O contínuo estado de contração, de tensão ou o seu oposto, um estado permanente, de lassidão, não são desejáveis, e sim o equilíbrio entre contração e expansão.  Esta pulsação que Reich denomina de homeostase é o que favorece a autorregulação.  A ausência de pulsação representa o encouraçamento. 

Conter a respiração é um mecanismo natural de defesa, uma vez que ela é afetada diretamente pelos estados emocionais. O medo de algo visto como perigoso ou de uma punição gera ansiedade que bloqueia o diafragma. Imagine uma criança que vive com medo de levar uma surra quando o pai chegar em casa. Mesmo que não aconteça, o fato de quem cuida dela repetir o dia todo: “quando seu pai chegar, você vai ver, vai ter castigo”, é o suficiente para que o diafragma seja afetado pela ansiedade quando o carro do pai entra na garagem ou a porta de casa se abre. Também poderia ser a insegurança devido a alguém de quem a criança espera amor que sempre afirma que não gosta mais dela pelos atos cometidos. Serem amados é uma necessidade dos pequenos (Aliás, é uma necessidade de todos nós). Podemos dizer sim que não gostamos do que eles fizeram, que ficamos zangados, mas não que deixamos de amá-los. Há um arsenal de atitudes que geram tensão e se transformam em verdadeiros pesadelos: “O monstro vai levar você embora. Ele tá chegando” ou “Se teimar, o bicho papão vai pegar você. Ouviu o barulho dele? Ele está andando no telhado”. Vale lembrar que nosso cérebro não distingue o que é verdadeiro do que não é, mais uma razão para termos cuidado com o que falamos para a criança.

Essa interferência das emoções na respiração é fácil perceber em nós: a raiva nos faz respirar mais depressa, pois o organismo se prepara para o ataque/defesa; o medo paralisa, então, o diafragma se contrai e a respiração fica contida, bloqueando a ação; os estados de tranquilidade e de relaxamento nos permitem uma respiração mais profunda.

A educação autoritária faz com que o professor se mantenha distante do aluno, por acreditar que os vínculos afetivos interferem negativamente no processo de aprendizagem e tiram sua autoridade (uma grande inverdade). Assim, acabam desconsiderando que, especialmente na primeira infância, o aconchego, a aproximação corporal, o abraço carinhoso, o saber ouvir e acolher são necessidades básicas da criança.

Os estudos reichianos e de seus continuadores como Alexander Lowen, criador da Bioenergética, nos mostram que quando não respiramos de forma apropriada (e poucos de nós o fazem) podemos ser acometidos por sentimentos e sensações de derrota, apatia, de medo, de angústia, de impotência. O baixo fluxo de energia nos torna apáticos, com menor nível de sensibilidade e de atenção. No momento que estamos vivendo, que gera tanta tensão e insegurança, as atividades de respiração devem fazer parte da nossa rotina diária.

Hoje, ficamos por aqui. No próximo post, vamos analisar as orientações da Bioexpressão para equilibrar a autorregulação e flexibilizar as couraças. Seus comentários, sugestões e dúvidas são sempre bem vindos. Preencha o espaço abaixo que responderei assim que possível.

As imagens foram retiradas da web

Grande abraço e até o próximo

 

Se desejar aprofundar em autorregulação sob o enfoque reichiano, leia o texto de Leonardo Jeber em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-98432006000100005

Síndrome do Imperador – o que é isso?

 

Em nosso último artigo analisamos a importância de a criança lidar com a frustração. Hoje, vamos aprofundar um pouco mais essa questão e pensar no que o psicólogo Leo Fraiman aponta quanto aos riscos que a chamada síndrome do imperador apresenta ao desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Como havia enfatizado, a frustração em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos, suportar o que a desagrada. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem assim como os adolescentes. Afinal, a vida não responde sempre de forma positiva ou amigável aos nossos desejos, e ter maturidade emocional é saber aceitar as frustrações e adquirir meios de lidar com elas, seguindo em frente, o que, como já observamos em outros textos, é a base da resiliência.

Muitos estudiosos concordam que essa síndrome, muito comum de ser encontrada nos nossos dias, tem origem no fato de que os pais têm menos tempo de estar com seus filhos devido às exigências profissionais e tentam compensar essa ausência cedendo aos desejos das crianças para não as desagradar ou criar desavenças nos momentos de convivência. Acreditam que têm que “fazê-los felizes a todo custo”, sendo criadas situações indevidas para evitar que as crianças sofram frustrações, julgando que é o melhor a fazer. Acabam por criar crianças teimosas, prepotentes, mandonas, intolerantes, mimadas, e sem empatia, isto é, que não conseguem se colocar no lugar do outro.

A síndrome do imperador é resultado de uma visão distorcida dos pais e outros responsáveis pelas crianças que deixam de estabelecer limites, falta esta que pode gerar graves problemas na sua formação. Como observa Leo Fraiman, quem não sabe viver a frustração corre o risco de entrar em depressão porque é alguém que não sabe ir atrás do que deseja, que não sabe ser grato ao que a vida lhe oferece. O psicólogo enfatiza que é uma atitude narcísica dos pais o que gera tal situação, embora estes não tenham conhecimento disso. É claro que nós sempre fazemos o que consideramos o melhor para nossos filhos, ninguém com clareza dos riscos a que a criança é exposta o faria. Fraiman observa que, sobretudo em um mundo em que as relações estão bastante difíceis, os pais ou outros responsáveis pela criança querem ser amados, querem que os filhos sejam seus amigos, que não se aborreçam com eles. Segundo ele, isto se repete no seu consultório inúmeras vezes: os pais querem resolver as dificuldades, mas não querem que os filhos se zanguem, não querem se indispor com eles.

Muitos pais também foram vítimas de uma educação autoritária e não desejam repetir o que vivenciaram, mantendo um clima de camaradagem com os filhos. Entretanto, é importante compreender que estabelecer limites, normas e rotinas domésticas não significa ser autoritário, mas oferecer às crianças o clima necessário que lhes traga segurança e equilíbrio; é assumir a autoridade de quem se responsabiliza por elas e as ama.

Essas atitudes indevidas dos responsáveis impedem que as crianças ganhem autonomia, e Fraiman observa que tirar a autonomia das crianças, gerando apatia, o seu oposto, é como não desenvolver uma musculatura que dá sustentação ao indivíduo e o aleijar. Observa que a neurociência nos mostra que a área do córtex orbitofrontal, atrás da área ocular, é onde se planejam as ações, se criam relações de causa e efeito, se pensam as consequências, é a sede da força de vontade, do freio moral, sendo uma área que se desenvolve pelo treino. O mestre em psicologia educacional e desenvolvimento pela USP enfatiza, ainda, que se a criança não for treinada a esperar, a criar, a negociar, a ceder e a se frustrar está sendo deformada. Alerta que esta criança se tornará chata, birrenta, gastadeira e neurótica. E correrá o risco de vir a se drogar, uma vez que não desenvolveu sua autonomia, e vai precisar o tempo todo do outro para o que deseja. Não é difícil entender que a dependência aos vícios, funcionará como uma “muleta”.

É fundamental que a criança, o adolescente ou mesmo o adulto aprenda a se sustentar nas próprias pernas, que a relação com o outro não seja a de receber o que se quer, que o outro possa lhe proporcionar relações de troca, relações mais saudáveis, que aprenda a investir no que deseja, a ser persistente, criativo… Frustrações são inevitáveis, fazem parte da vida. Poupar nossas crianças de vivê-las só as deixa mais vulneráveis e frágeis, dando-lhes a falsa impressão de que tudo gira em torno delas, ensinando-as a olharem apenas “para o próprio umbigo”, tirando-lhes a possibilidade de lidar com as dificuldades inerentes à vida.

Ouço queixas de professores que sofrem pressões dos responsáveis para fazerem vista grossa a deslizes de seus filhos; que recebem solicitações de mudar notas e de não punirem ações indevidas; de pais que não aceitam reclamações de atitudes incompatíveis com a sala de aula. Ouço reclamações de que os responsáveis lhes pedem: “Dê um jeito no Joãozinho (ou na Mariazinha). Eu não sei mais o que fazer”.  Imaginem uma professora com vinte ou mais reizinhos e princesinhas para dar conta. Também vejo pais que fazem a tarefa dos filhos; deixam que eles já crescidos, na pré-adolescência, durmam na cama do casal; que tomem as decisões do que a família vai fazer ou deixar de fazer; ou  criam brigas com os coleguinhas que se colocam contrários a seu filho ou o desagradam.

Quem não tem sua autonomia trabalhada, muito mais facilmente deposita nas mãos do outro a sua felicidade, o que pode gerar transtornos inúmeros como os que vemos no notíciário. O rapaz que abandonado pela namorada a agride ou tenta matá-la; aquele(a) que tem reações indevidas e muitas vezes violentas se passa por situações que o incomodam ou se leva uma fechada no trânsito. Com certeza, você que me lê já se lembrou de várias outras situações.

Hoje, ficamos por aqui, mas é importante que nos lembremos de que família e escola têm responsabilidades a serem compartilhadas, mas que professores não podem assumir tarefas que cabem aos pais.

Dúvidas, comentários e sugestões são sempre bem-vindos. Assim que puder, entrarei em contato.

Grande abraço e até a próxima

 

Se quiser  saber mais:

FRAIMAN, Leo. Entrevista: O que é Síndrome do Imperador? Programa Todo Seu em 26 fev.2018  https://www.youtube.com/watch?v=RXHvwnJW9Fs

FRAIMAN, Leo. A síndrome do imperador: Pai empoderados educam melhor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019

 

Frustração: é mesmo necessária?

 

Este mês, iniciamos uma sequência de textos que nos ajudarão a entender melhor a relação da criança com seu corpo e o movimento, com seu fluxo de energia vital, com seu processo de autorregulação, e aspectos pontuais para a construção da sua personalidade.  Vamos entender um pouco mais sobre como a criança pode estabelecer relações mais equilibradas consigo, com a família, a escola e outros grupos com os quais conviva.

Contrariamente ao que muitos acreditam, não é apenas a mente que assimila conhecimentos. Afetividade, motricidade e cognição estão permanentemente envolvidas na aprendizagem. As tendências naturais para o movimento e para sua expressão são, desde os primeiros anos, prejudicadas pela prioridade dada à formação intelectual em detrimento do desenvolvimento corporal. E assim, não há uma harmonização entre inteligência, sensações e necessidades básicas, criando-se uma desordem psicossomática que se manifesta cada vez com maior frequência e que pode se traduzir por tensões, tiques, perturbações respiratórias, dificuldades de aprendizagem, perda da espontaneidade e ansiedade.

Para maior compreensão do significado da visão da totalidade corpo-mente na educação da criança, vale conhecer um pouquinho da teoria de Wilhelm Reich e suas contribuições no campo da educação e para a Bioexpressão, uma proposta psicomotora e pedagógica com foco na visão integrativa do ser humano.

A teoria reichiana e a educação da criança

Wilhelm Reich foi um dos primeiros a sistematizar a relação entre o corpo e o psiquismo em inícios do século passado. Postulou a unidade funcional entre o psíquico e o somático, concluindo que a mesma energia alimenta estes dois aspectos, gerando a relação e a mútua influência entre atitudes corporais e atitudes psíquicas. Corpo e mente são uma totalidade e interagem todo o tempo. Quando se trabalha o corpo, se trabalha o ser como um todo.

Segundo Reich, apesar de todo anseio natural pela liberdade e pela vivacidade, as crianças contêm seus impulsos quando não há um ambiente natural propício ao desenvolvimento de sua vitalidade sadia. Muitas vezes, a criança sofre pressões para assumir atitudes que contrariam necessidades essenciais que acabam por fazê-la assumir uma atitude rígida e não-natural. Por exemplo: uma criança muda de posição inúmeras vezes ao realizar uma atividade; inclina o corpo, o movimenta de acordo com o que realiza com as mãos, se alonga, se dobra, senta sobre os pés, se levanta; se agita mais quando está alegre ou narra uma aventura, enfim, pensa, sente e age com todo o corpo. Como exigir que fique sentado imóvel durante muito tempo na escola? Isso contraria uma dessas necessidades básicas: o movimento. Vale destacar que o tempo excessivo diante das telas da TV, do celular, tablet ou computador, embora atraiam muito a criança, também trazem malefícios ao desenvolvimento corporal, uma vez que ficam “hipnotizadas” pelas imagens, imóveis, deixando de desenvolver relações espaciais mais equilibradas.

Quando o educador despreza potencialidades infantis, vendo suas necessidades de contato, movimento e brincadeira, apenas como fonte de transgressão ou impedimentos para a aprendizagem, corre-se o risco de realmente se queimarem etapas do desenvolvimento da criança, impedindo-as de desfrutarem a infância em sua plenitude. Para a criança da educação infantil e séries iniciais torna-se evidente a necessidade do trabalho intelectual conectado ao trabalho motor, lúdico e expressivo para que a criança atinja patamares mais elevados no processo de aprendizagem.

As couraças musculares e de caráter

Pais e professores atuam sobre a criança desde os primeiros anos da infância contribuindo, mesmo que sem intenção, para o seu encouraçamento, através da exigência de um aprendizado do autocontrole que vai além do apropriado para a criança: “Uma criança boazinha senta-se quieta”; “Ficar com raiva da mãe é pecado”; “Homem não chora”; “Coma mesmo sem gostar”; “Engula o choro!”, “Não pode se sujar!”. Como analisa Reich, frases como estas, que bem caracterizam um viés da educação, são, de início, rejeitadas pelas crianças; aos poucos vão sendo relutantemente aceitas, assimiladas e, por fim, exercitadas.  Já ouvi narrativas de estagiárias sobre professoras que serviam pratos muito cheios para alunos e os obrigavam a comer tudo, a comida se misturando às lágrimas. Também de professoras que não aceitavam a criatividade e curiosidade tão naturais da criança, obrigando-as a copiar modelos ou calar perguntas (Felizmente, isso não era a regra; havia situações muito positivas).

A criança tem a “espinha da alma” dobrada, diz Reich; suas vontades não são consideradas, a vida interior e os sonhos são abafados, a espontaneidade contida, a expressão amordaçada. E a criatividade também. Chega um momento em que algumas crenças sem fundamento são assumidas e a criança que se tornou adulto repete para seu filho: “Homem não chora!”. E em momentos de intensa dor não consegue sentir o alívio da dor através das lágrimas devido às couraças criadas.

As couraças musculares, marcas que se gravam no corpo, foram assim denominadas por Reich por representarem um mecanismo de defesa, um escudo de proteção, que surge da necessidade de o ser humano suportar os golpes recebidos ao longo da vida, desde a infância. São um enrijecimento crônico dos músculos que, para proteger o indivíduo de experiências traumatizantes e que podem provocar desequilíbrios, bloqueiam a energia corporal, contendo as emoções. As emoções fortemente sentidas e mal trabalhadas geram tensões que se registram em alguma parte do corpo, bloqueando o fluxo normal das emoções. Os bloqueios criados fazem com que a pessoa tenha dificuldade (ou impossibilidade) de expressar sentimentos comuns como raiva, medo ou prazer. As couraças musculares impedem as crianças (e os futuros adultos) de sentirem seu corpo, de o respeitarem e de aprenderem a ouvi-lo, pois são criados padrões automáticos e inconscientes de resposta.

Não se trata, de forma alguma, de a criança deixar de ser orientada e corrigida, de ter limites impostos, isso faz parte do processo de educar que pais e professores têm a seu cargo, trata-se de ser necessário que suas dificuldades e especificidades, ou seja, de que sua forma de ser e necessidades sejam respeitadas. Uns são mais lentos, outros mais rápidos, há os extrovertidos e os introvertidos, os mais sensíveis ou menos, os mais quietos e os mais agitados, enfim, cada criança tem sua individualidade, sua forma de sentir, de pensar e de agir.

É importante que os sentimentos da criança sejam reconhecidos; que ela seja estimulada a vencer desafios e superar dificuldades, mas sem críticas e castigos duros se ainda não conseguiu chegar lá; elogios pontuais são sempre bem vindos, e os erros podem ser mostrados com amorosidade. E, também, dar-lhes autonomia de escolhas sempre que possível e quando não prejudicar a disciplina necessária. É claro que não podemos deixar que tenha atitudes como fazer birra, se não tem um desejo atendido, pois, lidar com a frustração faz parte do crescimento, mas podemos sim admitir que ela tem o direito de ficar zangada e de dizer ou demonstrar isso, mas não podemos permitir que morda a coleguinha ou chute a professora, que jogue objetos ou grite descontroladamente. As emoções precisam ser trabalhadas e educadas também.

O que basicamente diferencia a criança saudável daquela que apresenta bloqueios energéticos, isto é, os encouraçamentos, é a forma como lidam com as situações; a criança saudável, ao enfrentar circunstâncias difíceis, sai sem maiores danos da condição problemática, ao passo que a que já apresenta encouraçamentos permanece na situação patológica. Problemas e bloqueios vão sempre existir, entretanto, pais e educadores podem contribuir para minimizá-los, para evitar que se cronifiquem e para que as crianças aprendam a lidar com suas emoções.

Outro ponto a considerar, é que tentando evitar a dor das emoções indesejáveis ou insuportáveis, nos fechamos na insensibilidade, nos fechando, também, para sentimentos prazerosos, para o afeto; acabamos por nos fechar ao outro e à própria vida. O isolamento cria novos hábitos, imperceptivelmente, a espontaneidade e a receptividade vão-se perdendo aos poucos e cada vez se torna mais árduo ultrapassar as barreiras criadas, fazer “contato”. O diálogo vai-se tornando cada vez mais difícil.

Para Reich, a frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência.

Entretanto, quando o ambiente escolar e/ou familiar é cercado por uma atmosfera de frustração constante, forma-se na criança um caráter inibido e sem autonomia, o que é prejudicial para seu desenvolvimento. Entretanto, se o educador não tem autoridade, assumindo uma atitude muito permissiva, criam-se crianças sem limites. E todos nós sabemos da importância de estabelecer limites para a vida social, familiar e escolar. Relações interpessoais saudáveis exigem que existam normas de convivência.

De acordo com Reich, uma prática educativa saudável seria aquela em que o professor e/ou os pais colocam limites, algumas regras, que até podem causar descontentamentos, mas que ajudam no desenvolvimento infantil, sem, no entanto, causar inibição através de repressões, críticas e censuras excessivas, o que gera o encouraçamento. Educar com amor e autoridade ao mesmo tempo seria a medida ideal para a formação dos nossos pequenos.

Hoje, ficamos por aqui. No próximo artigo, vamos pensar possibilidades para evitar que as couraças se cronifiquem e analisar alguns pontos que aproximam Wallon, um dos grandes estudiosos da criança, da teoria reichiana.

Dúvidas, sugestões ou comentários? Deixe seu recadinho que responderei logo que possível.

Grande abraço e até lá

Música, sensibilização e aprendizagem

 

Uma das funções do ritmo em nós é a integração das diversas partes

do nosso organismo e a sua harmonização com os ritmos exteriores:

(…) O ritmo é o equilíbrio (…) que sustenta nossas emoções;

é a base de todo movimento humano no espaço, incluindo a música.

Carlos Fregtman

 

Como enfatizei na última postagem, a música é uma linguagem tão valiosa quanto a linguagem verbal (conceitual). Seu poder terapêutico, artístico e pedagógico é ilimitado, pois ela se integra a pensamentos, sentimentos e percepções sensoriais nos níveis mais profundos da personalidade. Trabalhar uma educação estética através da arte é possibilitar que se desenvolva uma personalidade capaz de harmonizar o indivíduo e as relações que ele estabelece com o mundo que o cerca. E isso vale para suas relações intra e interpessoais, assim como para lidar com situações do seu cotidiano.

Yvonne Berge afirma que o trabalho corporal estimula a normalização das alterações rítmicas que ocorrem na transição da fase infantil para a fase adulta, que pode ser perturbada por numerosos fatores psicológicos. Alerta-nos que valorizar muito cedo a leitura e a reflexão abstrata, deixando de lado as capacidades sensoriais e motoras das crianças, é criar uma desordem rítmica que se reflete no modo como se movimentam, gerando coordenações instintivas desorganizadas, provocando desajeitamento. E trabalhar com ritmo, com música, é descobrir e estimular também o domínio espaço-temporal. Para reorganizar o ritmo cotidiano da vida (vejam que boa ideia!), ela propõe uma estratégia que uso muito no meu dia a dia e nas minhas aulas e que funciona muito bem: o deslocamento rítmico. Quando nos sentirmos sobrecarregados, tensos, esgotados, podemos inverter a ordem e/ou o ritmo das nossas atividades. Minha vivência em sala de aula e em trabalho com grupos de professores tem comprovado sua eficiência. Quebrar a rotina, sentir o ritmo da turma e adaptar-se a ele, aproveitar um determinado momento alterando a ordem prevista são, sem sombra de dúvidas, formas de alcançar bons resultados com menos esforço.

Como bem observa Berge, saber extrair energias das fontes do silêncio e distensão e, principalmente, tomar consciência de que o ritmo vivo é muito mais importante do que o rendimento são coisas essenciais, que parecem ter sido esquecidas há muito tempo. Com crianças isso é fantástico, uma cantiga com movimentos ou brincadeiras rítmicas na própria mesinha ou em outro lugar já possibilita que a criança, que vai ficando cada vez mais dispersa e agitada, retorne a um estado de maior tranquilidade e atenção. Vale ter algumas “cartas na manga”.

A música, por ser uma manifestação do sensível, da Arte, geralmente, é vista como um elemento que atua no hemisfério direito. Entretanto, por depender de outras funções como a memória e a análise localizadas no lado esquerdo, o aprendizado musical depende dos dois hemisférios. Estudos comprovam que atividades simples como acompanhar uma música mentalmente, com instrumentos de percussão, ou cantá-la, já é o suficiente para promover uma ativação cerebral. Naturalmente que tocar um instrumento, traz uma atividade cerebral muito mais intensa. De qualquer forma há um estímulo à neuroplasticidade.

Quanto maior o número de estímulos musicais no ambiente escolar (ou em outros ambientes), maior será a atividade cerebral, maior será a formação de novos neurônios. A criança tem uma grande plasticidade cerebral, que embora seja menor no adulto, também pode lhe trazer benefícios.

Cabe lembrar que aquilo que é significativo para a criança (e para os adultos também), que é prazeroso, que é lúdico tem uma atuação muito maior no campo da aprendizagem, da atenção e da memória. E a música tem essa característica de dar prazer, naturalmente dependendo de que se considerem gostos e idades.

Algo de essencial se perde se as vivências estéticas não forem oferecidas pelo sistema educacional. Tais experiências não são o mais importante por si sós, mais importante é a qualidade que está além, que como observei no texto anterior não nos torna artistas, mas seres melhores porque mais humanos. As crianças cantam, fazem rimas, brincam com sons, dançam, desenham e, ao mesmo tempo, orientam-se no seu espaço vital, giram, descem, sobem, descobrem conexões, desenvolvem sua imaginação, dando-lhe forma expressiva. Vivências estéticas criam simbolismos, ajudam a lidar com emoções de uma forma própria a cada pequeno. Temos ainda a possibilidade de vivenciar emoções que aproximem as crianças, estimulando a empatia; ajudar nosso cérebro a criar novas conexões, novos caminhos através das emoções despertadas, novas percepções de mundo. Apreciar, dançar, cantar muitas e variadas músicas proporciona formas criativas para transformar, reconstruir e reintegrar as ideias em novos significados. Traz possibilidades de se desenvolver uma percepção musical mais apurada. Para isso, podemos usar o canto, sons diferenciados (incluindo os do ambiente e os dos instrumentos construídos) ou um Cd.

No texto anterior, sugeri algumas possibilidades de trabalhar música e sons com a criança e elenquei alguns benefícios das experiências musicais como a expressão criativa, o desenvolvimento da atenção, do equilíbrio e do autoconhecimento. Acrescento aqui algumas possibilidades que se relacionam com o hemisfério esquerdo do nosso cérebro: trabalhar a memória, habilidades motoras, coordenação corporal. E outras que se relacionam ao hemisfério direito: desenvolver a imaginação, a criatividade, a harmonia, estimular a fruição, a sensibilidade, a intuição.

O musicoterapeuta Carlos Fregtman aborda a má utilização do hemisfério direito do cérebro onde possuímos faculdades intuitivas e afetivas. Observa que muitos só consideram o hemisfério esquerdo como digno de ser levado em conta por ali se localizaram nossas faculdades cognitivas, racionais; nossa consciência verbal e analítica. O hemisfério direito, muitas vezes deixado de lado, se relaciona com a visão tridimensional, o reconhecimento das formas e contornos, as faculdades musicais, artísticas e o raciocínio holístico. Mas, como frisa o autor, as grandes atividades criadoras surgem da combinação e da ação conjunta de ambos os hemisférios. Lembra-nos o musicoterapeuta que nossa totalidade como pessoa exige a união dos lados esquerdo e direito, da percepção diferenciada de cada um deles, que, na verdade, são complementares.

Visto que desde a mais simples até a mais complexa atividade musical existe atividade cerebral isolada, integrada ou simultânea, é preciso considerar que a educação musical na escola proporcionará ganhos consideráveis para a criança e para qualquer outra faixa etária. É imprescindível, portanto, considerar a musicalização muito além de um passatempo ou preenchimento de tempo vago, deve ser considerada tão importante quanto qualquer outra área de conhecimento.

Seus comentários, perguntas e sugestões são sempre bem-vindos. Deixe-os no nosso site, assim que puder responderei.

Grande abraço e até nosso próximo artigo!

A fotos foram retiradas da web.

 

 

Poder e magia da música para a criança

 

O ritmo está presente em toda parte – nas batidas do coração, no fluxo respiratório; nos processos biológicos, nos fenômenos da natureza. Há ritmo no bater de asas dos pássaros, no vaivém das ondas do mar, nas fases da lua, na cadência dos passos, das palavras, no movimento das máquinas. Como afirma o musicoterapeuta Carlos Fregtman, tudo se manifesta através do ritmo, que é a pulsação vital. Estamos envoltos em uma poderosa sonosfera e não ficamos imunes a ela, pois não temos como desligar nossa audição como fazemos com a visão fechando os olhos.

Pendurados no berço, há caixinhas e objetos que atraem o bebê com musiquinhas e sons suaves, são muitas as cantigas e sons presentes nos brinquedos sonoros, na tevê e nos computadores que atraem a atenção imediata das crianças, e que com o tempo mais e mais exercem atração sobre elas. Primeiro balbuciam, depois, com a aprendizagem da linguagem passam a cantar, mexendo o corpinho, batendo palmas, se entregando ao prazer que a música lhes proporciona.

A música é uma linguagem tão valiosa quanto a linguagem verbal, ou seja, a linguagem conceitual. Seu poder terapêutico e pedagógico é ilimitado, pois ela se integra a pensamentos, sentimentos e percepções sensoriais nos níveis mais profundos da personalidade. Atividades com música como jogos cantados e brincadeiras de roda são formas de a criança se expressar e de adquirir conhecimentos adequados à sua faixa etária. Crianças com necessidades especiais muito se beneficiam com a música, exatamente pelo poder da música de atuar além do verbalizável e de superar resistências, tocando corpo e mente, atuando sobre a sensibilidade que é uma forte marca dessas crianças.

A educação musical na escola não se destina, assim como as outras expressões da Arte, a formar possíveis artistas, mas, sim, a proporcionar uma formação integral de nossos pequenos, trabalhando a corporeidade, ou seja, integrando cognição, afetividade, motricidade e relações sociais. A linguagem musical é um dos meios de desenvolver a expressão criativa e o autoconhecimento, contribuindo muito para as relações interpessoais. Como vimos no texto anterior, uma vez que trabalha as inteligências inter e intrapessoal (autoconhecimento e relações pessoais) estimula a educação emocional.

Também é um meio importante de desenvolver o equilíbrio. Fregtman afirma que tanto os processos corporais voluntários como os involuntários são afetados pelos sons. A música provoca mudanças biológicas – provoca alteração no pulso, na respiração e na pressão sanguínea; relaxa, diminui a fadiga muscular, amplia a capacidade metabólica. Trabalha a sensibilidade, facilitando o acesso a outras formas de estímulo e percepção. O ouvido está diretamente conectado com o sentido do equilíbrio e da direção, do qual depende o controle dos movimentos.

A prática comum em boa parte de nossas escolas de oferecer tudo pronto rouba muito do prazer da aprendizagem – o prazer de experimentar, de vivenciar, de sentir. Construir um instrumento por mais simples que seja e fazê-lo emitir sons é uma rica e prazerosa experiência que merece ser aproveitada.

Muitos são os materiais possíveis: garrafinhas de água e pauzinho de sorvete se transformam em reco-reco que podem sonorizar o barulho de um trem (rápido ou lento, parando na estação) ou acompanhar uma cantiga; tambores e outros instrumentos de percussão surgem magicamente de latas e caixas de papelão de tamanhos diferentes; como baquetas podem ser usados palitos de churrascos com rolhas nas pontas; potinhos e latinhas se transformam em chocalhos. Ainda podem ser usados guizos, sinos e tantos outros objetos que vamos descobrindo aos poucos. A web lhe trará muitas outras ideias. Este material pode ainda ser decorado, ficando com o jeitinho do seu dono.

Sendo a música uma capacidade inerente ao ser humano, todos nós podemos descobrir meios de expressão sonora, seja com o corpo, com a voz ou com um instrumento musical construído com as próprias mãos ou mesmo pronto. É importante que o adulto compartilhe com a criança essas experiências ricas e prazerosas. A improvisação abre espaços incríveis. Os sons são excelentes detonadores da expressão criativa e na contação de histórias; e crianças adoram sons (e histórias também).

Emoção e criação são movimentos pessoais que não fluem através de movimentos alheios, estranhos ou sem sentido; não podem ser moldados por parâmetros massificadores. É importante que a criança (e o adulto também) tenha seus momentos de expressão autêntica, natural, emocional, criadora. Não se pode esperar que todos reajam e se manifestem da mesma forma. Mais que isso, não se deve. Estimular o lugar comum, a uniformidade, é estimular a alienação e o conformismo.

A música possibilita ainda ao educador trabalhar outros aspectos em sala de aula: a atenção, a observação e a concentração; possibilita criar variados ritmos, sons, letras e movimentos; auxilia o desenvolvimento integral do ser (desenvolvendo cognição, motricidade e afetividade); possibilita o conhecimento de ritmos e costumes de diferentes culturas e etnias, como da cultura indígena ou africana.

A música na escola pode estar presente em múltiplas situações e atividades. Pode ser o fundo musical para inspirar uma pintura (mais suave ou mais rápida), um desenho ou qualquer outra atividade através da qual a criança se expresse; pode marcar movimentos do corpo no espaço; pode estar no pátio nas cantigas de roda, nos jogos dramáticos e em inúmeras outras situações escolares.

Trabalhar a música na escola (e em casa também) traz possibilidades múltiplas e bastante significativas para professores que atuam na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, embora não deva ser desconsiderada em outros níveis e modalidades de ensino.

Desta vez, ficamos por aqui. No próximo post, vamos continuar com a música e ver mais de seus grandes poderes. Incluindo o desenvolvimento da neuroplasticidade, do estímulo à aprendizagem e domínio de tempo-espaço.

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Refletindo sobre educação emocional e espiritualidade: algumas relações

Enquanto escrevia o artigo anterior, cujo foco era a meditação, fui observando relações significativas entre corporeidade, educação emocional, meditação e espiritualidade, algumas ainda não analisadas por mim, mas que mereceriam um novo olhar e maior aprofundamento. Neste texto, resolvi ir um pouco mais a fundo nessa questão por acreditar que ela é significativa tanto para a criança, quanto para nós, adultos, para que possamos entrar em maior contato conosco e ter relações mais equilibradas, e para que estejamos  mais conscientes do nosso papel junto aos nossos pequenos.

Inteligência Emocional e Inteligências Múltiplas: conceitos diferentes que se interpenetram

Daniel Goleman, que popularizou o conceito de Inteligência Emocional, e Howard Gardner, com sua teoria das Inteligências Múltiplas, ao final do século passado, trouxeram um novo olhar para o desenvolvimento humano e uma nova visão da interface emoções e inteligência (temas tratados em artigos anteriores). Por muito tempo, a razão foi priorizada em detrimento das emoções, pois estas eram consideradas prejudiciais ao bom funcionamento do intelecto. Entretanto, os estudos das neurociências trouxeram uma visão que revolucionou o que estava posto, e as emoções passaram a ser vistas como fundamentais ao bom desempenho da mente.

As teorias citadas acima foram essenciais para que a relação intelecto-inteligência-emoções fosse revista. A teoria das inteligências múltiplas traz uma visão ampliada das habilidades cognitivas, considerando a Inteligência um constructo subdividido em áreas. Uma criança que não tem grande competência em cálculos pode ter maior habilidade linguística ou musical, o que não significa ser mais ou menos inteligente. As habilidades de autoconhecimento e de conhecimento das emoções dos demais passam a ter tanto peso quanto as anteriormente chamadas habilidades cognitivas.

Aprender mais sobre nossas emoções e identificá-las é uma forma de lidar melhor com elas

Educar as emoções significa aprender a administrá-las  e não é algo tão simples como se vê em algumas propostas que carecem de um bom embasamento teórico. O conceito de inteligência emocional, trazido por Peter Salovey e David  Sluyter, no livro “Inteligência emocional da criança”, expressa bem a sua grande complexidade: “Inteligência emocional é a inteligência que envolve a capacidade de perceber acuradamente, avaliar e expressar emoção; a capacidade de perceber e/ou gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; a capacidade de compreender a emoção; e a capacidade de controlar emoções reflexivamente, de modo a promover o crescimento emocional e intelectual”.

A definição dos autores não deixa dúvidas de que educar as emoções não se limita à capacidade de percebê-las e controlá-las, mas envolve a ação do pensamento sobre o sentimento, da cognição sobre a emoção e exige múltiplas capacidades. Passando sempre das habilidades mais simples às mais difíceis, do perceber e integrar ao administrar. É um processo complexo de construção permanente, que se inicia em contato com a primeira família, passa pela escola e se estende aos ambientes por onde circulamos ao longo da vida como os profissionais, acadêmicos, grupais, de amigos, etc.

Na primeira infância, de forma muito natural, a criança já expressa suas emoções como o medo, a raiva, a alegria, a tristeza e, com frequência, essas emoções são reprimidas pelos adultos. Estas não podem ser mostradas por duas principais razões: por preconceito, por julgarem que emoções não devem ser mostradas ou porque eles mesmos não sabem como lidar com elas.  Aprendemos que se mostrarmos nossas fraquezas, nossas decepções e frustrações, isso pode ser usado contra nós, ou, então, que ficaremos mal diante dos outros. Reich aponta a contenção de nossas emoções como um dos grandes causadores das couraças musculares e de caráter, que bloqueiam o fluxo da nossa energia vital. Um exemplo que todos, com certeza, conhecem é a “proibição” de sentir raiva de um ser querido e a culpa por um sentimento absolutamente normal e incontrolável. Quem de nós não vivenciou isso? Raiva da mãe ou da professora, do irmão ou de um amiguinho? Sentimentos que vêm e vão, embora seja necessário aprendermos a lidar com eles. Afinal, o problema não é sentir raiva, inveja ou medo, mas, sim, o que fazemos com eles. E é na vivência das situações comuns e com as respostas dos adultos que as crianças podem ou não aprender como gerenciar suas emoções. Isso dá uma pequena mostra de como é necessário saber mais sobre as emoções, tanto sobre as próprias como sobre as dos outros.

Mais acima, citei que as emoções eram consideradas prejudiciais à razão, e muita gente, incluindo boa parte dos educadores, acreditam cegamente nisso, e há um sentido para que tal ocorra, uma vez que, em determinadas circunstâncias, as reações emocionais prejudicam o raciocínio e podem levar a ações indesejáveis. Na verdade, o que nubla o raciocínio são as emoções descontroladas, ou não saber identificá-las e delas se proteger. Reconhecer o que sinto, como se chama e que posso fazer com este sentimento, na verdade, melhora minha capacidade de decidir e de atuar.

Exemplifico: em meio a um acesso de raiva, um motorista dirige como um louco e acaba provocando um acidente. Em um momento de desespero e revolta, uma mulher quebra toda a louça que está na bancada da cozinha, tendo um enorme prejuízo. Estes exemplos mostram um destempero causado por emoções e reações extremadas e nada racionais. Mostram ainda a importância de trabalhar as emoções em vez de desconsiderá-las e “empurrá-las para o fundo do baú” ou “pra baixo do tapete”.

O que é espiritualidade?

A corporeidade, como vimos em textos anteriores, é um conceito que engloba motricidade, afetividade, cognição, espiritualidade, relações pessoais e ambientais. A espiritualidade, no contexto aqui utilizado, se refere às necessidades mais profundas do ser humano e que lhe permitem se tornar uma pessoa melhor, como o cuidado com o outro, com seu meio ambiente e consigo mesmo. Quando se fala em espiritualidade, a relação que, geralmente, se estabelece é com religião, e há uma lógica nesse pensamento uma vez que as religiões se voltam para o desenvolvimento espiritual.  Eu a vejo relacionada à forma como Leonardo Boff a considera, como aquilo que provoca uma transformação mais profunda em nós. O teólogo observa que a percepção da unidade corpo, mente e espírito foi fragmentada, deixando de ser considerada devido a um olhar mecânico-racional da nossa cultura. Eu acrescento aqui o viés capitalista da nossa sociedade em que “ter é muito mais estimulado que ser”.

Cuidar de nós e do nosso meio ambiente: uma manifestação da espiritualidade, da nossa humanidade

Assim, não vejo a espiritualidade ligada a uma crença religiosa, mas sim vinculada a uma dimensão mais profunda do ser humano, que nos induz a ir além de comer, dormir e trabalhar, de realizar tarefas de forma mecânica e rotineira; nos induz a sonhar, a construir algo que tenha sentido para nós, a transcender, a nos responsabilizar, a nos compadecer e nos enternecer, a nos sensibilizar, a partilhar, a viver com mais amorosidade, solidariedade e respeito. Tais qualidades não são próprias apenas de alguns; como Boff afirma, a espiritualidade é própria da natureza humana, faz parte do processo de se humanizar, é justamente a dimensão mais profunda do ser. A falta dos sentimentos que nos tornam mais humanos abre espaço à violência, ao vandalismo, ao desrespeito, à indiferença e a outros tantos danos que a sociedade tem vivenciado. E o próprio Gardner investiga e descreve a espiritualidade como um constructo das oito inteligências múltiplas.

Educação emocional e espiritualidade: unindo os fios

Como vimos, falar em espiritualidade significa falar de uma relação consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com o Universo, significa falar da inteligência intrapessoal e da interpessoal, duas das inteligências propostas por Gardner e que são consideradas por Goleman quando trata da inteligência emocional. A inteligência intrapessoal pode ser considerada a capacidade de construir uma imagem real e verdadeira de si mesmo, e de ser capaz de usar essa imagem de forma eficaz. É ter a capacidade de discriminar as próprias emoções, dar nome a elas e saber usá-las para orientar decisões. É uma forma de inteligência que se relaciona à capacidade de se autoperceber e de desenvolver o autoconhecimento. Como ressalta Boff, a espiritualidade que cada um de nós tem se revela pela capacidade de dialogar conosco e com o próprio coração. É poder ouvir nossa alma e atender seus pedidos.

Já a inteligência interpessoal é a capacidade de perceber, valorizar e trabalhar com as intenções e motivações de outras pessoas, de estabelecer relações mais equilibradas. Nas palavras de Boff, a espiritualidade nas relações com o outro se traduz pelo amor, pela sensibilidade, pela compaixão, pela escuta, pelo acolhimento e pelo cuidado. Acrescento aqui o respeito, pois sua ausência tem gerado muita violência tanto psicológica quanto física e inviabilizado muitas relações.

Acolher, cuidar do outro e respeitar as diferenças são expressões da espiritualidade do ser

A meditação de que falamos no último post pode ser considerada uma prática que estimula a nossa espiritualidade, trazendo-nos o aquietamento mental e a consciência do momento presente, uma forma de autocuidado e de autopercepção, portanto de autoconhecimento. Também nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e estimula a empatia, a capacidade de se ver no lugar da outra pessoa. Isso torna mais fácil criar relações em que haja respeito entre aqueles de raças, crenças e culturas diferentes, com opções sexuais diferenciadas e que haja maior solidariedade e fraternidade de que estamos bastante carentes.

Se a criança, como foi analisado, exercitar desde uma idade mais tenra a prática da meditação, do relaxamento e da respiração, estes recursos preciosos e seus efeitos estarão a sua disposição quando forem necessários. Quanto a nós, adultos, se ainda não começamos, é hora de começar. Afinal, como temos conversado, a neuroplasticidade permite que mudanças ocorram a qualquer tempo. E cuidar de nós é fundamental.

 

Fotos retiradas da web.

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Meditação: o que dizem as neurociências?

 

Há algum tempo, assisti a um documentário que falava da meditação para crianças em escolas de São Paulo, e fiquei muito animada por ver que algo que defendo há algum tempo com as práticas da Bioexpressão vem sendo considerado com maior frequência. O desenvolvimento equilibrado do corpo, das emoções, dos sentidos e da cognição da criança constitui, como enfatiza Violet Oaklander em seu livro Descobrindo crianças, o embasamento do senso do Eu dos pequenos e este, quando fortalecido, gera condições para que a criança mantenha relações apropriadas com seu meio e com as pessoas com quem convive.

A Bioexpressão tem como um dos seus principais eixos as atividades de centramento, que objetivam estimular uma respiração mais profunda e favorecer o equilíbrio emocional. A respiração consciente, o relaxamento e a meditação criam um senso de concentração e reequilibram as emoções, aumentando a vitalidade do organismo.

Vivemos uma fase de muita ebulição, de uma preocupação enorme com o ter e o fazer, mas de pouco investimento no ser. Uma época em que somos expostos a muitos estímulos externos o que inclui tablets, computadores, celulares e televisão, que exercem um grande poder e fascínio sobre nossos pequenos (e sobre jovens e adultos, também), cujo uso merece ser visto com cuidado para evitar problemas como analisei em artigo anterior.

Experiências de meditação, visualização, relaxamento e respiração conscientes criam novos caminhos neurais, novas sinapses e conectam todo o cérebro, gerando um novo fluxo de informações e compreensão do aqui-agora. No aquietamento necessário para tais experiências, sentimos paz e temos maior clareza do que acontece a nossa volta.

A meditação ativa permite que a criança se entregue ao momento através de movimentos suaves (Foto de Jaqueline Madeira).

Experimentos científicos realizados mostram como a prática da meditação altera as sinapses cerebrais permitindo maior controle do corpo como a redução da pressão arterial, da aceleração cardíaca e da respiração superficial e irregular, oportunizando que emoções descontroladas sejam substituídas por outras mais saudáveis.

Ensinar nossos pequenos a entrarem em contato consigo e se aquietarem por alguns momentos pode ser mais simples do que se pensa. E, na escola, isso pode ocorrer de forma muito natural com o trabalho em grupo, como já acompanhei algumas vezes. Inicialmente, tudo se mostra uma grande brincadeira para os pequenos, que, gradativamente, vão aprendendo a aquietar o corpo e a mente. Isso se aplica à meditação e, também, às atividades de respiração e relaxamento que são excelentes caminhos para o autoequilíbrio.

As atividades de relaxamento e respiração que nos conduzem a um estado meditativo estimulam áreas do cérebro relacionadas à atenção, à memória e ao raciocínio, o que favorece a aprendizagem, assim como a autoconsciência e a autorregulação emocional. Isso se dá através da plasticidade cerebral que tem o poder de transformar o cérebro emocional, criando muitas possibilidades, como observa o cardiologista brasileiro Georg Tuppy, que afirma meditar há mais de dez anos, sentindo os efeitos positivos desta prática e estimulando seus pacientes a realizá-la. Segundo ele, “não estamos presos ao cérebro com o qual nascemos, pois temos a capacidade de direcionar deliberadamente as funções que vão florir e as que vão fenecer, as capacidades morais que vão surgir e as que não vão surgir, as emoções que vão florescer e as que vão ser silenciadas”. Aquela observação que ouvimos muitas vezes de “nasci assim e vou morrer assim”, está longe de ser verdadeira como mostram os estudos das neurociências. Esta é uma desculpa dos que se acomodam e não querem investir em mudanças.

Meditar traz efeitos muito positivos como aquietar a mente, propiciar um sono mais tranquilo, relaxar, diminuir a ansiedade, estimular o funcionamento do sistema imunológico, estimular a criatividade, a imaginação e a autodisciplina, aprender a respirar em momentos de tensão, trabalhar a autoestima positiva. E podemos afirmar que os muito ganhos aqui elencados não são apenas para as crianças, mas para todos que invistam nesse processo.

A criança que passar pela experiência da meditação com regularidade, se tornará um jovem e um adulto com bem mais facilidade de meditar e usufruir os efeitos desta técnica milenar que ganha, a cada dia, maior número de adeptos. Pesquisas na área médica revelam resultados muito positivos, incluindo a melhora de doenças e/ou maior equilíbrio para lidar com elas. No Rio de Janeiro, o INCA – Instituto Nacional do Câncer tem uma experiência maravilhosa no setor pediátrico com sessões de meditação, que ajudam as crianças e seus responsáveis a lidarem com as tensões e dificuldades de enfrentar o tratamento. Também membros da equipe médica  e de enfermagem participam desses momentos de alívio de uma rotina estressante, contribuindo para que se tornem mais empáticos.

Vale enfatizar que a meditação nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e aumenta a empatia, a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Isso facilita que se criem relações em que, independente de raças, crenças religiosas ou culturas, predomine um espírito de solidariedade e fraternidade de que estamos bastante carentes. As práticas meditativas contribuem, por tudo isso, para aumentar a inteligência emocional e a resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades e delas se recobrar mais facilmente.

Pequenos movimentos e alongamentos podem dar início ao momento da meditação (Foto de Rosilene Maria da Silva Gaio)

 

Não podemos esquecer que a criança, especialmente na Educação Infantil, ainda não está preparada para ficar períodos mais longos concentrada e que o efeito de uma tentativa de maior tempo de imobilidade não teria êxito. Portanto, devemos oferecer poucos minutinhos que poderão ser aumentados aos poucos, de acordo com a aceitação da criança.

É importante que os pequenos não se sintam forçados a praticar a meditação. Sugiro sempre aos educadores (pais ou professores) que façam deste momento uma atividade lúdica e que, em princípio, seja orientada por eles. Há várias formas de meditar, mas pela minha experiência, a narração de uma história a ser vivenciada pela imaginação, é uma ótima opção, ou seja, temos um processo de visualização ou imagens mentais. O educador deve conduzir a criança com uma pequena história de fácil compreensão, de forma relaxante, com voz suave.

“Feche os olhos e imagine que você está flutuando como um barquinho em um lago muito azul que reflete o céu. (Pausa para que imaginem) Um calorzinho gostoso aquece seu rosto e um ventinho bem suave faz com que você se movimente por este lago. (Pausa) Sinta seu corpo subindo e descendo com o movimento suave das pequenas ondas que se formam, ouça o barulhinho da água, sinta o cheirinho da mata que cerca o lago. (Pausa) Aos poucos, você vai flutuando até a margem e se senta na areia, respira profundamente se espreguiçando.”

Muitas são as possibilidades, e você pode criar pequenas narrativas que façam parte da vivência da(s) criança(s). Podemos pedir que fechem os olhos e usar sons que permaneçam vibrando por um tempo e que devem ser ouvidos até que desapareçam como o de um sino tibetano, um pau de chuva ou a corda de um violão. Isso ajuda muito a concentração dos pequenos. Repita apenas um número de vezes que não cause dispersão.

Há muitas sugestões interessantes que podem ser encontradas na web, mas, como disse antes, você pode criar as possibilidades. Deixe que sua imaginação o ajude nesta tarefa.

 

Fotos de arquivo pessoal de Jaqueline Madeira e Rosilene Maria da Silva Gaio que realizaram  pesquisas nessa área sob minha orientação.

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