Alfabetização do afeto e a pandemia da covid 19

Este texto foi escrito após minha participação em uma roda de conversas online da III Semana de Pedagogia da UEMG, da qual participaram, além de mim, três professoras e uma psicóloga. O link do Youtube para quem desejar assistir está abaixo.

A pandemia está nos obrigando a rever algumas formas de agir e até mesmo de ser. Estamos diante de grandes desafios, como lidar com nossas relações no isolamento social e com o processo de escolarização dos pequenos. Quando falamos em alfabetização, o desafio é maior ainda, pois aumentam as cobranças cognitivas, a necessidade de acompanhamento e diminuem os “alimentos” emocionais que são tão importantes para as crianças como as brincadeiras, o lúdico e as artes. O que me foi proposto foi que fechasse a conversa, pensando o afeto para além do processo de escolarização, o que implica pensar as relações humanas tanto as da escola como as familiares.

 

São muitos os desafios que a educação online nos apresenta, especialmente, na Alfabetização (Foto de August Richelieu do Pexels)

Tornou-se evidente, um crescente incômodo emocional entre as crianças como irritabilidade, instabilidade das emoções, agressividade, que têm cada vez menos tempo de viver sua infância de forma mais plena. Mesmo antes do isolamento social, os pequenos já se viam mais confinados e, muitas vezes, sob a influência constante das telas de computadores, tabletes e celulares. Grande parte dos pais exercem seu fazer sob pressões e conflitos, numa sociedade que cobra cada vez mais produtividade, o que ocasiona uma crescente perda do tempo de convívio com as crianças. Não é incomum pais saírem de casa com os filhos ainda dormindo e voltarem quando eles já foram para a cama ou que estejam lutando contra o sono à sua espera.

Relações familiares afetuosas são fundamentais para o desenvolvimento equilibrado da criança (Foto de Elly Fairytalle do Pexels)

Não tenho dúvidas de que a infância é uma fase decisiva para a formação do futuro adolescente e do futuro adulto, e que é um tempo essencial para que as crianças aprendam a lidar com as próprias emoções, e com as emoções do outro para que se estabeleçam contatos humanos que sejam significativos e lhes traga segurança. Considerar os afetos, que englobam emoções, sentimentos e paixões, é imprescindível. Não é difícil encontrarmos adultos e jovens brilhantes intelectualmente, mas com pouca maturidade emocional, pessoas que não conseguem reconhecer seus sentimentos nem lidar bem com eles.

O estar juntos em confinamento oferece uma oportunidade ímpar de convivência familiar que pode e deve ser aproveitada. Este é um momento em que os pais, mesmo que em home office, têm mais chance de conviver e de conhecer suas crianças, de ajudar seus filhos a lidarem com as próprias emoções que são muitas diante de uma tensão que vibra, que vem da tevê, das conversas dos adultos, das notícias repetidas que fogem à compreensão dos pequenos. Crianças são muito perceptivas e captam tudo que acontece a sua volta, mesmo que, aparentemente, não estejam prestando atenção. E, cá pra nós, foram muitas mudanças repentinas. Fomos obrigados a mudar, completamente, hábitos e rotinas.  Claro que a insegurança chegou para assombrar a todos nós, adultos e crianças.

Devemos conversar com as crianças e explicar o que acontece de forma que possam entender e participar dos cuidados e da nova rotina. Também os professores podem contribuir para além das temáticas tradicionais, oferecendo meios para estimular o que Daniel Goleman, psicólogo que desenvolveu os estudos de Inteligência Emocional chama de alfabetização emocional.

Mas antes, vamos entender melhor este processo, pois penso que se iniciarmos agora este exercício de alfabetizar as emoções, ao retornarmos às aulas presenciais será bem mais fácil dar continuidade a essa outra forma de alfabetização.

A teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner traz uma visão diferenciada de considerar as habilidades cognitivas. Uma criança que não tem maior competência em cálculos pode ter uma maior habilidade linguística ou musical, o que não significa ser mais ou menos inteligente. Quando se pensa em educação emocional, é importante considerar duas formas de inteligência entre outras que foram propostas por Gardner: inteligências intrapessoal e interpessoal. O psicólogo define a inteligência intrapessoal como a capacidade de construir uma imagem real, exata e verdadeira de si mesmo, e de ser capaz de usar essa imagem de forma eficaz. É ter a capacidade de discriminar as próprias emoções, dar nome a elas e saber usá-las para orientar decisões. É uma forma de inteligência que se relaciona à capacidade de se autoperceber e de desenvolver o autoconhecimento.

a inteligência interpessoal é a capacidade de perceber, valorizar e trabalhar com as intenções e motivações de outras pessoas. E as crianças são boas nisso de uma forma muito espontânea. Elas são capazes, por exemplo, de perceber mudanças de humor e muitas emoções daqueles que convivem com elas. Lembro bem de quando meus pequenos (filhos e alunos) me perguntavam: por que você está triste hoje? E, na maioria das vezes, me abraçavam ou me enlaçavam pela cintura. E esta capacidade muitas vezes inata ou que pode ocorrer pelo que Henri Wallon, grande estudioso da criança, chama de contágio, deve ser mais bem trabalhada para que se criem relações mais significativas. O contágio também se mostra quando uma criança chora e as outras choram também; ainda é visível se a mãe ou a professora está irritada e as crianças ficam bem mais agitadas. Este é um bom exemplo da importância de nos darmos conta de como está nosso estado emocional e evitar, inclusive, que um aborrecimento matinal acabe criando uma sequência de problemas e desacertos em função das nossas reações em cadeia.

Como podemos estimular estas duas formas de inteligência tão importantes para a educação emocional?

Foto de meu arquivo pessoal: as atividades artísticas são também uma forma de fazer carinho e demonstrar afeto

As atividades lúdicas e as atividades artísticas (que são também lúdicas para a criança) contribuem para que a criança entre em contato consigo mesma, com suas emoções, sua sensibilidade e fantasia, com sua criatividade. São atividades que estimulam a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, e que é um aspecto essencial para essas formas de inteligência.

Exercícios de respiração e relaxamento que devem ser lúdicos para envolver as crianças, sendo utilizadas imagens expressivas como puxar o ar como se sentisse um perfume gostoso e soltá-lo como se enchesse devagarzinho uma bola de aniversário. Imaginar que é uma bola se sorvete que vai derretendo e se espalhando no chão. Trabalhar os sentidos, percebendo cheiros, sabores, sons, texturas, imagens.

Ouvir e contar muitas histórias. Criar personagens e contar a sua história, imaginar o que sentem, o que pensam e como se relacionam.

Deixar que a criança expresse suas emoções e ajudá-la a dar nome aos seus sentimentos e a perceber expressões gestuais que falam de sentimentos e emoções: tristeza, alegria, medo, raiva, dúvida. Trabalhar com emojis que podem ser desenhados pela própria criança.

Foto cedida gentilmente por Daniela Fantoni: Criando atividades lúdicas

Goleman observa que todas as emoções têm um valor e um significado, logo a questão não é ocultá-las ou buscar eliminá-las, o que precisamos é equilibrá-las, saber usá-las de forma apropriada. Daniel Goleman e o neurocientista Antonio Damásio, entre outros, enfatizam que o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.  Emoções são importantes para a racionalidade. O intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional.

É muito importante oferecer afeto seja ele físico ou não, especialmente em momentos de tensão. O contato físico, como o abraço, um beijo, um afago, faz falta para a criança nesta pandemia em que perderam a relação com os amiguinhos e a professora, e a maioria dessas crianças perdeu, ainda, o contato com os avós, os tios e primos. Em texto anterior, vimos que, nas entrevistas, as crianças comentaram que sentem falta de contato físico, de abraços. Há ainda outras formas de afeto que “nutrem a alma” como prestar atenção ao que a criança diz, brincar com elas, mesmo que seja um pouquinho, contar histórias na hora de dormir, e outros pequenos gestos afetuosos.

Relatório da UNESCO publicado como livro – Educação: um tesouro a descobrir – propõe quatro pilares para a Educação do Século XXI: aprender a conhecer (adquirir instrumentos de compreensão), aprender a fazer (para poder agir sobre nosso meio ambiente), aprender a conviver (cooperar com os outros em todas as atividades humanas), e finalmente aprender a ser (conceito principal que integra todos os anteriores).  Se observarmos, veremos que aprender a conviver é exatamente desenvolver a inteligência interpessoal; e aprender a ser é trabalhar a inteligência intrapessoal (autoconhecimento).

A herança genética nos dota de pontos-chave que determinam nosso temperamento, mas temperamento não é destino como enfatiza Daniel Goleman. Na infância e na adolescência, em casa e na escola, aprendemos lições emocionais que modelam novos circuitos devido à plasticidade cerebral. Então, aquela desculpa de que “sou assim porque nasci assim e vou morrer assim” não faz sentido, podemos gerar mudanças ao longo de toda nossa vida. E na infância, é muito mais fácil assimilar novas aprendizagens.

Alfabetizar as emoções significa trabalhá-las e aprender a lidar com elas. Significa também estimular a resiliência, a capacidade de lidar com as dificuldades de forma mais equilibrada.

Grande abraço e até a próxima

Link da roda de conversas a que me referi acima:https://www.youtube.com/watch?v=XJ4Awr0-DfA

Deixe seu recado, sugestão ou dúvida abaixo. Assim que possível, responderei.

Foto de capa de Andrea Piacquadio do Pexels.

Alfabetização do afeto e a Pandemia de Covid-19


Na semana de 22 a 26 de junho, das 19 às 22h, acontecerá o evento online denominado III Semana de Pedagogia e I Jornada Internacional: Adaptações e convívio em meio à pandemia. Faça sua inscrição gratuitamente até o dia 22 de junho.

Acredito que nossa roda de conversa do dia 24 de junho, quarta-feira, a partir das 19h, da qual participarei, será de interesse dos leitores de nosso blog:

Alfabetização do afeto e a Pandemia de Covid-19

 

Mas você terá também muitas outras opções.

Saiba mais clicando aqui:
even3.com.br/3semped_uemg_barbacena

Grande abraço e até lá

Foto de Ketut Subiyanto no Pexels

Aulas remotas: mais vantagens ou desvantagens?

 

No texto anterior, vimos que há percepções diferentes quanto às aulas remotas. Mas, afinal,traz mais problemas ou soluções? Será que podemos nos posicionar em uma das opções?

Miguel é filho de Simone e estuda em uma renomada escola particular em São João del-Rei e ambos se dispuseram a conversar comigo. Simone me disse que considera haver múltiplas situações a serem consideradas e que, na sala de Miguel, há circunstâncias complicadas, pois há pais e mães que estão fazendo home office e não têm condições de dar o apoio necessário às crianças. Ela própria tem que preparar aulas, mas é um trabalho que tem sido possível conciliar com a orientação de um só filho, o que não acontece com todas as famílias, especialmente as que têm duas ou três crianças com idades diferentes, sem a possibilidade de espaços privados na residência.

Como vimos no texto anterior, as queixas são inúmeras e há crianças na escola de Miguel, como observa Simone em nossa conversa, que ficam com os avós na zona rural, sem internet, e há outras que têm bolsa e não têm condições de acompanhar as aulas, pois não possuem acesso a computador.  Ela acredita que as aulas são uma forma de preencher um pouco a vida das crianças e criar uma rotina no seu caso particular, porque seu menino já tem certa independência. Miguel tem nove anos e conversou comigo de uma forma muito franca; disse que está achando meio chato, porque não tem recreio e não pode conversar com amiguinhos específicos. Também se sente muito cansado (e disso falamos no último post), e quando a professora corrige os trabalhos, ela só pode ver três alunos na tela de cada vez e ele fica um tempão com a mão levantada. “Éeeee …, na verdade, éeee não gosto não.” Mas ele adora ouvir as histórias que sua mãe e o marido contam “com ou sem quarentena”, diz ele.

 

Foto de Jessica West no Pexels

Mariana, outra menina com oito anos com quem conversei, de escola também particular daqui da cidade, com uma boa estrutura, reclamou exatamente das mesmas coisas. Ela fica meio perdida e só fica mais fácil quando a mãe, Ana Lúcia, pode ajudar, o que é difícil, pois ela dá aulas pela manhã e à tarde. Ana Lúcia comenta que as crianças não desligam o microfone como a professora pede e ficam falando entre si, chamando o amiguinho. Segundo ela, só funcionaria bem se todas as mães pudessem estar ao lado das crianças, o que é inviável, pois a maioria está em home office. Mariana se lamenta comigo: “Sinto muita falta da minha professora, ela sempre tira minhas dúvidas e me abraça. Minhas amiguinhas… puxa, como sinto falta delas, de brincar e dos abraços!”

Um aspecto importante a ser considerado segundo os estudos das neurociências e que fica evidente nas falas das crianças a que me refiro neste artigo e no anterior, é a importância da proximidade para regular os níveis de ocitocina e de outros hormônios, o que vale pontuar neste momento vivido. Os níveis de ocitocina são diminuídos pelo isolamento ou solidão, ansiedade, depressão e estresse crônico. Atitudes afetuosas de contato físico como o abraço estimulam sua produção, observa Fernando Gomes, neurocirurgião e professor do Hospital das Clínicas da USP. Junto com a dopamina, a serotonina e a endorfina, o chamado grupo dos “neurotransmissores da felicidade”, possuem a função de aumentar as sensações de prazer e melhorar quadros depressivos.  Não é à toa que as crianças sentem tanta falta do contato afetivo com os coleguinhas e as professoras, e estas do contato com os pequenos. Isso também ocorre com profissionais da saúde que têm ficado longe das suas crianças assim como os avós que, com frequência, têm vivido processos depressivos pela falta do contato físico, do aconchego com os netos. A ocitocina ainda desenvolve apego e empatia entre as pessoas e modula a sensibilidade ao temor do desconhecido. Ou seja, o medo do que vem pela frente acaba crescendo. E não podemos desconsiderar que isso tem nos acompanhado. A ansiedade tem aumentado, o que é natural, segundo Gomes, uma vez que temos vivido em estado de alerta.

A neurocientista Laiali Chaar, doutora pela USP, afirma que o abraço melhora o desenvolvimento cerebral, a saúde física e mental de homens e mulheres segundo comprovam estudos na área.Quanto mais você abraçar uma criança, mais o cérebro dela se desenvolve e menos estresse ela sentirá na vida adulta”. Então, minha dica é abraçar mais aqueles que estão em isolamento conosco.

Dificuldades do home office
Foto de Anastasia Shuraeva no Pexels

Mas, afinal, o que é melhor para a criança? Esta resposta é possível de forma objetiva? A primeira coisa a enfatizar é que estamos vivendo uma situação muito peculiar e que alguns cuidados e algumas decisões precisam ser tomadas, assim como minimizadas algumas dificuldades. Quanto mais mantenho contato com mães, professoras e crianças, mais tenho clareza de que não há uma resposta única, aulas remotas tanto podem trazer benefícios quanto grandes problemas. São muitas as variáveis e a partir delas continuei a problematizar questões que iniciei no último artigo, uma vez que a insegurança e/ou as dificuldades têm sido uma constante nas entrevistas informais que venho realizando com mães, professoras e alunos, sem contar o que leio sobre o assunto e os seminários a que tenho assistido.

Simone, Ana Lúcia e algumas outras mães acreditam, assim como eu, que, apesar das desvantagens, as aulas remotas ajudam a criar uma rotina para as crianças, o que é muito positivo. Também ajudam a ocupá-las por algum tempo, dando um “respiro” para a família. Mas para apresentar mais vantagens que desvantagens e menos tensão são necessários alguns cuidados.  Percebo muitas mães assim como pais e professores “à beira de um ataque de nervos”, tentando conciliar o próprio trabalho com as muitas exigências das aulas das crianças, da rotina doméstica e, muitas vezes, de bebês ou filhos bem pequenos. Portanto, professores não devem exigir muito dos pais, propor excesso de atividades, fazer pedidos de esquemas, montagens ou afins que exijam tempo em excesso da família. Procurar criar uma certa autonomia para a criança quando possível, o que será um exercício valioso. 

Seria muito positivo que, como tenho visto acontecer, se aproveitasse este momento para propor atividades artísticas e a contação e leitura de muitas histórias, pois a arte sensibiliza e ajuda a criar uma nova forma de ver o mundo, possibilita novos olhares. Por exemplo: dar outra finalização para uma história lida, ilustrá-la, imaginar como gostaria que fosse a volta às aulas, imaginar um amiguinho com poderes mágicos e desenhá-lo. Ideias não vão faltar. Falaremos melhor dessas ideias mais adiante, assim como da importância da arte.

Foto gentilmente cedida por Daniela Fantoni: Depois da história, um lindo dedoche.

Talvez o pior que eu esteja percebendo, seja a sensação de “incompetência” e de “enxugar gelo” que toma conta de muita gente: crianças, mães e professoras, estas talvez as mais atingidas, especialmente, se forem mães e professoras. Há uma série de elementos que interferem e não podemos ter os mesmos resultados em todos os casos. Os professores não foram preparados para aulas a distância e, de repente, cai em suas mãos uma obrigação que lhes demanda tempo, conhecimento, recursos e disponibilidade, em uma situação que já traz uma nova rotina mais estressante.

Particularmente, acredito que o contato entre alunos e professoras possa fazer bem a todos, mas não é cabível manter a mesma carga horária (esta deveria ser bem menor), não é salutar conservar a mesma estrutura das aulas presenciais ou o mesmo conteúdo programático, especialmente para o ensino fundamental. Para uma situação extrema, especialíssima como se mostra esta pandemia por que passamos, e que nem sabemos por quanto tempo ainda ficará nos rondando, não podemos esperar que a escola mantenha um mesmo ritmo e as mesmas exigências. Poder-se-iam, entretanto, estabelecer esquemas de aulas mais curtas, que não exigissem tanto a participação dos pais que também têm suas atividades (e muitas vezes um só computador), que direção, coordenadores pedagógicos e professores pudessem pensar possibilidades, ações mais criativas até que se possa ter um retorno às aulas presenciais. Creio que temos também, na volta às escolas, uma oportunidade única de reavaliar a necessidade de pensar formas de mesclar aulas presenciais e remotas, metodologias inovadoras que tragam mais vida à sala de aula. Entretanto, se forem mantidas as aulas nos esquemas que temos presenciado na maioria das vezes, especialmente nas escolas públicas de alguns estados e municípios que possuem alunos com baixa renda e condições bem mais difíceis de moradia (sem internet, com muitos moradores e sem espaço minimamente apropriado), teremos um maior distanciamento social, só que este não necessário como o que vivemos devido à pandemia, mas um distanciamento que aumentará a desigualdade social, criando mais injustiças do que as já existentes.

É, no mínimo, ingênuo acreditar que todas as crianças deste nosso extenso e desigual país poderão computar este tempo com aulas remotas como se estivessem em aulas presenciais. É extremamente injusto agir como se as aulas estivessem sendo ministradas para todas as crianças de todas as escolas da mesma forma. Agir como se todos os nossos professores tivessem recursos metodológicos e materiais para dar aulas a distância sem que a internet trave, a imagem trema ou suma, e que lá, na outra ponta, os alunos recebam aulas criativas, apropriadas, com uma linguagem inteligível. Afinal, é essencial que haja um bom planejamento para que as aulas sejam bem preparadas e não a replicação das presenciais.

Eu, que tenho muito contato com professoras e mães professoras, as parabenizo pelo grande e contínuo esforço de “não deixarem a peteca cair”, de enfrentar tantos e tão variados desafios, de se mostrarem tão resilientes diante desta crise que é de saúde, econômica e educacional.

Uma nota: usei o gênero feminino falando de mães e professoras, porque são uma grande maioria no ensino fundamental e foram uma totalidade nas entrevistas, mas incluo aqui os professores, alguns que conheço e que considero muito especiais e pais que são muito presentes como mostra a foto em destaque enviada por Juliana Aparecida Pereira a quem muito agradeço.

Deixe seus comentários, dúvidas e sugestões no espaço abaixo e responderei logo que puder. Eles são sempre muito bem-vindos e significantes para mim.

Grande abraço  e até a próxima

 

 

Em tempos de isolamento social: as aulas remotas

 

“Vovó, está muito complicado ter aula pela internet. Fico com a mão levantada um tempão, tenho colegas que não respeitam a professora, que conversam entre eles… Fico muito cansado e muitas vezes não consigo ouvir. (…) Parece que pra ela também é difícil”.  A fala de meu neto, que está cursando o segundo ano do Ensino Fundamental II, traz alguns dos problemas vividos com as aulas remotas. São problemas que unem crianças, mães e professoras. Tenho pessoalmente vivido algumas dificuldades com cursos pela internet, e procurado ouvir especialistas, assistir a seminários, ler desabafos de pais e educadores, mas este não é o espaço para aprofundamentos. Acredito, porém, que saber que as dificuldades vividas não acontecem apenas conosco, pode nos ajudar a redimensionar a questão.

Perguntei a meu neto: qual a pior coisa e a melhor de não poder ir à escola? Ele adora a escola e ficou muito triste com a parada das aulas. “A pior é não poder abraçar os amigos, conversar com eles, estar lá. A melhor é ficar protegido”. Esta resposta aponta para uma questão fundamental: é um momento de preservar a saúde, de preservar a vida. Embora com pouca idade, com a conversa que tivemos, ele deixou muito claro que este é um momento difícil, que não pode estar conosco, seus avós, com quem se preocupa, não pode estar com os amiguinhos da escola, ir à pracinha onde brinca após as aulas e subir nas árvores; que não pode tomar sorvete na padaria perto de casa, ou brincar com os amiguinhos do prédio onde mora. É um tempo de reclusão, sofrido e preocupante. É importante entender que a criança, como nós, adultos, se ressente com tantas mudanças e tantas dificuldades; que não é estranho que surja irritação e agitação excessiva.

Foto de Jaqueline Madeira

Após um tempo de adaptação, as escolas começaram a oferecer aulas remotas. Pensando nisso, resolvi fazer uma pesquisa informalíssima, mas que me permitisse ouvir algumas vozes, saber de colégios e locais diferenciados, de formas de ação. Isso porque em uma linha de percepções, tem-se de “acho ótimo” a “isso não faz sentido”. Pedi ajuda a ex-alunas que são mães e professoras. Por uma questão de respeito só darei o primeiro nome daquelas que me autorizaram a isso, às demais dei um nome fictício. Também omiti o nome das escolas. A intenção aqui não é tecer críticas ou tecer comparações, mas apresentar um quadro que claramente mostra que as experiências são muito variadas e que há um esforço muito grande das professoras no sentido de fazer algo para o qual não foram preparadas na grande maioria das vezes.

Quando falamos de aulas remotas, estão incluídos os aspectos humano, tecnológico e metodológico que não podemos desconsiderar. O lado humano é muito marcante, as professoras com quem tive contato sentem saudades, deixam recadinhos e fica evidente em suas falas que se preocupam com os pequenos. Tecnológica e metodologicamente, todas as professoras entrevistadas foram unânimes em afirmar que foi muito difícil no início, e que ainda há muitas dificuldades a serem vencidas. Mas que já não gastam tantas horas para conseguir um pequeno vídeo, nem tentar tantas vezes até sair bom. Algumas me enviaram os vídeos que vêm fazendo, onde claramente se percebe o cuidado e o empenho. Mas ainda persistem aulas em que a professora fala e os alunos ouvem, precisamente pelo desconhecimento de técnicas às quais nunca tiveram acesso. Há escolas que oferecem aulas três vezes por semana e nas terças e quintas enviam atividades escritas. Outras oferecem as aulas todos os dias e chats para que os alunos tirem dúvidas. Há, ainda, outras formas de comunicação com os pais. Não há uma forma única.

Laura, professora de uma escola particular em Belo Horizonte, conta que fica desesperada, pois, no grupo de whatsapp destinado aos pais, estes perguntam, o que chega a ser um absurdo, como o que fazer com a agitação da criança, com o fato de não querer acordar de manhã para a aula, de a criança estar sendo agressiva ou levantam questões que estão descritas nos vídeos enviados e que a própria criança poderia responder se ouvido com atenção. A ansiedade dos pais quer respostas da professora, que não é formada para ser psicóloga nem para assumir responsabilidades com o que não lhe cabe, tirando-lhe um tempo precioso de cuidar da própria família. Outro problema que também se mostra é o fato de os pais fazerem as tarefas, possivelmente para acabarem logo. A quem isso ajuda? Qual o objetivo disto?

Um aspecto fundamental que não pode ser desconsiderado é que as aulas remotas para quem as acompanha causam um desgaste muito maior que as aulas presenciais. O Professor José Moran, renomado estudioso e conferencista sobre novas tecnologias, assim como o neurologista Fernando Gomes entre outros estudiosos das neurociências enfatizam que o tempo de aulas virtuais não pode ser o mesmo das aulas presenciais. Elas exigem atenção maior e um maior nível de perda de energia, o que aprofundaremos no próximo post.

O que dizem as mães-professoras: alguns depoimentos

Juliana trabalha em uma instituição particular de ensino onde seu filho também tem aulas, em São Joao del-Rei – MG. Ela diz: “Como mãe não está sendo fácil, e não tenho tido tempo de acessar a plataforma todos os dias. Deixo para o fim de semana, fica tudo acumulado. Meu menino fica muito cansado, apesar de a professora ser bastante dinâmica e apresentar vídeos e jogos atrativos, ele não consegue fazer as atividades sozinho devido à idade, tem só seis anos, está no primeiro ano. Eu tenho apenas um notebook e fico das nove da manhã às nove da noite por conta das aulas que tenho que preparar para meus alunos,de  responder aos pais no whatsapp, aos alunos no chat e de preparar os vídeos e as atividades”.

Enquanto estava relendo as falas de Juliana, ela me enviou um áudio, me contando do retorno ao trabalho como supervisora na Prefeitura, também remoto, e como a vida dela virou uma loucura com todas as atividades que lhe cabem preparar. E ainda há um agravante que não podemos desconsiderar. Estamos em meio a uma pandemia que nos cobra cuidados especiais, isolamento social e todas as dificuldades que a vida doméstica nos exige. Como será isso, vai deixar de dormir? E seu filho que já vem, com certeza, sentindo falta de sua presença e a falta do acompanhamento regular, pois só o tem maior nos finais de semana. Como será? Como dar conta de tudo, especialmente, quando há senso de responsabilidade e comprometimento?

Jaqueline foi minha orientanda de doutorado em Oviedo, na Espanha onde mora. Para suas meninas as aulas remotas não foram um problema como para muitos dos nossos professores e de nossas crianças. Está sendo uma experiência positiva, porque a escola já usava a plataforma há quatro anos como uma forma complementar e todos têm um computador, o que infelizmente não ocorre aqui. O governo se encarrega de garanti-los. Têm aulas por videoconferência, trabalhos em grupo, podem compartilhar experiências com os colegas. A mais velha, já exercitada nas aulas remotas antes do distanciamento social, resolve bem suas atividades. Mas mesmo assim, a menor tem dificuldades e necessita de apoio constante dos pais que se alternam para ajudá-la, até pela pouca experiência com as aulas virtuais, uma vez que está há menos tempo na escola. Segundo Jaqueline, as escolas rurais e públicas também tiveram acesso a computadores via governo.

Neste aspecto, temos um grave problema em nosso país, pois há um número enorme de crianças que não possuem computador, nem rede, e há aqueles que vêm tentando aprender na pequena tela de um celular. Uma amiga me conta que leu que há alunos que enfrentam grandes caminhadas para chegar ao alto de um morro onde é possível o acesso à rede.

Renata mora em Campo Grande – MS, é professora da rede municipal e tem dois filhos com ensino remoto, um de 6 anos no Primeiro Ano e outro de 9 anos no quarto ano. Ela diz: “No início achavam chato pelo excesso de atividades, mas a escola se reorganizou, as crianças se acostumaram e gostaram da integração com os colegas. Mas para os pais ainda é bem complicado!”

Foto de Jaqueline Madeira

Renata, que é pedagoga, pontua que, se com formação pedagógica é difícil, que dirá para quem não a tem, ainda mais para crianças que estão no processo formal de alfabetização como um de seus meninos.

Renata me conta que a Secretaria de Educação solicitou que os professores fizessem um caderno de atividades. A escola imprime e entrega aos pais. “Não fazemos aulas virtuais, pois muitas famílias não têm acesso a computadores. E poucos pais participam do grupo do whatszap por onde orientamos como fazer as atividades”.  Será que isso funciona ou gera mais tensão?  As crianças aprendem? Estarão os pais em condições de ajudarem seus filhos?

Todas as mães-professoras se queixam do pouco tempo que podem disponibilizar para os próprios filhos, em especial aquelas que como Juliana, Renata, Thaís e Érica têm filhos em fase de alfabetização, fase esta que exige uma atenção muito especial e atenção dos professores.

Vimos que há vantagens e desvantagens. Mas, afinal, o que é melhor?  Esta resposta é possível? Que cuidados precisam ser tomados? Como minimizar problemas?

Hoje ficamos por aqui, no próximo artigo, continuamos.

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

Fotos gentilmente cedidas por Jaqueline Madeira  .

Em tempos de isolamento social – Parte 2

 

Antes de dar continuidade à nossa proposta de oferecer sugestões de atividades para os nossos pequenos nesses tempos de afastamento social, quero trazer algumas questões importantes que a estudiosa da Infância e pesquisadora Maria Cristina Soares de Gouvea da Universidade Federal de Minas Gerais aborda, e tecer algumas reflexões.

Como eu já havia pontuado antes, este momento é significativo pela aproximação da criança da sua família, e mais que isso, como afirma Gouvea, é um momento de reconstrução dos afetos e da solidariedade. Mas, para isso, é fundamental que os adultos não se furtem a tirar as dúvidas das crianças de forma clara, objetiva e lúdica quanto ao que está acontecendo. A criança tem que ser envolvida na responsabilidade do processo de proteção que se faz necessário. Como observei no último post, a criança percebe que há algo errado e sério acontecendo, mesmo que nada lhe seja dito. E são muitas as mudanças. “Sua anteninha”, que está sempre ligada, capta tudo o que acontece a sua volta.  Por isso mesmo, ela precisa saber, na medida da sua compreensão, o que está acontecendo e como se proteger. Uma boa forma de mostrar à criança de maneira lúdica a questão do vírus pode ser encontrada no link que coloquei abaixo, pelo qual se pode baixar o texto em pdf. Meus netos adoraram.

O tempo de exposição às telas de tevês, computadores e tablets precisa ser controlado. Substituir as telinhas por outras brincadeiras, ajuda a diminuir a irritabilidade e o tédio da criança.

Um segundo ponto que eu também já havia enfatizado, se refere aos meios de comunicação: tevê, celular e computador. Gouvea traz um novo alerta quanto à exposição da criança a estes meios de comunicação, apontando que o natural aumento dessa exposição devido ao isolamento não faz bem nem à saúde física nem à saúde mental da criança. Ela tende a aumentar sua irritabilidade e o seu tédio. Assim, ela aponta que é fundamental criar atividades físicas e lúdicas, recomendando que nós, adultos, dialoguemos com a criança e a infância que existem dentro da cada um de nós. Ao ouvir o áudio da Professora, lembrei-me de um dia, há pouco tempo atrás, em que meu filho e minha neta criaram duetos musicais modulando as vozes e inventando gestos, também das rodas de ciranda e jogos cantados que fizemos em família. Foi muito divertido. Uma outra atividade que sempre faz sucesso é brincar de “Seu Mestre Mandou”, que pode facilmente ser adaptado à faixa etária das crianças e propiciar movimento e ludicidade,  Da mesma forma, Jogos Cantados ou brincadeiras como Chicotinho Queimado também oportunizam o movimento necessário e o prazer da ludicidade. Não é difícil encontrá-los na internet nem fazer com que outros tantos revivam, vindos direto da nossa infância.

Nem sempre vem a ajuda, não é? Mas é sempre um momento de construção importante para a criança.

Também é importante que se construa uma rotina familiar que envolva a todos nas atividades domésticas. Assim, se pode combinar as tarefas de cada um (naturalmente de acordo com a idade e possibilidades infantis): colocar a mesa, arrumar a cama, alimentar os bichinhos de estimação, participar da produção das refeições, lavar a louça. Lavar a louça vira uma brincadeira assim como arrumar a mesa. Nas visitas de meus netos (antes da quarentena), percebo como curtem participar, se sentem importantes podendo ajudar. E se não ficar como gostaríamos, é só ensinar com jeitinho.

A pesquisadora apresenta uma questão que considero essencial e à qual tenho dado muita atenção. Este é um momento de manutenção e fortalecimentos dos laços mais próximos, especialmente com avós e tios. O pai da minha neta menorzinha, manda vídeos e eu respondo com outros vídeos. Outras vezes nos comunicamos ao vivo pelo zap, o que geralmente acontece com meu neto de oito anos anos. Também nos comunicamos com pequenos diálogos escritos. No caso de crianças mais velhas, os vídeos podem ser feitos por elas mesmas. O que não podemos é desconsiderar os laços de afeto, respeito e solidariedade que são importantes para ambas as partes.

Hoje vamos continuar com sugestões das atividades ludoartísticas, muito significativas neste momento que vivemos. Viktor Lowenfeld, estudioso de arte e psicologia, enfatiza o papel essencial da arte na educação das crianças. Pontua que, ao fazer desenhos, pinturas ou outras formas de construção artística, a criança realiza um processo complexo, pois une elementos variados de sua experiência para dar vida a um significado novo de uma totalidade. A criança une o que viu, o que sentiu, o que pensou e dá uma forma muito própria a isso. Ela busca compreender e dar sentidos a sua existência. Daí, o estudioso observar que a criança, mais que uma pintura ou escultura, cria uma parte de si mesma, um modo de interpretar e compreender o mundo.  E esta característica de a arte ajudar a criança na compreensão do que a cerca, neste momento que estamos vivenciando, volto a enfatizar, é de vital importância. Ela não consegue, muitas vezes, dizer como nós, através de palavras o que sente, mas a qualidade expressiva da arte pode ajudá-la. Assim, fazer arte não é um simples passatempo, é uma forma de comunicação consigo mesma, é importante para ela, para seus processos cognitivos, perceptuais, emocionais, sociais e para seu desenvolvimento criativo.

Sempre é bom lembrar que as atividades artísticas desenvolvem aspectos importantes do ser humano seja como indivíduo, seja como ser social como a intuição, a sensibilidade, a empatia (capacidade de compreensão e identificação com sentimentos do outro), a imaginação, a capacidade crítica e o pensamento divergente, que é a capacidade de pensar de forma original, de resolver algo de forma criativa, de encontrar soluções diferentes para um mesmo problema, tendo maior flexibilidade em lidar com situações.

No seu castelo, nossa menina se prepara para a festa.

Que tal preparar uma festa de aniversário?

Esta brincadeira pode estimular muito a criatividade da criança. Podemos começar pelos convites para a festa. A criança com a ajuda do adulto, se necessário, desenha ou pinta os convites em papeis cortados e dobrados ao meio. O bolo, os docinhos, as pipocas, os salgadinhos podem ser feitos com massinha de modelar ou até com massa caseira para modelagem. Papel colorido recortado ou branco pintado com tinta guache, aquarela, gizão de cera ou lápis de cor pode ser a toalha da mesa ou o painel da festa. Também pode ser o papel para embrulhar o presente para a/o aniversariante. O bolo, que pode ser uma vasilha plástica emborcada, se transforma num bolo todo enfeitado com confeitos de massinha. Os convidados? Todas as bonecas e bonecos, valendo comemorar o aniversário dos super-heróis ou super-heroínas e convidá-los para a festa. E a música não pode faltar. Nem as brincadeiras. Com certeza, outras ideias vão surgir!

Para quem mora em casa, pequenas flores, folhinhas, pedrinhas e galhos bem pequenos ajudam muito na decoração do bolo e dos convites também.

Contando histórias e ilustrando

A história pode ser contada pelo adulto ou a própria criança pode contá-la se já estiver lendo ou, também, narrar a história a partir da leitura das ilustrações. Uma atividade que agrada muitos as crianças é ilustrar a parte da história de que ela gostou mais. Também é muito prazeroso para os pequenos criar um personagem, dar-lhe um nome e criar uma situação em que ele esteja presente.

Dividir as brincadeira é um momento especial na vida de irmãos que, por enquanto, perderam os momentos escolares tão importantes para eles.

Vale enfatizar que a expressão livre, diferentemente de imagens mimeografadas permite que a criança expresse medos, angústias, e ouros sentimentos. As imagens prontas podem ter seu momento, mas não devem excluir a expressão infantil. Uma sugestão se você sentir que seus pequenos estão ansiosos: pedir que desenhem uma situação que os incomoda e, a seguir, propor que desenhem uma forma de resolver a questão. Quando trabalhava na dinamização de sala de leitura no município do Rio de Janeiro, uma das meninas do primeiro ano foi atropelada na frente da escola e o medo tomou conta de sua turminha e alguns choravam. Era meu dia de trabalhar com eles. Inventei uma história em que o menino caía do balanço e se machucava, mas que cada um de nós deveria imaginar uma forma de ele se recuperar totalmente, desenhá-la e contar para todos. Claramente, houve transferência da situação para a coleguinha machucada. Mas o mais interessante foram as formas que encontraram de curar o menino machucado da minha história (e da história real vivida pela coleguinha): o beijinho da mãe e da professora, injeções, carinho, perna engessada, varinha de condão de fada, poção do caldeirão da bruxa e outras tantas fórmulas. E a grande notícia: a ansiedade aos poucos foi se esvaindo junto com os traços do desenho.

Na próxima postagem continuamos. Por ora, ficamos por aqui. E você já sabe: solte a criatividade. Esta não está em quarentena. Se tiver fotos que possam me ajudar a ilustrar os textos ou brincadeiras que fizeram sucesso, me conte para que eu possa socializá-las.

https://ufrn.br/imprensa/noticias/34774/livro-infantil-mostra-criancas-enfrentando-virus

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

As fotos são do meu arquivo pessoal e de Daniela Fantoni, a quem agradeço por compartilhar comigo duas fotos dos seus pequenos.

 

 

 

 

Em tempos de isolamento social 1

Em tempos de quarentena, de crianças em casa, de aulas suspensas, mas também de home office, em que os adultos precisam trabalhar, necessitamos criar mecanismos que nos ajudem a acalmar a agitação aumentada da criançada por não poder gastar a energia com as atividades escolares, na pracinha, no parquinho ou na natação. Então, por ora, vou mudar o rumo dos nossos textos, voltando ao previsto mais adiante. Também vou diminuir a peridiocidade de sua publicação para oferecer mais sugestões de atividade.

É preciso dizer também que, apesar de todas as dificuldades que todos nós temos enfrentado, alguns aspectos são muito positivos como o contato mais próximo da criança com a família que, muitas vezes, mal consegue estar com ela.

A expressão artística é a primeira manifestação que não pode faltar: cantar, dançar, representar, desenhar e pintar seja com gizão de cera, lápis de cor, tinta guache ou aquarela. E vale enfatizar que além de ser um meio de tranquilizar a criança, as atividades artísticas têm um poder muito especial de permitir que os pequenos expressem suas angústias, falem de seus receios, façam perguntas, mostrem os sentimentos.

Criatividade e otimismo
Foto de Ana Oliveira Lopes Criatividade e otimismo

Pode parecer que não, mas a criança experimenta a ansiedade que é manifestada nas conversas dos adultos, nos jornais diários pela televisão e na própria tensão que vibra mesmo não sendo vista ou ouvida. Meus dois netos manifestaram sua preocupação. O mais velho, expressou sua apreensão conosco, seus avós, que estamos longe e só nos falamos por vídeo ou telefone (O que acontece com a menor também. Infelizmente estamos mais distantes fisicamente!) Por sermos mais velhos e pertencermos ao grupo de risco, ele manifestou que não quer nos perder, pois somos preciosos para ele. Um doce comentário para nós, mas uma preocupação com ele. Mas pudemos falar sobre isso porque ele conseguiu expressar em palavras. O pai da nossa neta mais nova, ao vê-la chorando, lhe perguntou o que tinha acontecido e ela pôde (e que bom que assim foi) falar de seu medo de que o papai ou a mamãe pudessem morrer. A possibilidade de falar sobre a questão fez uma grande diferença. O medo precisa ser verbalizado sempre que possível. O que não é dito se mantém presente e, muitas vezes, birra, irritabilidade, grude excessivo, aumento da agitação, medo de tudo podem indicar que há algo errado.

A criança, mesmo que pareça entretida com algo que está fazendo, está ouvindo ou percebendo o que acontece a sua volta. Ela tem um “super-radar” do qual nada escapa. Daí a importância de protegê-la de um noticiário mais pesado. Eu mesma, há alguns dias, desliguei a televisão ou, com certeza, já que estava perto da hora de dormir, teria um sono mais agitado. É importante se manter informado, mas não é necessário estar com o rádio ou a tevê ligados em tempo integral. Além disso, a linguagem do rádio e da tevê, com a finalidade mesmo de chamar nossa atenção, já traz elementos discursivos que podem gerar maior tensão.

Então, a ideia é trazer algumas sugestões de atividade que possam entreter nossos pequenos. E vamos começar pela arte. Que criança não gosta de fazer artes e pintar o sete? As atividades artísticas trazem para os pequenos a possibilidade de que se crie uma postura mais harmoniosa e equilibrada diante do mundo, integrando sentimentos, razão e imaginação, e exercitando sua habilidade de discriminar e fazer escolhas, sua capacidade crítica.

Embora possamos elencar muitos ganhos obtidos pela criança ao vivenciar tais atividades como o estímulo à autoestima, à autonomia e à criatividade, um resultado muito importante nos salta aos olhos: elas possibilitam a vivência lúdica, a entrega total a seu fazer. As atividades expressivas como as artísticas e as lúdicas contribuem para que se trabalhe a integralidade do ser, estimulando o intelecto, as emoções e a motricidade, além das relações com o meio e as pessoas. Elas trabalham a corporeidade de que já falamos muitas outras vezes.

Ao estimular a criança a desenhar, contar ou recontar uma história, manipular lápis de cor, giz de cera, pincéis, tinta guache e aquarela, incentivando-a a expressar suas emoções, estamos ajudando-a a se relacionar com o mundo a sua volta e a desenvolver a autocompreensão. Da mesma forma, propiciar-lhe situações em que possa perceber diferentes ritmos, cantar músicas variadas, apreciar imagens, ajudando-a a fazer sua leitura, perceber texturas e formas dos objetos é um modo de lhe oferecer recursos para a leitura de seu mundo.

Mais que um simples passatempo, a arte é uma forma de comunicação da criança consigo mesma e com o mundo. Uma forma de entender o que acontece à sua volta.

O jogo teatral

Brincando com jogos teatrais

Hoje começamos com um recurso expressivo muito significativo para o que estamos vivendo hoje: o jogo teatral. Esta é uma expressão artística, que muito agrada a criança, e que permite que ela exteriorize o que é difícil dizer com palavras. O jogo teatral pode se realizar com o próprio corpo, com bonecos, com fantoches e com o que mais for possível. Há algum tempo, a bermuda vermelha de meu neto virou uma grande fogueira na floresta, que eu, o gigante malvado incendiei. E ele se transformou num corajoso super-herói que enfrentou o fogo para preservar a vida das matas.

Com os jogos teatrais, a criança realiza sonhos, liberta sentimentos acumulados, alivia tensões, resolve problemas, dúvidas e frustrações. Em situações normais, é um excelente meio de socialização, mas em tempos de isolamento social, pode ser adaptado aos componentes da nossa casa. Parte da curiosidade pelo que nos rodeia passa a ser motivo para observar, raciocinar e criar: cenas domésticas, situações na escola, um filme visto…

A criança deve escolher o que quer representar. E as menores, geralmente, partem da própria vivência das situações cotidianas. Lembrei-me agora de quando dei uma maleta de ferramentas para minha neta; ela batia na porta, “tratava o serviço”, fazia o que era necessário, cobrava e se despedia. “Bom- dia, senhora! Qual o problema?”, começava ela. Todos os meus móveis e eletrodomésticos passaram por uma revisão.  Ontem, vi pelo vídeo a máquina de furar e ela me contou que ela virou secador de cabelos. Este é um dos poderes mágicos das nossas crianças, o potencial imaginário e transformador. Potencial que deve ser estimulado e que a arte desenvolve.

A representação pode ser sem palavras, através da mímica: adivinha o que eu estou dizendo? O corpo brincante se encarrega de construir um sem-fim de possibilidades.

Podemos usar uma música ou uma poesia e representá-las…  Uma história pode ganhar um novo final ou novos personagens. Também podemos criar um personagem e uma história para ele.

Brincar de cabaninha ou de casinha oferece múltiplas possibilidades de explorar o universo infantil

Desenvolver a imaginação sempre: usar sons, gestos, criar uma sonoplastia. “Abro a porta… e está rangendo. Preciso colocar óleo. Entro em casa, tiro a roupa, abro o chuveiro, canto no box.  Chiiiii!!! A campainha da porta tocou? Vou fechar o chuveiro para ouvir melhor! Tocou mesmo!!! Quem será? Tenho que me enrolar na toalha. Ai, ai, ai! Agora é o telefone que está tocando, vou atender… Quem estava na porta? E quem ligou para o telefone? Uau!! O chão molhou todo…”  Imaginação não vai faltar.

Esta atividade de criar situações com sonoplastia era muito usada por mim com grupos de crianças quando dinamizava sala de leitura. E pra variar bem, no caso de alunos um pouco mais velhos, eles sorteavam cartões em que havia nomes de fontes sonoras como buzina ou motor de carro, despertador, liquidificador, pregão do vendedor de vassouras, …  Também sorteavam cartões com situações. A ideia era criar e representar a situação com o ruído sorteado. Por exemplo: uma feira com barulho de trator; uma viagem de ônibus com um vendedor de bilhetes de loteria. E o fim era imprevisível…

Naturalmente, as situações e os ruídos se adequavam às idades das crianças e até a sua própria vivência.  Houve um dia em que um grupo me pediu para trabalhar com barulho de sirene e tiros. Eles precisavam elaborar a situação vivida na escola.

Na próxima postagem continuamos. Por ora, ficamos por aqui. E você já sabe: solte a criatividade. Esta não está em quarentena.

Deixe suas sugestões, dúvidas e comentários no espaço abaixo. Responderei logo que possível.

Grande abraço e até a próxima

As fotos são do meu arquivo pessoal e uma delas cedida gentilmente por Ana Oliveira Lopes

 

 

 

Autorregulação, couraças, pulsação e respiração: o que têm em comum?

O que é importante sabermos?

Em alguns de nossos artigos anteriores, citei Wilhelm Reich, médico e cientista, e os conceitos acima, elementos fundamentais da sua teoria da unicidade soma-psique (corpo-mente). Esta é a primeira relação que une estes elementos que vamos aprofundar um pouco mais neste artigo, pois são muito significativos para todos nós, incluindo nossas crianças, que são o foco deste blog. São conceitos essenciais também para entendermos nosso fluxo de bioenergia que, se equilibrado, permite maior vitalidade e uma vida mais saudável.

Autorregulação e as couraças

Reich considera que todos nós temos uma aptidão natural para administrar nossas necessidades básicas tanto biológicas quanto energéticas: a autorregulação. Este é um mecanismo que permite circulação de energia e cria possibilidades de resposta a múltiplas alterações, permitindo que nosso organismo se adapte às demandas que surgem, gerando modificações corporais necessárias como, por exemplo, o controle da temperatura e da pulsação. Assim, estas alterações atuam como um modo de proteção ao organismo. Para o autor, a autorregulação supõe a existência de uma espécie de competência espontânea, visceral, uma capacidade do próprio organismo, que, se saudável, é um sistema autorregulado. Reich aponta uma relação entre um fluxo natural e espontâneo dessa energia e empecilhos que podem prejudicá-lo no processo educacional da criança seja ele familiar ou escolar.

Quando as necessidades básicas da criança não são atendidas, o que se observa, principalmente na educação autoritária ou com altos níveis de violência física ou psicológica, ocorre o encouraçamento, isto é, a formação de couraças musculares. As couraças têm por finalidade proteger a criança, bloqueando emoções com que ela não consegue lidar como o medo muito intenso. Cria-se como que um escudo de proteção. No entanto, embora a protejam da dor, interferem na expressão espontânea dessa criança, impedindo a livre circulação da energia vital, dificultando o processo autorregulador.

Reich apresenta o conceito de couraça como uma “solução inconsciente” para suprimir o medo e permitir uma expressão que seja aceita socialmente. Por exemplo, a criança chora devido a uma grande frustração, mesmo que justa como não poder usar o celular à mesa. Afinal, todos os amiguinhos estão usando. Chorar é uma reação espontânea e deixá-la chorar seria a solução. Meninos e meninas têm esta reação natural e, na maioria das vezes, vão aos poucos internalizando que o uso do celular tem restrições. Mas se a criança é obrigada a engolir o choro seguidamente à custa de castigos severos, ela acaba buscando se adaptar ao exigido, perdendo o direito de expressar sua frustração também compreensível e segurando este choro pela contração do abdômen e a contenção da respiração.

Quero deixar bem claro que as frustrações fazem parte do processo educacional, o que foi tema dos dois últimos artigos. O que precisa ser evitado são as formas de violência com a criança. Também é importante saber que a criança expressar suas frustrações é saudável, exceto se forem manifestadas com mordidas, socos, chutes ou outras atitudes inaceitáveis. Expressar emoções apropriadamente é uma aprendizagem necessária.

Embora evite um maior sofrimento, como vimos, as couraças interferem no fluxo da energia e na autorregulação. Leonardo Jeber, estudioso da teoria reichiana, enfatiza que “a autorregulação é possibilitada por um entorno acolhedor na organização da aula e no jeito de o educador se vincular e se posicionar diante dos alunos, o que significa também colocar limites, mas nunca com violência”. Chamo a atenção de que esta afirmação é válida também para a relação entre pais e filhos. É muito importante, também, ter clareza de que atitudes permissivas, a total falta de limites, o hábito constante de “passar a mão na cabeça da criança” ou fingir não ver seus erros são atitudes extremamente perniciosas como discutimos anteriormente.

 

Respiração, pulsação e flexibilização das couraças. Como o respirar bem vai se perdendo?

Respirar bem é fundamental para o bom funcionamento do metabolismo humano, porém, as tensões do dia a dia fazem com que a respiração profunda passe a uma respiração curta e superficial. Tentando evitar sensações de angústia e ansiedade, a criança interrompe o ritmo natural da respiração e tensiona o abdômen, tentando se proteger, diminuindo sua capacidade respiratória. Esta atitude é automática e universal. Entretanto esta diminuição da capacidade respiratória contribui para reduzir o fluxo energético, assim como o fluxo da criatividade, da autonomia e da espontaneidade.

Respirar profunda e relaxadamente aumenta o senso de concentração. Também não podemos esquecer que, ao se reequilibrar a respiração, se reequilibra a energia emocional. Através da respiração profunda há aumento da carga energética, o que significa, literalmente, que o corpo ganha mais vida. Reich enfatiza que o oxigênio fornece a energia que move o organismo, logo, quando a respiração é inadequada, o nível de vitalidade do organismo tem uma queda sensível. Respirar é equilibrar a pulsação vital, o que significa equilibrar todo o organismo.

O contínuo estado de contração, de tensão ou o seu oposto, um estado permanente, de lassidão, não são desejáveis, e sim o equilíbrio entre contração e expansão.  Esta pulsação que Reich denomina de homeostase é o que favorece a autorregulação.  A ausência de pulsação representa o encouraçamento. 

Conter a respiração é um mecanismo natural de defesa, uma vez que ela é afetada diretamente pelos estados emocionais. O medo de algo visto como perigoso ou de uma punição gera ansiedade que bloqueia o diafragma. Imagine uma criança que vive com medo de levar uma surra quando o pai chegar em casa. Mesmo que não aconteça, o fato de quem cuida dela repetir o dia todo: “quando seu pai chegar, você vai ver, vai ter castigo”, é o suficiente para que o diafragma seja afetado pela ansiedade quando o carro do pai entra na garagem ou a porta de casa se abre. Também poderia ser a insegurança devido a alguém de quem a criança espera amor que sempre afirma que não gosta mais dela pelos atos cometidos. Serem amados é uma necessidade dos pequenos (Aliás, é uma necessidade de todos nós). Podemos dizer sim que não gostamos do que eles fizeram, que ficamos zangados, mas não que deixamos de amá-los. Há um arsenal de atitudes que geram tensão e se transformam em verdadeiros pesadelos: “O monstro vai levar você embora. Ele tá chegando” ou “Se teimar, o bicho papão vai pegar você. Ouviu o barulho dele? Ele está andando no telhado”. Vale lembrar que nosso cérebro não distingue o que é verdadeiro do que não é, mais uma razão para termos cuidado com o que falamos para a criança.

Essa interferência das emoções na respiração é fácil perceber em nós: a raiva nos faz respirar mais depressa, pois o organismo se prepara para o ataque/defesa; o medo paralisa, então, o diafragma se contrai e a respiração fica contida, bloqueando a ação; os estados de tranquilidade e de relaxamento nos permitem uma respiração mais profunda.

A educação autoritária faz com que o professor se mantenha distante do aluno, por acreditar que os vínculos afetivos interferem negativamente no processo de aprendizagem e tiram sua autoridade (uma grande inverdade). Assim, acabam desconsiderando que, especialmente na primeira infância, o aconchego, a aproximação corporal, o abraço carinhoso, o saber ouvir e acolher são necessidades básicas da criança.

Os estudos reichianos e de seus continuadores como Alexander Lowen, criador da Bioenergética, nos mostram que quando não respiramos de forma apropriada (e poucos de nós o fazem) podemos ser acometidos por sentimentos e sensações de derrota, apatia, de medo, de angústia, de impotência. O baixo fluxo de energia nos torna apáticos, com menor nível de sensibilidade e de atenção. No momento que estamos vivendo, que gera tanta tensão e insegurança, as atividades de respiração devem fazer parte da nossa rotina diária.

Hoje, ficamos por aqui. No próximo post, vamos analisar as orientações da Bioexpressão para equilibrar a autorregulação e flexibilizar as couraças. Seus comentários, sugestões e dúvidas são sempre bem vindos. Preencha o espaço abaixo que responderei assim que possível.

As imagens foram retiradas da web

Grande abraço e até o próximo

 

Se desejar aprofundar em autorregulação sob o enfoque reichiano, leia o texto de Leonardo Jeber em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-98432006000100005

Síndrome do Imperador – o que é isso?

 

Em nosso último artigo analisamos a importância de a criança lidar com a frustração. Hoje, vamos aprofundar um pouco mais essa questão e pensar no que o psicólogo Leo Fraiman aponta quanto aos riscos que a chamada síndrome do imperador apresenta ao desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Como havia enfatizado, a frustração em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos, suportar o que a desagrada. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem assim como os adolescentes. Afinal, a vida não responde sempre de forma positiva ou amigável aos nossos desejos, e ter maturidade emocional é saber aceitar as frustrações e adquirir meios de lidar com elas, seguindo em frente, o que, como já observamos em outros textos, é a base da resiliência.

Muitos estudiosos concordam que essa síndrome, muito comum de ser encontrada nos nossos dias, tem origem no fato de que os pais têm menos tempo de estar com seus filhos devido às exigências profissionais e tentam compensar essa ausência cedendo aos desejos das crianças para não as desagradar ou criar desavenças nos momentos de convivência. Acreditam que têm que “fazê-los felizes a todo custo”, sendo criadas situações indevidas para evitar que as crianças sofram frustrações, julgando que é o melhor a fazer. Acabam por criar crianças teimosas, prepotentes, mandonas, intolerantes, mimadas, e sem empatia, isto é, que não conseguem se colocar no lugar do outro.

A síndrome do imperador é resultado de uma visão distorcida dos pais e outros responsáveis pelas crianças que deixam de estabelecer limites, falta esta que pode gerar graves problemas na sua formação. Como observa Leo Fraiman, quem não sabe viver a frustração corre o risco de entrar em depressão porque é alguém que não sabe ir atrás do que deseja, que não sabe ser grato ao que a vida lhe oferece. O psicólogo enfatiza que é uma atitude narcísica dos pais o que gera tal situação, embora estes não tenham conhecimento disso. É claro que nós sempre fazemos o que consideramos o melhor para nossos filhos, ninguém com clareza dos riscos a que a criança é exposta o faria. Fraiman observa que, sobretudo em um mundo em que as relações estão bastante difíceis, os pais ou outros responsáveis pela criança querem ser amados, querem que os filhos sejam seus amigos, que não se aborreçam com eles. Segundo ele, isto se repete no seu consultório inúmeras vezes: os pais querem resolver as dificuldades, mas não querem que os filhos se zanguem, não querem se indispor com eles.

Muitos pais também foram vítimas de uma educação autoritária e não desejam repetir o que vivenciaram, mantendo um clima de camaradagem com os filhos. Entretanto, é importante compreender que estabelecer limites, normas e rotinas domésticas não significa ser autoritário, mas oferecer às crianças o clima necessário que lhes traga segurança e equilíbrio; é assumir a autoridade de quem se responsabiliza por elas e as ama.

Essas atitudes indevidas dos responsáveis impedem que as crianças ganhem autonomia, e Fraiman observa que tirar a autonomia das crianças, gerando apatia, o seu oposto, é como não desenvolver uma musculatura que dá sustentação ao indivíduo e o aleijar. Observa que a neurociência nos mostra que a área do córtex orbitofrontal, atrás da área ocular, é onde se planejam as ações, se criam relações de causa e efeito, se pensam as consequências, é a sede da força de vontade, do freio moral, sendo uma área que se desenvolve pelo treino. O mestre em psicologia educacional e desenvolvimento pela USP enfatiza, ainda, que se a criança não for treinada a esperar, a criar, a negociar, a ceder e a se frustrar está sendo deformada. Alerta que esta criança se tornará chata, birrenta, gastadeira e neurótica. E correrá o risco de vir a se drogar, uma vez que não desenvolveu sua autonomia, e vai precisar o tempo todo do outro para o que deseja. Não é difícil entender que a dependência aos vícios, funcionará como uma “muleta”.

É fundamental que a criança, o adolescente ou mesmo o adulto aprenda a se sustentar nas próprias pernas, que a relação com o outro não seja a de receber o que se quer, que o outro possa lhe proporcionar relações de troca, relações mais saudáveis, que aprenda a investir no que deseja, a ser persistente, criativo… Frustrações são inevitáveis, fazem parte da vida. Poupar nossas crianças de vivê-las só as deixa mais vulneráveis e frágeis, dando-lhes a falsa impressão de que tudo gira em torno delas, ensinando-as a olharem apenas “para o próprio umbigo”, tirando-lhes a possibilidade de lidar com as dificuldades inerentes à vida.

Ouço queixas de professores que sofrem pressões dos responsáveis para fazerem vista grossa a deslizes de seus filhos; que recebem solicitações de mudar notas e de não punirem ações indevidas; de pais que não aceitam reclamações de atitudes incompatíveis com a sala de aula. Ouço reclamações de que os responsáveis lhes pedem: “Dê um jeito no Joãozinho (ou na Mariazinha). Eu não sei mais o que fazer”.  Imaginem uma professora com vinte ou mais reizinhos e princesinhas para dar conta. Também vejo pais que fazem a tarefa dos filhos; deixam que eles já crescidos, na pré-adolescência, durmam na cama do casal; que tomem as decisões do que a família vai fazer ou deixar de fazer; ou  criam brigas com os coleguinhas que se colocam contrários a seu filho ou o desagradam.

Quem não tem sua autonomia trabalhada, muito mais facilmente deposita nas mãos do outro a sua felicidade, o que pode gerar transtornos inúmeros como os que vemos no notíciário. O rapaz que abandonado pela namorada a agride ou tenta matá-la; aquele(a) que tem reações indevidas e muitas vezes violentas se passa por situações que o incomodam ou se leva uma fechada no trânsito. Com certeza, você que me lê já se lembrou de várias outras situações.

Hoje, ficamos por aqui, mas é importante que nos lembremos de que família e escola têm responsabilidades a serem compartilhadas, mas que professores não podem assumir tarefas que cabem aos pais.

Dúvidas, comentários e sugestões são sempre bem-vindos. Assim que puder, entrarei em contato.

Grande abraço e até a próxima

 

Se quiser  saber mais:

FRAIMAN, Leo. Entrevista: O que é Síndrome do Imperador? Programa Todo Seu em 26 fev.2018  https://www.youtube.com/watch?v=RXHvwnJW9Fs

FRAIMAN, Leo. A síndrome do imperador: Pai empoderados educam melhor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019

 

Frustração: é mesmo necessária?

 

Este mês, iniciamos uma sequência de textos que nos ajudarão a entender melhor a relação da criança com seu corpo e o movimento, com seu fluxo de energia vital, com seu processo de autorregulação, e aspectos pontuais para a construção da sua personalidade.  Vamos entender um pouco mais sobre como a criança pode estabelecer relações mais equilibradas consigo, com a família, a escola e outros grupos com os quais conviva.

Contrariamente ao que muitos acreditam, não é apenas a mente que assimila conhecimentos. Afetividade, motricidade e cognição estão permanentemente envolvidas na aprendizagem. As tendências naturais para o movimento e para sua expressão são, desde os primeiros anos, prejudicadas pela prioridade dada à formação intelectual em detrimento do desenvolvimento corporal. E assim, não há uma harmonização entre inteligência, sensações e necessidades básicas, criando-se uma desordem psicossomática que se manifesta cada vez com maior frequência e que pode se traduzir por tensões, tiques, perturbações respiratórias, dificuldades de aprendizagem, perda da espontaneidade e ansiedade.

Para maior compreensão do significado da visão da totalidade corpo-mente na educação da criança, vale conhecer um pouquinho da teoria de Wilhelm Reich e suas contribuições no campo da educação e para a Bioexpressão, uma proposta psicomotora e pedagógica com foco na visão integrativa do ser humano.

A teoria reichiana e a educação da criança

Wilhelm Reich foi um dos primeiros a sistematizar a relação entre o corpo e o psiquismo em inícios do século passado. Postulou a unidade funcional entre o psíquico e o somático, concluindo que a mesma energia alimenta estes dois aspectos, gerando a relação e a mútua influência entre atitudes corporais e atitudes psíquicas. Corpo e mente são uma totalidade e interagem todo o tempo. Quando se trabalha o corpo, se trabalha o ser como um todo.

Segundo Reich, apesar de todo anseio natural pela liberdade e pela vivacidade, as crianças contêm seus impulsos quando não há um ambiente natural propício ao desenvolvimento de sua vitalidade sadia. Muitas vezes, a criança sofre pressões para assumir atitudes que contrariam necessidades essenciais que acabam por fazê-la assumir uma atitude rígida e não-natural. Por exemplo: uma criança muda de posição inúmeras vezes ao realizar uma atividade; inclina o corpo, o movimenta de acordo com o que realiza com as mãos, se alonga, se dobra, senta sobre os pés, se levanta; se agita mais quando está alegre ou narra uma aventura, enfim, pensa, sente e age com todo o corpo. Como exigir que fique sentado imóvel durante muito tempo na escola? Isso contraria uma dessas necessidades básicas: o movimento. Vale destacar que o tempo excessivo diante das telas da TV, do celular, tablet ou computador, embora atraiam muito a criança, também trazem malefícios ao desenvolvimento corporal, uma vez que ficam “hipnotizadas” pelas imagens, imóveis, deixando de desenvolver relações espaciais mais equilibradas.

Quando o educador despreza potencialidades infantis, vendo suas necessidades de contato, movimento e brincadeira, apenas como fonte de transgressão ou impedimentos para a aprendizagem, corre-se o risco de realmente se queimarem etapas do desenvolvimento da criança, impedindo-as de desfrutarem a infância em sua plenitude. Para a criança da educação infantil e séries iniciais torna-se evidente a necessidade do trabalho intelectual conectado ao trabalho motor, lúdico e expressivo para que a criança atinja patamares mais elevados no processo de aprendizagem.

As couraças musculares e de caráter

Pais e professores atuam sobre a criança desde os primeiros anos da infância contribuindo, mesmo que sem intenção, para o seu encouraçamento, através da exigência de um aprendizado do autocontrole que vai além do apropriado para a criança: “Uma criança boazinha senta-se quieta”; “Ficar com raiva da mãe é pecado”; “Homem não chora”; “Coma mesmo sem gostar”; “Engula o choro!”, “Não pode se sujar!”. Como analisa Reich, frases como estas, que bem caracterizam um viés da educação, são, de início, rejeitadas pelas crianças; aos poucos vão sendo relutantemente aceitas, assimiladas e, por fim, exercitadas.  Já ouvi narrativas de estagiárias sobre professoras que serviam pratos muito cheios para alunos e os obrigavam a comer tudo, a comida se misturando às lágrimas. Também de professoras que não aceitavam a criatividade e curiosidade tão naturais da criança, obrigando-as a copiar modelos ou calar perguntas (Felizmente, isso não era a regra; havia situações muito positivas).

A criança tem a “espinha da alma” dobrada, diz Reich; suas vontades não são consideradas, a vida interior e os sonhos são abafados, a espontaneidade contida, a expressão amordaçada. E a criatividade também. Chega um momento em que algumas crenças sem fundamento são assumidas e a criança que se tornou adulto repete para seu filho: “Homem não chora!”. E em momentos de intensa dor não consegue sentir o alívio da dor através das lágrimas devido às couraças criadas.

As couraças musculares, marcas que se gravam no corpo, foram assim denominadas por Reich por representarem um mecanismo de defesa, um escudo de proteção, que surge da necessidade de o ser humano suportar os golpes recebidos ao longo da vida, desde a infância. São um enrijecimento crônico dos músculos que, para proteger o indivíduo de experiências traumatizantes e que podem provocar desequilíbrios, bloqueiam a energia corporal, contendo as emoções. As emoções fortemente sentidas e mal trabalhadas geram tensões que se registram em alguma parte do corpo, bloqueando o fluxo normal das emoções. Os bloqueios criados fazem com que a pessoa tenha dificuldade (ou impossibilidade) de expressar sentimentos comuns como raiva, medo ou prazer. As couraças musculares impedem as crianças (e os futuros adultos) de sentirem seu corpo, de o respeitarem e de aprenderem a ouvi-lo, pois são criados padrões automáticos e inconscientes de resposta.

Não se trata, de forma alguma, de a criança deixar de ser orientada e corrigida, de ter limites impostos, isso faz parte do processo de educar que pais e professores têm a seu cargo, trata-se de ser necessário que suas dificuldades e especificidades, ou seja, de que sua forma de ser e necessidades sejam respeitadas. Uns são mais lentos, outros mais rápidos, há os extrovertidos e os introvertidos, os mais sensíveis ou menos, os mais quietos e os mais agitados, enfim, cada criança tem sua individualidade, sua forma de sentir, de pensar e de agir.

É importante que os sentimentos da criança sejam reconhecidos; que ela seja estimulada a vencer desafios e superar dificuldades, mas sem críticas e castigos duros se ainda não conseguiu chegar lá; elogios pontuais são sempre bem vindos, e os erros podem ser mostrados com amorosidade. E, também, dar-lhes autonomia de escolhas sempre que possível e quando não prejudicar a disciplina necessária. É claro que não podemos deixar que tenha atitudes como fazer birra, se não tem um desejo atendido, pois, lidar com a frustração faz parte do crescimento, mas podemos sim admitir que ela tem o direito de ficar zangada e de dizer ou demonstrar isso, mas não podemos permitir que morda a coleguinha ou chute a professora, que jogue objetos ou grite descontroladamente. As emoções precisam ser trabalhadas e educadas também.

O que basicamente diferencia a criança saudável daquela que apresenta bloqueios energéticos, isto é, os encouraçamentos, é a forma como lidam com as situações; a criança saudável, ao enfrentar circunstâncias difíceis, sai sem maiores danos da condição problemática, ao passo que a que já apresenta encouraçamentos permanece na situação patológica. Problemas e bloqueios vão sempre existir, entretanto, pais e educadores podem contribuir para minimizá-los, para evitar que se cronifiquem e para que as crianças aprendam a lidar com suas emoções.

Outro ponto a considerar, é que tentando evitar a dor das emoções indesejáveis ou insuportáveis, nos fechamos na insensibilidade, nos fechando, também, para sentimentos prazerosos, para o afeto; acabamos por nos fechar ao outro e à própria vida. O isolamento cria novos hábitos, imperceptivelmente, a espontaneidade e a receptividade vão-se perdendo aos poucos e cada vez se torna mais árduo ultrapassar as barreiras criadas, fazer “contato”. O diálogo vai-se tornando cada vez mais difícil.

Para Reich, a frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência.

Entretanto, quando o ambiente escolar e/ou familiar é cercado por uma atmosfera de frustração constante, forma-se na criança um caráter inibido e sem autonomia, o que é prejudicial para seu desenvolvimento. Entretanto, se o educador não tem autoridade, assumindo uma atitude muito permissiva, criam-se crianças sem limites. E todos nós sabemos da importância de estabelecer limites para a vida social, familiar e escolar. Relações interpessoais saudáveis exigem que existam normas de convivência.

De acordo com Reich, uma prática educativa saudável seria aquela em que o professor e/ou os pais colocam limites, algumas regras, que até podem causar descontentamentos, mas que ajudam no desenvolvimento infantil, sem, no entanto, causar inibição através de repressões, críticas e censuras excessivas, o que gera o encouraçamento. Educar com amor e autoridade ao mesmo tempo seria a medida ideal para a formação dos nossos pequenos.

Hoje, ficamos por aqui. No próximo artigo, vamos pensar possibilidades para evitar que as couraças se cronifiquem e analisar alguns pontos que aproximam Wallon, um dos grandes estudiosos da criança, da teoria reichiana.

Dúvidas, sugestões ou comentários? Deixe seu recadinho que responderei logo que possível.

Grande abraço e até lá

Música, sensibilização e aprendizagem

 

Uma das funções do ritmo em nós é a integração das diversas partes

do nosso organismo e a sua harmonização com os ritmos exteriores:

(…) O ritmo é o equilíbrio (…) que sustenta nossas emoções;

é a base de todo movimento humano no espaço, incluindo a música.

Carlos Fregtman

 

Como enfatizei na última postagem, a música é uma linguagem tão valiosa quanto a linguagem verbal (conceitual). Seu poder terapêutico, artístico e pedagógico é ilimitado, pois ela se integra a pensamentos, sentimentos e percepções sensoriais nos níveis mais profundos da personalidade. Trabalhar uma educação estética através da arte é possibilitar que se desenvolva uma personalidade capaz de harmonizar o indivíduo e as relações que ele estabelece com o mundo que o cerca. E isso vale para suas relações intra e interpessoais, assim como para lidar com situações do seu cotidiano.

Yvonne Berge afirma que o trabalho corporal estimula a normalização das alterações rítmicas que ocorrem na transição da fase infantil para a fase adulta, que pode ser perturbada por numerosos fatores psicológicos. Alerta-nos que valorizar muito cedo a leitura e a reflexão abstrata, deixando de lado as capacidades sensoriais e motoras das crianças, é criar uma desordem rítmica que se reflete no modo como se movimentam, gerando coordenações instintivas desorganizadas, provocando desajeitamento. E trabalhar com ritmo, com música, é descobrir e estimular também o domínio espaço-temporal. Para reorganizar o ritmo cotidiano da vida (vejam que boa ideia!), ela propõe uma estratégia que uso muito no meu dia a dia e nas minhas aulas e que funciona muito bem: o deslocamento rítmico. Quando nos sentirmos sobrecarregados, tensos, esgotados, podemos inverter a ordem e/ou o ritmo das nossas atividades. Minha vivência em sala de aula e em trabalho com grupos de professores tem comprovado sua eficiência. Quebrar a rotina, sentir o ritmo da turma e adaptar-se a ele, aproveitar um determinado momento alterando a ordem prevista são, sem sombra de dúvidas, formas de alcançar bons resultados com menos esforço.

Como bem observa Berge, saber extrair energias das fontes do silêncio e distensão e, principalmente, tomar consciência de que o ritmo vivo é muito mais importante do que o rendimento são coisas essenciais, que parecem ter sido esquecidas há muito tempo. Com crianças isso é fantástico, uma cantiga com movimentos ou brincadeiras rítmicas na própria mesinha ou em outro lugar já possibilita que a criança, que vai ficando cada vez mais dispersa e agitada, retorne a um estado de maior tranquilidade e atenção. Vale ter algumas “cartas na manga”.

A música, por ser uma manifestação do sensível, da Arte, geralmente, é vista como um elemento que atua no hemisfério direito. Entretanto, por depender de outras funções como a memória e a análise localizadas no lado esquerdo, o aprendizado musical depende dos dois hemisférios. Estudos comprovam que atividades simples como acompanhar uma música mentalmente, com instrumentos de percussão, ou cantá-la, já é o suficiente para promover uma ativação cerebral. Naturalmente que tocar um instrumento, traz uma atividade cerebral muito mais intensa. De qualquer forma há um estímulo à neuroplasticidade.

Quanto maior o número de estímulos musicais no ambiente escolar (ou em outros ambientes), maior será a atividade cerebral, maior será a formação de novos neurônios. A criança tem uma grande plasticidade cerebral, que embora seja menor no adulto, também pode lhe trazer benefícios.

Cabe lembrar que aquilo que é significativo para a criança (e para os adultos também), que é prazeroso, que é lúdico tem uma atuação muito maior no campo da aprendizagem, da atenção e da memória. E a música tem essa característica de dar prazer, naturalmente dependendo de que se considerem gostos e idades.

Algo de essencial se perde se as vivências estéticas não forem oferecidas pelo sistema educacional. Tais experiências não são o mais importante por si sós, mais importante é a qualidade que está além, que como observei no texto anterior não nos torna artistas, mas seres melhores porque mais humanos. As crianças cantam, fazem rimas, brincam com sons, dançam, desenham e, ao mesmo tempo, orientam-se no seu espaço vital, giram, descem, sobem, descobrem conexões, desenvolvem sua imaginação, dando-lhe forma expressiva. Vivências estéticas criam simbolismos, ajudam a lidar com emoções de uma forma própria a cada pequeno. Temos ainda a possibilidade de vivenciar emoções que aproximem as crianças, estimulando a empatia; ajudar nosso cérebro a criar novas conexões, novos caminhos através das emoções despertadas, novas percepções de mundo. Apreciar, dançar, cantar muitas e variadas músicas proporciona formas criativas para transformar, reconstruir e reintegrar as ideias em novos significados. Traz possibilidades de se desenvolver uma percepção musical mais apurada. Para isso, podemos usar o canto, sons diferenciados (incluindo os do ambiente e os dos instrumentos construídos) ou um Cd.

No texto anterior, sugeri algumas possibilidades de trabalhar música e sons com a criança e elenquei alguns benefícios das experiências musicais como a expressão criativa, o desenvolvimento da atenção, do equilíbrio e do autoconhecimento. Acrescento aqui algumas possibilidades que se relacionam com o hemisfério esquerdo do nosso cérebro: trabalhar a memória, habilidades motoras, coordenação corporal. E outras que se relacionam ao hemisfério direito: desenvolver a imaginação, a criatividade, a harmonia, estimular a fruição, a sensibilidade, a intuição.

O musicoterapeuta Carlos Fregtman aborda a má utilização do hemisfério direito do cérebro onde possuímos faculdades intuitivas e afetivas. Observa que muitos só consideram o hemisfério esquerdo como digno de ser levado em conta por ali se localizaram nossas faculdades cognitivas, racionais; nossa consciência verbal e analítica. O hemisfério direito, muitas vezes deixado de lado, se relaciona com a visão tridimensional, o reconhecimento das formas e contornos, as faculdades musicais, artísticas e o raciocínio holístico. Mas, como frisa o autor, as grandes atividades criadoras surgem da combinação e da ação conjunta de ambos os hemisférios. Lembra-nos o musicoterapeuta que nossa totalidade como pessoa exige a união dos lados esquerdo e direito, da percepção diferenciada de cada um deles, que, na verdade, são complementares.

Visto que desde a mais simples até a mais complexa atividade musical existe atividade cerebral isolada, integrada ou simultânea, é preciso considerar que a educação musical na escola proporcionará ganhos consideráveis para a criança e para qualquer outra faixa etária. É imprescindível, portanto, considerar a musicalização muito além de um passatempo ou preenchimento de tempo vago, deve ser considerada tão importante quanto qualquer outra área de conhecimento.

Seus comentários, perguntas e sugestões são sempre bem-vindos. Deixe-os no nosso site, assim que puder responderei.

Grande abraço e até nosso próximo artigo!

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