Meditar também é coisa de criança

Estamos vivendo uma fase muito difícil com a pandemia. A busca do equilíbrio e o combate à ansiedade são essenciais para não entrarmos em um verdadeiro furacão capaz de destruir nossa estabilidade mental, emocional e física. E desta vez, a postagem se dirige não só para as crianças, mas também para aqueles que cuidam dela, sejam jovens ou adultos.

Independentemente da pandemia, também vivemos uma fase de muita ebulição, de uma preocupação enorme com o ter e o fazer, mas de pouco investimento no ser. Uma época de muita exposição a estímulos externos o que inclui computadores, celulares e televisão. Ao considerarmos todos esses fatores, podemos ter clareza dessa necessidade de dar uma pausa e ter um tempo para o silêncio e para si.

É importante aprendermos e ensinarmos nossos pequenos a criar momentos de autoencontro e de aquietamento.  Para as crianças isso pode ser mais simples do que se imagina, e na escola, isso pode ocorrer de forma muito natural com o trabalho em grupo, como já acompanhei algumas vezes, mesmo com aulas remotas. Inicialmente, tudo se mostra uma grande brincadeira para os pequenos, que, gradativamente, vão aprendendo a serenar o corpo e a mente. Isso se aplica à meditação e, também, às atividades de respiração e relaxamento que são excelentes caminhos para o autoequilíbrio e a educação emocional. Os cuidados a se tomar são a linguagem adequada, a criação de imagens que falem ao mundo infantil e um tempo mais curto.

As atividades de relaxamento e respiração, que conduzem a um estado meditativo, estimulam áreas do cérebro relacionadas à atenção, à memória e ao raciocínio, assim como à autoconsciência e à autorregulação emocional. Isso se dá através da plasticidade cerebral que tem o poder de transformar o cérebro emocional, criando muitas possibilidades, como observa o cardiologista brasileiro Georg Tuppy. Segundo ele, “não estamos presos ao cérebro com o qual nascemos, pois temos a capacidade de direcionar deliberadamente as funções que vão florir e as que vão fenecer, as capacidades morais que vão surgir e as que não vão surgir, as emoções que vão florescer e as que vão ser silenciadas”. Aquela observação que ouvimos muitas vezes de “nasci assim e vou morrer assim”, está longe de ser verdadeira como mostram os estudos das neurociências. Esta é uma desculpa dos que se acomodam e não querem investir em mudanças.

 Em qualquer idade, meditar traz efeitos muito positivos como acalmar a mente, propiciar um sono mais tranquilo, relaxar, diminuir a ansiedade, estimular o funcionamento do sistema imunológico, estimular a criatividade, a imaginação e a autodisciplina, aprender a respirar em momentos de tensão, trabalhar a autoestima positiva.

A criança que passar pela experiência da meditação com regularidade, se tornará um jovem e um adulto com muito mais facilidade de meditar e usufruir os efeitos desta técnica milenar que ganha, a cada dia, maior número de adeptos. Pesquisas revelam resultados muito positivos, incluindo a melhora de doenças e/ou maior equilíbrio para lidar com elas. No Rio de Janeiro, o INCA – Instituto Nacional do Câncer, tem uma experiência maravilhosa no setor pediátrico com sessões de meditação, que ajudam as crianças e seus responsáveis a lidarem com as tensões e dificuldades de enfrentar o tratamento. Também componentes da equipe de enfermagem participam desses momentos de alívio de uma rotina de tensão, contribuindo para que se tornem mais empáticos.

A meditação nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e aumenta a empatia, a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Isso facilita que se criem relações em que raças, crenças religiosas ou culturas não sejam barreiras e que predomine o espírito de solidariedade e fraternidade de que o mundo está bastante carente. As práticas meditativas contribuem, por tudo isso, a aumentar a inteligência emocional e a resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades e delas se recobrar mais facilmente.

Hoje ficamos por aqui, mas ainda voltaremos a esse assunto.

Grande abraço e, se gostou, compartilhe. Deixe seu comentário e sugestões, eles são muito importantes. Responderei logo que possível.

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Frustrar ou não frustrar a criança: eis a questão

Quando falamos em frustrações sofridas pelas crianças, temos que tecer algumas reflexões sobre atitudes que podem ser tomadas em relação aos pequenos e às quais precisamos estar atentos. Afetividade, motricidade e cognição estão permanentemente envolvidas na aprendizagem como vimos no último post. As tendências naturais para o movimento e para sua expressão são, desde os primeiros anos, prejudicadas pela prioridade dada à formação intelectual em detrimento do desenvolvimento corporal. E assim, não há uma harmonização entre inteligência, sensações e necessidades básicas, criando-se uma desordem psicossomática que se manifesta cada vez com maior frequência e que pode se traduzir por tensões, ansiedade, perturbações respiratórias, dificuldades de aprendizagem e perda da espontaneidade.

Segundo Wilhelm Reich, um dos primeiros a sistematizar a relação entre o corpo e o psiquismo em inícios do século passado, apesar de todo anseio natural pela liberdade e pela vivacidade, as crianças contêm seus impulsos quando não há um ambiente natural propício ao desenvolvimento de sua vitalidade sadia. Muitas vezes, a criança sofre pressões para assumir atitudes que contrariam necessidades essenciais que acabam por fazê-la assumir uma atitude rígida e não-natural. Por exemplo: uma criança muda de posição inúmeras vezes ao realizar uma atividade; inclina o corpo, o movimenta de acordo com o que realiza com as mãos, se alonga, se dobra, senta-se sobre os pés, se levanta; se agita mais quando está alegre ou narra uma aventura, enfim, pensa, sente e age com todo o corpo. Como exigir que fique sentada imóvel durante muito tempo na escola? Isso contraria uma dessas necessidades básicas: o movimento.

Quando o educador despreza potencialidades infantis, vendo suas necessidades de contato, movimento e brincadeira, apenas como fonte de transgressão ou impedimentos para a aprendizagem, corre-se o risco de realmente se queimarem etapas do desenvolvimento das crianças, impedindo-as de desfrutarem a infância em sua plenitude. Para a criança da educação infantil e séries iniciais torna-se evidente a necessidade do trabalho intelectual conectado ao trabalho motor, lúdico e expressivo para que a criança atinja patamares mais elevados no processo de aprendizagem.

É importante que os sentimentos da criança sejam reconhecidos; que ela seja estimulada a vencer desafios e superar dificuldades, mas sem críticas e castigos duros, sem palavras ou atitudes violentas se ainda não conseguiu chegar lá; elogios pontuais são sempre bem-vindos, e os erros podem ser mostrados com amorosidade. E, também, dar-lhes autonomia de escolhas sempre que possível e quando não prejudicar a disciplina necessária. É claro que não podemos deixar que tenha atitudes como fazer birra, se não tem um desejo atendido, pois, lidar com a frustração faz parte do crescimento, mas podemos sim admitir que ela tem o direito de ficar zangada e de dizer ou demonstrar isso, mas não podemos permitir que morda a coleguinha ou chute a professora, que jogue objetos ou grite descontroladamente. As emoções precisam ser trabalhadas e educadas também.

Para Reich, a frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência.

Entretanto, quando o ambiente escolar e/ou familiar é cercado por uma atmosfera de frustração constante, forma-se na criança um caráter inibido e sem autonomia, o que é prejudicial para seu desenvolvimento. Entretanto, se o educador não tem autoridade, assumindo uma atitude muito permissiva, criam-se crianças sem limites. E todos nós sabemos da importância de estabelecer limites para a vida social, familiar e escolar. Relações interpessoais saudáveis exigem que existam normas de convivência.

De acordo com Reich, uma prática educativa saudável seria aquela em que o professor e/ou os pais colocam limites, algumas regras que podem causar descontentamentos, mas que ajudam no desenvolvimento infantil, sem, no entanto, causar inibição através de repressões, críticas e censuras excessivas, o que gera o encouraçamento, de que falaremos em breve. Educar com amor e autoridade ao mesmo tempo seria a medida ideal para a formação dos nossos pequenos.

Dúvidas, sugestões ou comentários? Deixe seu recadinho que responderei logo que possível.

Grande abraço e até lá

Muito mais que corpo: é corporeidade

Falar de corporeidade é trazer um novo olhar para o ser humano. É possibilitar que ele seja visto em sua totalidade. Qualquer assunto que trabalhemos em relação à criança exige que tenhamos esta compreensão. Mas, afinal, o que é corporeidade, este conceito que tem um significado tal que precisa ser discutido para que se entendam necessidades fundamentais da criança (e do adulto também)?

Corpo todos nós sabemos o que é, nossa estrutura que tem músculos, ossos, cartilagens, veias, artérias, que guarda os diversos órgãos, e muito mais. A fisiologia do movimento, a anatomia e a biologia são algumas das áreas que se dedicam ao estudo do corpo. Quem não se lembra das aulas de Ciências e Biologia que nos obrigavam a decorar muitos nomes que nos deixavam enlouquecidos nas vésperas das provas?Corporeidade é um conceito relativamente novo que foi trazido pelo filósofo francês Merleau-Ponty, no século passado. Este conceito começa a ganhar maior amplitude em outras áreas com os estudos que vários autores passam a desenvolver e difundir.  Somente no final do século XX e início do atual, ele chega às universidades brasileiras e aos cursos de Pedagogia e Educação Física com maior abrangência. E ele engloba não só o corpo e o movimento, ou seja, a motricidade, mas também a afetividade (que não tem necessariamente relação com afeto ou carinho, pois envolve a grande variedade de emoções, sentimentos e paixões que nos afetam). Envolve ainda a racionalidade e as relações estabelecidas pelo ser com seu meio sociocultural.  Quando se fala de uma educação integral ou da integralidade do ser, estamos falando de corporeidade.

Além das dimensões motora, afetiva, intelectual e social, a corporeidade inclui ainda a dimensão espiritual do ser humano. E é importante que abramos parêntesis aqui: é preciso entender que espiritualidade não tem nenhuma relação com religiões, embora, possamos dizer que, de modo geral, as religiões objetivam desenvolver o lado espiritual do ser. Quando se fala da dimensão espiritual da corporeidade, fala-se daquilo que vai além de necessidades materiais ou físicas, de necessidades mais profundas do ser humano que o ajudam a tornar-se uma pessoa melhor, como o cuidado com o outro, com seu meio e consigo mesmo, a solidariedade, o respeito, o compromisso e a amorosidade. Voltaremos a essa questão daqui a um tempo, uma vez que a falta desses atributos é um grande gerador do preconceito, do vandalismo, da violência, entre outros danos que as sociedades têm vivenciado.

A criança, que é nosso foco aqui (mas, também, pessoas de qualquer idade), para seu desenvolvimento equilibrado, precisa ser vista como alguém que pensa, sente, se movimenta e está vinculada a seu meio sociocultural. Infelizmente e com muita frequência, a educação cerceia o movimento e a expressão, como se estes atrapalhassem o desenvolvimento da criança. No entanto, o movimento é condição fundamental para a construção do seu conhecimento, para o processo de conhecimento de si mesma e de diferenciação do outro, enfim, de sua constituição como sujeito. Claro que não é admissível ou desejável que a criança não tenha limites. Não se pode deixar que ela suba na mesa, se pendure nas cortinas ou no ventilador (se a sala os tiver). Limites são necessários e as regras ou os famosos combinados são importantíssimos. Entretanto, mobilidade e inteligência são inseparáveis, pois é através do movimento que o pensamento se estrutura e que as emoções se organizam. Se observarmos uma criança que começa a descobrir o mundo por volta dos nove meses, podemos comprovar a importância de experimentar suas possibilidades, segurar tudo, experimentar formas diferentes de usar os objetos, de explorar tudo que é novo. Mais adiante, ela vai experimentar suas possibilidades de movimento, de ocupar espaços, de subir, de descer, enfim, ela vai, através da exploração pelo movimento, conhecer o seu entorno e seu próprio corpo. Observe, também, como a criança fala com o corpo inteiro quando expressa suas emoções, quando conta o que viu que a encantou, ou narra uma história que ouviu. Os gestos e os movimentos são complementos essenciais. “É muito grande” sempre vem acompanhado de mãos e braços que se abrem, o não quero, por braços que se cruzam na frente do corpo ou por um dar as costas, e, com certeza, você que lê o texto já se lembrou de muitos outros exemplos. E os gestos vão expressar também o que é culturalmente vivenciado por essa criança. E aqui já vale uma observação: se quando os responsáveis pela criança baterem nela quando sua atitude os desagradar, é claro que ela vai fazer isso com o coleguinha ou até com o professor que o deixar aborrecido. Maus hábitos são aprendidos, mas os bons também!!! O importante, especialmente para professores, é lembrar que nosso corpo expressa o que vivemos, e que não devemos julgar a criança como má por isso. Neste caso, castigos e “isolamento” não resolvem! Um bom papo, a atenção e carinho podem ajudar muito mais.

Grande abraço e até a próxma

http://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/9225
O que podemos fazer para um ano novo de fato?

Estamos diante de 2021 e após um ano tão difícil e atípico como o que se despediu, nutrimos grandes esperanças. Este ano vai ficar marcado não só nas nossas histórias pessoais e na de nosso país, como na de todo planeta. Nossos desejos se voltam para dias melhores, para que haja uma mudança de fato e muitos rezam, ardentemente como de hábito, não tanto por um novo amor, mais dinheiro ou sucesso, e sim pela chegada da vacina, pela saúde, por uma vida mais digna, por um emprego que garanta a comida de cada dia. A pandemia remexeu com nossas vidas; nos obrigou a nos afastarmos da família, dos amigos, trouxe home office, educação online, nos fez cancelar viagens, casamentos, batizados e formaturas. Causou uma grande desordem nas nossas casas, na economia de grande parte da população, quebrou todas as rotinas, desestabilizou vidas, embaralhou emoções e pensamentos. Muitos fantasmas passaram a assombrar a todos.

Como educadores – sejamos pais, avós ou professores, o que nos cabe para que um novo ano seja melhor que o anterior? Acredito que vale tecer algumas reflexões neste início de ano para que nossos pequenos possam colher frutos mais doces não só neste período de 365 dias que se iniciou há pouco, mas em anos vindouros ao longo de suas vidas. E que também nós, adultos, possamos fazê-lo.

Temos presenciado altos níveis de desrespeito, corrupção, descuido com a Natureza, violência, preconceitos, descaso com o ser humano.  Sem dúvida, queremos um ano melhor. Mas muito de tudo isso tem origem na falta de cuidado, de educação ou de valores cuja aprendizagem começa na família e continua na escola. O que podemos fazer para diminuir tais efeitos? Talvez, devido à correria do nosso cotidiano, à necessidade de trabalhar mais para ganhar o necessário, ao cansaço do final de cada dia, alguns aspectos sejam negligenciados. Coisas, às vezes pequenas, contudo, significativas e que exigem persistência, continuidade.

Cenas que não param de acontecer: embalagens sendo jogadas no chão das ruas e praças, nos córregos, arremessadas de carros, de janelas, E quando vamos à praia ou vêm as inundações? Pode-se ver de tudo! Pobre Natureza! Coitado de nosso meio ambiente! Muitas vezes, atitudes que vivenciamos, especialmente com crianças mais velhas, adolescentes ou jovens, notadamente, não podem ser vistas como desrespeito, simplesmente, porque estes jovens indivíduos nem sempre têm noção de que há regras de convivência que não chegaram a aprender. Os professores têm se ressentido com algumas situações vividas na escola, atitudes que já deveriam vir de casa.

O primeiro ponto a enfatizar é que crianças aprendem o que vivem ou presenciam. Por isso é tão importante que as orientemos para que não façam como “todo mundo”, mas que façam o que deveria ser feito. Importante também lembrar que as transformações não virão em um passe de mágica, nem de uma mudança na legislação, mas que dependem de nós, de nossas ações, de nosso compromisso com elas. Nós somos os responsáveis pelas mudanças que desejamos.

Outro ponto a considerar é que ações correspondem a reações, e esta lei deve ser considerada quando educamos nossas crianças. Irritação gera irritação, mau humor afasta as pessoas, gentileza gera gentileza, sorrisos provocam novos sorrisos, amor, afeto e respeito nos aproximam do outro. Vamos estimulá-las a serem delicadas, e se pode começar com o uso das famosas palavrinhas mágicas: obrigada, por favor, com licença, que, quando partem dos pequenos, sempre geram simpatia. Não precisamos gostar de alguém para sermos delicados, e esta aprendizagem nos ajuda na convivência onde quer que estejamos.

Podemos criar ambientes mais saudáveis a nossa volta ensinando nossas crianças a se aceitarem em suas diferenças, a serem mais leves, mais generosas, a apreciarem o que possuem, a valorizar seus amiguinhos e aqueles que as amam; ensinando-as a respeitar os mais velhos, a serem gratas, a valorizarem o que têm ao invés de lamentarem por aquilo que não podem ter.

Ninguém é feliz o tempo todo, é importante ajudá-las a aceitar ou suportar o que lhes traz angústia ou tristeza, decepção ou medo até que tenham maturidade para fazê-lo sozinhas. Com nossa ajuda fica mais fácil. Nesse sentido, acolhamos seus sentimentos e os respeitemos, o que não significa aceitar as birras. Falar o que sentem as ajuda a se sentirem melhor e, muitas vezes, apenas nossa presença, atenção ou mesmo um abraço são suficientes para trazer-lhes conforto.

Em momentos de muito egoísmo como os que temos presenciado, procuremos ensinar-lhes solidariedade e empatia. Em meio a preconceitos e diferenças, ensinemos o respeito àqueles que pensam diferente, que são de outra raça ou seguem outros credos.

Ofereçamos aos nossos pequenos o nosso tempo (e mais vale a qualidade que a quantidade), brinquemos com eles, deixemos que façam escolhas e tomem decisões apropriadas para sua idade, estimulando-lhes a autonomia. Dessa forma, viverão um novo ano com maior autoestima, autoconfiança, com a segurança de que são amados, e, certamente, se sentirão mais felizes.

Um ano realmente novo para você e para aqueles que fazem parte de sua vida.

Grande abraço e até a próxima postagem

Comentários, sugestões e perguntas são sempre bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo, assim que possível responderei.

Ludicidade, arte e resiliência: de mãos dadas na pandemia

 

Este momento de pandemia e distanciamento social nos traz muitos desafios, e a criança não está imune a eles, muito pelo contrário. Irritabilidade, sono irregular, agitação são algumas das alterações facilmente observadas. A vida fechada num apartamento e sem o contato com avós, tios, primos ou amiguinhos da escola pode se transformar em viver dentro de uma panela de pressão, especialmente se aqueles que convivem com a criança são vítimas de mudanças de humor, de inseguranças, medos, ansiedade, o que, como observava Henri Wallon, um dos grandes estudiosos da infância, facilmente contagia os pequenos. Nesta crise vivida em que muitas podem ser as dificuldades – materiais, emocionais e físicas até pela falta do movimento e de uma vida mais regular – se torna necessário estimular nossa capacidade resiliente.

A resiliência é a capacidade de lidar com dificuldades sem se deixar arrastar por elas, sem desmoronar ou se afetar a ponto de perder o controle. Como seres humanos vulneráveis que somos, os problemas nos abalam sim, mas a capacidade resiliente, tão importante em meio a crises, nos permite como diz a letra da canção “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Cabe enfatizar que a resiliência não é inata, não nascemos ou não resilientes, embora a vivência de cada um possa gerar maior ou menor estrutura resiliente, estando vinculada ao desenvolvimento e crescimento humanos. Outro ponto importante e muito positivo é o fato de ser uma capacidade que pode ser trabalhada, tanto individualmente quanto em grupo, o que significa que a família e a escola podem ser espaços propícios para isso. Mas como, vocês podem me perguntar, se estamos sem aulas presenciais? Falaremos disso já, já.

O celular ou o notebook podem propiciar o contato das crianças com os avós, tios, primos e amiguinhos através de vídeos. Esta é uma forma de manter vínculos importantes para a criança. (Foto de Andrea Piacquadio -Pexels)

A primeira questão fundamental a se levar em conta (o que as pesquisas que desenvolvi ao longo de alguns anos me ajudaram a confirmar) é que a resiliência se relaciona com a corporeidade, que envolve pensamentos, sentimentos e ações (atitudes/comportamentos) e as relações estabelecidas com o outro e com o meio ambiente. Não foi à toa que quando iniciei este blog em 2016, o primeiro tema escolhido foi corporeidade, isto é, uma visão integrada do ser humano, temática a que sempre retorno pela sua importância e relação com vários aspectos do desenvolvimento infantil. O distanciamento do ser humano de sua corporeidade explica algumas dificuldades em lidar com os problemas que surgem no dia a dia, gerando muita ansiedade e angústia pela dificuldade de a pessoa entender as próprias emoções, de lidar com elas e de expressá-las.

José Tavares, estudioso de educação e resiliência, considera que todos nós deveríamos possuir características resilientes tais como vínculos afetivos, flexibilidade, empatia, criatividade, inteligência, autonomia, liberdade, autenticidade, autoconfiança, sendo capazes de enfrentar situações adversas mantendo nosso equilíbrio. Entretanto, o ritmo de vida acelerado e competitivo de nossos dias faz com que as pessoas não se percebam, vivam ligadas no piloto automático e em permanente estresse, o que se intensificou muito com a Covid 19. E, não tenham dúvida de que crianças também se estressam e muitos sintomas daí decorrem. Afinal, elas são extremamente sensíveis ao que as cerca. Assim, as características apontadas por Tavares como “naturalmente resilientes” vão se perdendo, ou mesmo, sendo abafadas. E nesta fase, com a pandemia que vivemos, isso pode se agravar e muito. A flexibilidade dá lugar à rigidez, a autenticidade e a criatividade abrem espaço ao senso comum e à repetição, e a autoestima e autoconfiança vão se perdendo.

Então, como podemos instigar a criança a ter maior contato consigo mesma e ter essas características estimuladas? Como podemos contribuir objetivamente para desenvolver sua capacidade resiliente?

Manter vínculos afetivos é fundamental para estimular a capacidade resiliente, inclusive aqueles que possibilitam o toque carinhoso e o abraço. (foto de Elly Farrytale – Pexels)

Vamos considerar, aqui, aspectos que podem ser facilmente compreendidos e vivenciados por pais e professores. O primeiro a considerar são os vínculos afetivos. O ser humano é um ser social, por isso necessita do contato com o outro para a sua formação como indivíduo. Sentir-se amada e protegida traz segurança para a criança, e isso inclui o estabelecimento de regras e limites e não apenas fazer o que ela deseja. A convivência com os avós, a família e os amiguinhos deve ser sempre estimulada. Neste momento, contatos através de vídeos ou até por telefone são muito importantes.

Embora não tenhamos ainda aulas presenciais, as aulas remotas devem criar possibilidades para que a criança manifeste seus sentimentos o que pode ocorrer pela expressão oral ou através de desenhos, histórias em que se podem trabalhar emoções, criação de personagens e músicas com movimentos. A presença da professora e dos coleguinhas, embora à distância, certamente será fundamental para a criança.

O segundo ponto importante são as brincadeiras, o prazer e a alegria. Alguns autores consideram que o humor (o bom humor, é claro!) é um dos pilares da resiliência. Acredito que nosso povo passe por tantas sem desmoronar por seu senso de humor tão aguçado. Assim, pais ou professores, possibilitem situações em que haja espaço para o riso, a leveza, a alegria. Deixe que as crianças rolem no chão e se movimentem de acordo com as possibilidades; deixe que se sujem na areia, que tenham contato com as plantas, com a água, com o sol e com espaços abertos, se houver esta possibilidade. O ato motor está relacionado não só ao mundo físico, mas também à afetividade e à cognição, não é simplesmente o deslocamento no espaço físico, ele é repleto de expressividade, reflete muito do que sentimos e pensamos.

As brincadeiras de faz de conta não podem ficar de fora, são uma oportunidade ímpar para as crianças trabalharem suas emoções, processarem suas tristezas, aquilo que ainda não conseguem entender bem. A criança, através deste tipo de brincadeira, pode transferir para os personagens que cria suas ansiedades, angústias, desencantos e dúvidas e olhar para eles de outra maneira. Panos coloridos e caixas de vários tamanhos forradas podem se transformar naquilo que se desejar: de bercinho de boneca a carro de corrida, e (quem sabe?) em um barco, uma tenda, ou um tambor. Tais atividades trabalham a autoexpressão, criatividade, flexibilidade, empatia, liberdade, espontaneidade e autonomia, características resilientes.

O terceiro ponto são as atividades artísticas, formas incríveis estimular autoexpressão, criatividade e todos os outros aspectos citados por Tavares. As atividades de artes na educação infantil devem proporcionar momentos prazerosos, que provoquem na criança o desejo da descoberta, a flexibilidade manual, a destreza, a criatividade, a produção e a reflexão, nas quais podem ser explorados diversos materiais. Não são recomendáveis o colorido de figuras xerocadas ou a cópia de modelos, uma vez que podam a expressão pessoal. Se a criança quiser desenhar um super-herói, estimule-a a criar a situação em que ele se encontra ou a fazer o seu próprio desenho. Geralmente, elas adoram livros de colorir e não há problema em usá-los se desejam. Mas não deixe de estimular um espaço de autonomia e criatividade. Deixe que dancem, que representem personagens dos livros infantis ou que criarem.

Ler, criar personagens, dramatizá-los o que pode ser orientado pelos pais ou professores mesmo que online, é essencial para trabalhar a sensibilidade das crianças. (Foto de Cottombro – Pexels)

Brincadeiras e jogos, pintura e colagem, cantigas, jogos musicais e teatrais, contação de histórias, dança e muito mais são atividades lúdicas e permitem que a corporeidade da criança seja trabalhada.

Quanto mais trabalharmos a relação com nossa corporeidade, compreendendo a indissociabilidade das dimensões humanas – motora, cognitiva, afetiva, espiritual e social, mais chances teremos de desenvolver nossa capacidade resiliente. Raiva, tristeza e frustrações fazem parte da vida do ser humano, e poder reconhecê-las e expressá-las de forma adequada pode contribuir para buscarmos melhores maneiras de enfrentar os problemas de forma mais equilibrada, com mais flexibilidade.

As boas experiências vividas com regularidade na infância deixam marcas indeléveis que ficam registradas no corpo e no eu mais profundo, e que estarão disponíveis quando o sofrimento bater à sua porta. Essa forma de nutrição da alma permite que novas forças sejam acessadas quando se fizerem necessárias.

Uma criança que tem uma infância feliz, que teve (tem) o apoio de quem cuida dela, seja pai, mãe ou outro responsável, que se sabe amada e respeitada terá chances maiores de se tornar um adulto mais equilibrado, mais feliz e mais resiliente.

Se tiver alguma dúvida em relação ao que foi apresentado, se algo não ficou claro, se tiver sugestões ou quiser fazer comentários, entre em contato conosco através do espaço abaixo no próprio site. Sua participação é sempre muito bem-vinda e significativa.

Rotina, autonomia e resiliência: os novos tempos exigem

No último artigo, mais uma vez nos detivemos em questões significativas neste momento em que nossas vidas sofreram muitas mudanças. Filhos em casa, home office, aulas online, novos protocolos de comunicação e de convivência. Falamos da importância do que nos traz a BNCC, que não só nos orienta para a educação escolar como dá dicas valiosas para a educação familiar. Nesta postagem, vamos nos deter mais um pouco na importância de criar rotinas e aproveitar este momento para trabalhar mais a autonomia da criança e a resiliência.

Rotina: mais segurança e equilíbrio

Estabelecer rotinas proporciona maior segurança aos nossos pequenos e ajuda a minimizar a ansiedade. Neste momento, em que muitas foram as mudanças sofridas, a manutenção de novas regras cria, além de uma “nova normalidade”, uma forma de equilibrar a convivência familiar, de estabelecer novos padrões que possam conciliar atividades de pais e de filhos. Como salientei no texto anterior, propor tarefas para todos é também um modo de desenvolver a autonomia das crianças e de incluí-las nas atividades da casa, o que as ajuda, ainda, a criar um maior senso de pertencimento. Cada um poderá ajudar com pequenas tarefas ou maiores, dependendo de sua idade e aptidão.

Mais importante que qualquer coisa é a intenção da criança de colaborar nas atividades de casa. Foto de Tatiana Syrikova

Mas não confunda rotina com camisa de força; se assim for, o resultado será infalivelmente o estresse. As atividades podem ser combinadas e passar por rodízios. Há muito a ser feito como molhar as plantas, alimentar o bichinho de estimação, colocar objetos no lugar ou recolher a roupa para lavar. Outro aspecto que volto a enfatizar é a importância de abrir espaço para o diálogo que una a família para trocas, para conversas. Dizer o que se pensa e do que se gosta ou não de fazer pode ajudar a criança a falar do que a incomoda e pode nos dar a chance de fazer o que talvez seja possível lhe oferecer. Ajudar, dialogar e expressar sentimentos é muito mais simples quando a criança ainda é pequena. E são maneiras de trabalhar a sua autonomia e a inteligência emocional.

Relembrando as orientações da Base Nacional Comum Curricular- BNCC para a Educação Infantil, se estabelecem seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças que lhes asseguram situações em que possam ter papel ativo e que lhes permitam vivenciar desafios, sendo estimuladas a resolvê-los. Mesmo em casa, tais situações podem e devem ser proporcionadas. A ideia é que possam, assim, “construir significados sobre si, os outros, e o mundo social e natural”. Tais direitos são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

Autonomia: o que toda criança precisa desenvolver

Dar força e assessorar a criança é fundamental Foto de Gustavo Fring do Pexels

É comum vermos pais que por pressa devido à pressão dos horários, por quererem ajudar a criança, para evitar sujeira ou mesmo com medo que se frustre, tomam a frente para resolver situações que precisam ser vividas por ela. São tarefas das mais simples às mais elaboradas como guardar brinquedos, amarrar cadarços, tirar a roupa ou colocá-la, arrumar a mochila, comer sozinha e outras tantas. Cada fase tem os seus desafios. Mas todas elas precisam de estímulo para que os pequenos, passo a passo, ganhem autonomia motora, cognitiva e emocional.

 

Deixar que a criança tome decisões aumenta sua autoconfiança e senso de iniciativa. Foto do Unsplash

Uma forma de estimular a autonomia da criança e que os especialistas apontam como fundamental é incentivá-la a brincar sozinha. Além de criar suas próprias brincadeiras, ela terá o tempo necessário para “conviver consigo mesma” e desenvolver mecanismos de se divertir e aprender sozinha. Isso não significa que a criança não tenha a companhia do adulto para suas brincadeiras em outros momentos, o que os neurocientistas afirmam gerar sentimentos de segurança e de prazer, sendo muito positivo para o seu desenvolvimento. Falamos aqui de um tempo que ela possa se entregar às brincadeiras e à fantasia, tempo que também é importante para seus pais.

Para estimular seus pequenos a brincarem sozinhos e a cumprir pequenas tarefas, deixe-os com brinquedos que não precisem da ajuda do adulto e que lhes permita brincar em segurança. Deixe-os imaginar situações, conversar com os personagens da sua fantasia, criar suas próprias regras. Jogos de encaixe e bloquinhos de construção são brinquedos que oferecem sempre novas possibilidades, que viram carros, aviões, barcos, casas e o que mais a imaginação comandar. E não podemos nos esquecer também das atividades de desenho e pintura se a criança puder ser deixada com canetinhas na mão sem pintar a casa toda.

Seu filho se atrapalha para montar o quebra-cabeça ou calçar a sandália? Coloca os dois pés na mesma perna da bermuda? Deixe que tente algumas vezes solucionar a questão ao invés de correr para resolver. Este é um pequeno começo de exercitar a busca da solução. Estimule-o a fazer de outro modo, a lidar com seu erro, a encontrar uma a forma de fazer.

Incentivar a criança a desenvolver atividades como as tarefas rotineiras de que falei acima é muito significativo, pois ela vai ser desafiada a buscar meios de realizar os afazeres que lhe cabem. Também realizar tarefas passadas pela escola, mesmo que supervisionada pelos pais, as ajuda a assumirem a responsabilidade que lhes cabe, e a se sentirem seguros de realizar tarefas. O psicólogo e neurocientista Hudson de Carvalho observa que, para um desenvolvimento psicológico saudável, é necessário propor à criança situações que estimulem a busca ativa por soluções. Isso significa que é benéfico para a criança lidar com situações que a desafiem a buscar saídas para superar dificuldades.

Lidar com a frustração: mais que um problema, uma solução

Frustrações fazem parte da vida, não há como evitá-las. E, por mais que seja difícil, precisamos ensinar nossos pequenos a enfrentá-las ou estaremos criando jovens e adultos insatisfeitos, que têm dificuldade de ser gratos, e que não conseguem lidar com os revezes da vida. Somente aprendendo a suportar as frustrações, tendo clareza de que a vida não nos oferece apenas respostas positivas, mas nos dá inumeráveis retornos negativos e que a persistência faz parte do processo de crescimento do ser poderemos viver com maior equilíbrio. A frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode e nem deve ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência. Ser resiliente não significa passar pelos problemas sem sofrimentos, mas sim ser capaz de superar a si mesmo, de se recompor, até mesmo se fortalecendo.

Resiliência é a capacidade de passar por dificuldades sem que o desespero nos incapacite para a ação, é ser capaz de enfrentar pressões, situações de estresse sem se deixar abater a ponto de desmoronar. Esta capacidade que temos tido necessidade de trabalhar em nós neste momento da pandemia, de grandes perdas para muitos, deve começar a ser estimulada ainda na primeira infância como acabamos de ver.  E a este assunto voltaremos no próximo artigo.

Se tiver alguma dúvida em relação ao que foi apresentado, se algo não ficou claro, se tiver sugestões ou quiser fazer comentários, entre em contato conosco através do espaço abaixo no próprio site. Sua participação é sempre muito bem-vinda e significativa.

Grande abraço e até a próxima

A foto em destaque é de Pragyan Bezbaruah de Pexels

Aprendizagem, afetos e a BNCC da Educação Infantil

 

No último artigo, conversamos sobre a afetividade e o processo de alfabetização on-line. Falamos também da educação dos afetos ou educação emocional, dando algumas sugestões de atividades que estimulam esta aprendizagem. Neste post, quero aprofundar um pouco mais essa questão tendo em vista a sua importância.

Segundo Henri Wallon, grande estudioso da criança, a afetividade é a capacidade que o ser humano apresenta, desde a mais tenra idade, de ser afetado pelo mundo interno ou pelo mundo externo, seja de maneira positiva ou negativa. A afetividade engloba as emoções, os sentimentos e as paixões. Podemos considerar também, segundo outros autores, os interesses ou motivações, que, como as paixões, também nos mobilizam.

As emoções são as manifestações mais visíveis da afetividade, se mostram com mais facilidade como a alegria, a raiva ou o susto, sendo inclusive, mais fácil percebê-las. Elas surgem a partir de um estímulo ambiental. Um barulho muito alto nos assusta assim como um cão que avança na nossa direção. Uma situação engraçada nos faz rir e nos alegra, assim como receber uma mensagem de um amigo ausente.  Ao ser exposto a alguma emoção, o cérebro libera hormônios que alteram nosso estado emocional e podem também ocorrer reações físicas, como palpitações, suor, rubor e até mesmo dores inexplicáveis, vômitos ou febre, o que não é difícil ocorrer com crianças que sofrem um choque emocional. Os sentimentos são menos perceptíveis porque são mais profundos como o amor, a admiração, o respeito, a inveja ou a indignação.

A pandemia tem nos obrigado ao confinamento e às mais variadas emoções exigindo que enfrentemos grandes desafios. Ela nos exige que olhemos para nós mesmos, para nossas emoções, nossos medos, angústias, preocupações. Muitas vezes, temos um aperto no peito ou vontade de chorar, embora achemos que nada aconteceu para isso. Como não? As notícias do número crescente de contágios e mortes, o isolamento social, a falta das pessoas que amamos, a insegurança, o desconhecido e tanto mais são razões incontestáveis de angústia e de sofrimento. Exige que olhemos para o que nos afeta e exige também que olhemos para as crianças que convivem conosco. Afinal, quando não exteriorizamos o que nos incomoda ou aflige, de alguma forma o corpo reage.

Exige que mudemos nosso olhar, que em vez de focar nas dificuldades, busquemos levar nosso foco para as possibilidades de ganhos que podem advir do momento. E estas, como vimos no artigo anterior, existem, pois é um momento em que a família tem uma rara oportunidade de maior convivência e de crescimento.

Se não nos renovarmos, não procuramos recriar o cotidiano, o nível de ansiedade e de angústia assume proporções insustentáveis. Podem sufocar, desequilibrar, causar sintomas diversos. Em relação à educação familiar ou escolar dos pequenos, também esta necessidade se manifesta.

Abre parêntesis antes de continuarmos: a BNCC da Educação Infantil

Vale considerar que a BNCC – Base Comum Curricular da Educação Infantil (a primeira etapa da Educação Básica) estabelece seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças que lhes assegurem situações em que possam ter papel ativo e que lhes permitam vivenciar desafios, sendo estimuladas a resolvê-los. A ideia é que possam, assim, “construir significados sobre si, os outros, e o mundo social e natural”. Tais direitos são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

Trago um recorte do documento, apontando os direitos da aprendizagem e do desenvolvimento que podemos (e acredito que devamos) trabalhar com a criança neste momento de isolamento social.  Considero que isso é válido também para crianças com mais de seis anos. Nem tudo se mostra viável, mas muitos aspectos desses direitos podem ser considerados na educação familiar. Caberá a cada família fazer as escolhas. O que se mostra inviável foi retirado e está marcado com (…). As situações de convivência com outras crianças se torna possível se houver irmãos ou outras crianças em casa.

Conviver com outras crianças e adultos, (…) utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas; Brincar cotidianamente de diversas formas (…), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais; Participar ativamente, com adultos e outras crianças (…) da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando; Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza (…) ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia; Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens; Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas  (…)

Estabelece, ainda, cinco Campos de Experiência que são primordiais para essa aprendizagem e desenvolvimento dos pequenos e que consideram noções, habilidades, atitudes, valores e afetos.  São eles: O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.

Gostaria, neste texto, de pensar um pouquinho mais além de nos direitos de aprendizagem, no primeiro campo de experiência – Eu, o outro e o nós, que visa a criar experiências que se relacionem à construção da identidade e da subjetividade dos pequenos.

Embora a BNCC seja uma proposta para a escola, ela traz orientações muito significativas para se trabalhar neste momento em que família e escola se aproximam em função das aulas online ou até, em alguns casos, da ausência delas para algumas crianças. Muitos responsáveis consideram que, por serem da educação infantil e haver toda uma demanda com filhos mais velhos, home office, problemas de meios insuficientes de acesso à internet , de espaço e de tempo, os pequenos precisem ser excluídos das aulas remotas. Não se pode negar que há muitas dificuldades sendo vividas nas casas deste nosso país tão grande e desigual. Também ocorre que, em muitos casos, a criança não consiga permanecer atenta diante da tela do computador ou do celular pela própria idade. Acredito que tais orientações podem ajudar também os responsáveis pelas crianças da Educação Infantil que não têm um contato regular com a escola, dando atenção a alguns pontos fundamentais. Fecha parêntesis.

O que é essencial valorizar

Este é um momento da criança em que a interação com seus pares tão desejada não ocorre, quando muito ela os vê na telinha ou convive com um ou mais irmãos. Por isso mesmo, trabalhar a identidade dos pequenos e sua subjetividade é fundamental. Como enfatiza a BNCC, interagindo com seus pares e também com os adultos, as crianças, gradualmente, vão exercitando e assumindo seu modo próprio de agir, sentir e pensar, descobrindo que há pessoas, pontos de vista e modos de ser diferentes, o que significa aprender a respeitar as diferenças. Também é momento de dialogar com os pequenos de acordo com sua compreensão, de perceber suas emoções, de entender suas dúvidas, visando a ampliar as experiências de se autoconhecer e de construir relações; de construir sua autonomia e senso de autocuidado, de reciprocidade e de interdependência com o meio. Momento de deixá-los se expressarem por palavras, música, dança ou desenho. Prestar atenção a suas histórias.

Enfatizo que a autonomia, tão importante para o desenvolvimento saudável da criança, não é algo a ser ensinado, assim como o respeito, o cuidado, entre outros valores, mas exercitado a partir de situações que lhe são oferecidas, e este é um rico momento para isso. Ajudar nas tarefas possíveis como colocar as roupas sujas no cesto, jogar fora papeis no lixo, dobrar o pijama, entre muitas outras, estimula essa autonomia e o senso de pertencimento, de participação.

Mais importante que aprender conteúdos é construir habilidades que ajudem a criança a ser uma pessoa melhor, com relações mais saudáveis, mais solidárias. Percepção de que todos vivem dificuldades, mas que juntos fica mais fácil resolvê-las.

Em tempos de isolamento social, mais que nunca é importante exercitar a paciência, a tolerância, a solidariedade, a tranquilidade, o diálogo. Mais que nunca é importante poder falar dos temores, das dúvidas. E quando falo de paciência, não é só daquela necessária na convivência com o outro. É também de ter paciência consigo e com as próprias dificuldades.

Este assunto está longe de se esgotar, então, na próxima postagem vamos falar um pouco mais da importância de criar rotinas, de como aproveitar este momento para trabalhar a flexibilização, a empatia, a autonomia, a resiliência e outros valores e qualidades que a educação integral propõe.

Grande abraço e até a próxima

Deixe comentários, sugestões ou perguntas abaixo que responderei assim que possível.  Eles são muito importantes.

As fotos deste post são da Pexels.

Alfabetização do afeto e a pandemia da covid 19

Este texto foi escrito após minha participação em uma roda de conversas online da III Semana de Pedagogia da UEMG, da qual participaram, além de mim, três professoras e uma psicóloga. O link do Youtube para quem desejar assistir está abaixo.

A pandemia está nos obrigando a rever algumas formas de agir e até mesmo de ser. Estamos diante de grandes desafios, como lidar com nossas relações no isolamento social e com o processo de escolarização dos pequenos. Quando falamos em alfabetização, o desafio é maior ainda, pois aumentam as cobranças cognitivas, a necessidade de acompanhamento e diminuem os “alimentos” emocionais que são tão importantes para as crianças como as brincadeiras, o lúdico e as artes. O que me foi proposto foi que fechasse a conversa, pensando o afeto para além do processo de escolarização, o que implica pensar as relações humanas tanto as da escola como as familiares.

 

São muitos os desafios que a educação online nos apresenta, especialmente, na Alfabetização (Foto de August Richelieu do Pexels)

Tornou-se evidente, um crescente incômodo emocional entre as crianças como irritabilidade, instabilidade das emoções, agressividade, que têm cada vez menos tempo de viver sua infância de forma mais plena. Mesmo antes do isolamento social, os pequenos já se viam mais confinados e, muitas vezes, sob a influência constante das telas de computadores, tabletes e celulares. Grande parte dos pais exercem seu fazer sob pressões e conflitos, numa sociedade que cobra cada vez mais produtividade, o que ocasiona uma crescente perda do tempo de convívio com as crianças. Não é incomum pais saírem de casa com os filhos ainda dormindo e voltarem quando eles já foram para a cama ou que estejam lutando contra o sono à sua espera.

Relações familiares afetuosas são fundamentais para o desenvolvimento equilibrado da criança (Foto de Elly Fairytalle do Pexels)

Não tenho dúvidas de que a infância é uma fase decisiva para a formação do futuro adolescente e do futuro adulto, e que é um tempo essencial para que as crianças aprendam a lidar com as próprias emoções, e com as emoções do outro para que se estabeleçam contatos humanos que sejam significativos e lhes traga segurança. Considerar os afetos, que englobam emoções, sentimentos e paixões, é imprescindível. Não é difícil encontrarmos adultos e jovens brilhantes intelectualmente, mas com pouca maturidade emocional, pessoas que não conseguem reconhecer seus sentimentos nem lidar bem com eles.

O estar juntos em confinamento oferece uma oportunidade ímpar de convivência familiar que pode e deve ser aproveitada. Este é um momento em que os pais, mesmo que em home office, têm mais chance de conviver e de conhecer suas crianças, de ajudar seus filhos a lidarem com as próprias emoções que são muitas diante de uma tensão que vibra, que vem da tevê, das conversas dos adultos, das notícias repetidas que fogem à compreensão dos pequenos. Crianças são muito perceptivas e captam tudo que acontece a sua volta, mesmo que, aparentemente, não estejam prestando atenção. E, cá pra nós, foram muitas mudanças repentinas. Fomos obrigados a mudar, completamente, hábitos e rotinas.  Claro que a insegurança chegou para assombrar a todos nós, adultos e crianças.

Devemos conversar com as crianças e explicar o que acontece de forma que possam entender e participar dos cuidados e da nova rotina. Também os professores podem contribuir para além das temáticas tradicionais, oferecendo meios para estimular o que Daniel Goleman, psicólogo que desenvolveu os estudos de Inteligência Emocional chama de alfabetização emocional.

Mas antes, vamos entender melhor este processo, pois penso que se iniciarmos agora este exercício de alfabetizar as emoções, ao retornarmos às aulas presenciais será bem mais fácil dar continuidade a essa outra forma de alfabetização.

A teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner traz uma visão diferenciada de considerar as habilidades cognitivas. Uma criança que não tem maior competência em cálculos pode ter uma maior habilidade linguística ou musical, o que não significa ser mais ou menos inteligente. Quando se pensa em educação emocional, é importante considerar duas formas de inteligência entre outras que foram propostas por Gardner: inteligências intrapessoal e interpessoal. O psicólogo define a inteligência intrapessoal como a capacidade de construir uma imagem real, exata e verdadeira de si mesmo, e de ser capaz de usar essa imagem de forma eficaz. É ter a capacidade de discriminar as próprias emoções, dar nome a elas e saber usá-las para orientar decisões. É uma forma de inteligência que se relaciona à capacidade de se autoperceber e de desenvolver o autoconhecimento.

a inteligência interpessoal é a capacidade de perceber, valorizar e trabalhar com as intenções e motivações de outras pessoas. E as crianças são boas nisso de uma forma muito espontânea. Elas são capazes, por exemplo, de perceber mudanças de humor e muitas emoções daqueles que convivem com elas. Lembro bem de quando meus pequenos (filhos e alunos) me perguntavam: por que você está triste hoje? E, na maioria das vezes, me abraçavam ou me enlaçavam pela cintura. E esta capacidade muitas vezes inata ou que pode ocorrer pelo que Henri Wallon, grande estudioso da criança, chama de contágio, deve ser mais bem trabalhada para que se criem relações mais significativas. O contágio também se mostra quando uma criança chora e as outras choram também; ainda é visível se a mãe ou a professora está irritada e as crianças ficam bem mais agitadas. Este é um bom exemplo da importância de nos darmos conta de como está nosso estado emocional e evitar, inclusive, que um aborrecimento matinal acabe criando uma sequência de problemas e desacertos em função das nossas reações em cadeia.

Como podemos estimular estas duas formas de inteligência tão importantes para a educação emocional?

Foto de meu arquivo pessoal: as atividades artísticas são também uma forma de fazer carinho e demonstrar afeto

As atividades lúdicas e as atividades artísticas (que são também lúdicas para a criança) contribuem para que a criança entre em contato consigo mesma, com suas emoções, sua sensibilidade e fantasia, com sua criatividade. São atividades que estimulam a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, e que é um aspecto essencial para essas formas de inteligência.

Exercícios de respiração e relaxamento que devem ser lúdicos para envolver as crianças, sendo utilizadas imagens expressivas como puxar o ar como se sentisse um perfume gostoso e soltá-lo como se enchesse devagarzinho uma bola de aniversário. Imaginar que é uma bola se sorvete que vai derretendo e se espalhando no chão. Trabalhar os sentidos, percebendo cheiros, sabores, sons, texturas, imagens.

Ouvir e contar muitas histórias. Criar personagens e contar a sua história, imaginar o que sentem, o que pensam e como se relacionam.

Deixar que a criança expresse suas emoções e ajudá-la a dar nome aos seus sentimentos e a perceber expressões gestuais que falam de sentimentos e emoções: tristeza, alegria, medo, raiva, dúvida. Trabalhar com emojis que podem ser desenhados pela própria criança.

Foto cedida gentilmente por Daniela Fantoni: Criando atividades lúdicas

Goleman observa que todas as emoções têm um valor e um significado, logo a questão não é ocultá-las ou buscar eliminá-las, o que precisamos é equilibrá-las, saber usá-las de forma apropriada. Daniel Goleman e o neurocientista Antonio Damásio, entre outros, enfatizam que o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.  Emoções são importantes para a racionalidade. O intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional.

É muito importante oferecer afeto seja ele físico ou não, especialmente em momentos de tensão. O contato físico, como o abraço, um beijo, um afago, faz falta para a criança nesta pandemia em que perderam a relação com os amiguinhos e a professora, e a maioria dessas crianças perdeu, ainda, o contato com os avós, os tios e primos. Em texto anterior, vimos que, nas entrevistas, as crianças comentaram que sentem falta de contato físico, de abraços. Há ainda outras formas de afeto que “nutrem a alma” como prestar atenção ao que a criança diz, brincar com elas, mesmo que seja um pouquinho, contar histórias na hora de dormir, e outros pequenos gestos afetuosos.

Relatório da UNESCO publicado como livro – Educação: um tesouro a descobrir – propõe quatro pilares para a Educação do Século XXI: aprender a conhecer (adquirir instrumentos de compreensão), aprender a fazer (para poder agir sobre nosso meio ambiente), aprender a conviver (cooperar com os outros em todas as atividades humanas), e finalmente aprender a ser (conceito principal que integra todos os anteriores).  Se observarmos, veremos que aprender a conviver é exatamente desenvolver a inteligência interpessoal; e aprender a ser é trabalhar a inteligência intrapessoal (autoconhecimento).

A herança genética nos dota de pontos-chave que determinam nosso temperamento, mas temperamento não é destino como enfatiza Daniel Goleman. Na infância e na adolescência, em casa e na escola, aprendemos lições emocionais que modelam novos circuitos devido à plasticidade cerebral. Então, aquela desculpa de que “sou assim porque nasci assim e vou morrer assim” não faz sentido, podemos gerar mudanças ao longo de toda nossa vida. E na infância, é muito mais fácil assimilar novas aprendizagens.

Alfabetizar as emoções significa trabalhá-las e aprender a lidar com elas. Significa também estimular a resiliência, a capacidade de lidar com as dificuldades de forma mais equilibrada.

Grande abraço e até a próxima

Link da roda de conversas a que me referi acima:https://www.youtube.com/watch?v=XJ4Awr0-DfA

Deixe seu recado, sugestão ou dúvida abaixo. Assim que possível, responderei.

Foto de capa de Andrea Piacquadio do Pexels.

Alfabetização do afeto e a Pandemia de Covid-19


Na semana de 22 a 26 de junho, das 19 às 22h, acontecerá o evento online denominado III Semana de Pedagogia e I Jornada Internacional: Adaptações e convívio em meio à pandemia. Faça sua inscrição gratuitamente até o dia 22 de junho.

Acredito que nossa roda de conversa do dia 24 de junho, quarta-feira, a partir das 19h, da qual participarei, será de interesse dos leitores de nosso blog:

Alfabetização do afeto e a Pandemia de Covid-19

 

Mas você terá também muitas outras opções.

Saiba mais clicando aqui:
even3.com.br/3semped_uemg_barbacena

Grande abraço e até lá

Foto de Ketut Subiyanto no Pexels

Aulas remotas: mais vantagens ou desvantagens?

 

No texto anterior, vimos que há percepções diferentes quanto às aulas remotas. Mas, afinal,traz mais problemas ou soluções? Será que podemos nos posicionar em uma das opções?

Miguel é filho de Simone e estuda em uma renomada escola particular em São João del-Rei e ambos se dispuseram a conversar comigo. Simone me disse que considera haver múltiplas situações a serem consideradas e que, na sala de Miguel, há circunstâncias complicadas, pois há pais e mães que estão fazendo home office e não têm condições de dar o apoio necessário às crianças. Ela própria tem que preparar aulas, mas é um trabalho que tem sido possível conciliar com a orientação de um só filho, o que não acontece com todas as famílias, especialmente as que têm duas ou três crianças com idades diferentes, sem a possibilidade de espaços privados na residência.

Como vimos no texto anterior, as queixas são inúmeras e há crianças na escola de Miguel, como observa Simone em nossa conversa, que ficam com os avós na zona rural, sem internet, e há outras que têm bolsa e não têm condições de acompanhar as aulas, pois não possuem acesso a computador.  Ela acredita que as aulas são uma forma de preencher um pouco a vida das crianças e criar uma rotina no seu caso particular, porque seu menino já tem certa independência. Miguel tem nove anos e conversou comigo de uma forma muito franca; disse que está achando meio chato, porque não tem recreio e não pode conversar com amiguinhos específicos. Também se sente muito cansado (e disso falamos no último post), e quando a professora corrige os trabalhos, ela só pode ver três alunos na tela de cada vez e ele fica um tempão com a mão levantada. “Éeeee …, na verdade, éeee não gosto não.” Mas ele adora ouvir as histórias que sua mãe e o marido contam “com ou sem quarentena”, diz ele.

 

Foto de Jessica West no Pexels

Mariana, outra menina com oito anos com quem conversei, de escola também particular daqui da cidade, com uma boa estrutura, reclamou exatamente das mesmas coisas. Ela fica meio perdida e só fica mais fácil quando a mãe, Ana Lúcia, pode ajudar, o que é difícil, pois ela dá aulas pela manhã e à tarde. Ana Lúcia comenta que as crianças não desligam o microfone como a professora pede e ficam falando entre si, chamando o amiguinho. Segundo ela, só funcionaria bem se todas as mães pudessem estar ao lado das crianças, o que é inviável, pois a maioria está em home office. Mariana se lamenta comigo: “Sinto muita falta da minha professora, ela sempre tira minhas dúvidas e me abraça. Minhas amiguinhas… puxa, como sinto falta delas, de brincar e dos abraços!”

Um aspecto importante a ser considerado segundo os estudos das neurociências e que fica evidente nas falas das crianças a que me refiro neste artigo e no anterior, é a importância da proximidade para regular os níveis de ocitocina e de outros hormônios, o que vale pontuar neste momento vivido. Os níveis de ocitocina são diminuídos pelo isolamento ou solidão, ansiedade, depressão e estresse crônico. Atitudes afetuosas de contato físico como o abraço estimulam sua produção, observa Fernando Gomes, neurocirurgião e professor do Hospital das Clínicas da USP. Junto com a dopamina, a serotonina e a endorfina, o chamado grupo dos “neurotransmissores da felicidade”, possuem a função de aumentar as sensações de prazer e melhorar quadros depressivos.  Não é à toa que as crianças sentem tanta falta do contato afetivo com os coleguinhas e as professoras, e estas do contato com os pequenos. Isso também ocorre com profissionais da saúde que têm ficado longe das suas crianças assim como os avós que, com frequência, têm vivido processos depressivos pela falta do contato físico, do aconchego com os netos. A ocitocina ainda desenvolve apego e empatia entre as pessoas e modula a sensibilidade ao temor do desconhecido. Ou seja, o medo do que vem pela frente acaba crescendo. E não podemos desconsiderar que isso tem nos acompanhado. A ansiedade tem aumentado, o que é natural, segundo Gomes, uma vez que temos vivido em estado de alerta.

A neurocientista Laiali Chaar, doutora pela USP, afirma que o abraço melhora o desenvolvimento cerebral, a saúde física e mental de homens e mulheres segundo comprovam estudos na área.Quanto mais você abraçar uma criança, mais o cérebro dela se desenvolve e menos estresse ela sentirá na vida adulta”. Então, minha dica é abraçar mais aqueles que estão em isolamento conosco.

Dificuldades do home office
Foto de Anastasia Shuraeva no Pexels

Mas, afinal, o que é melhor para a criança? Esta resposta é possível de forma objetiva? A primeira coisa a enfatizar é que estamos vivendo uma situação muito peculiar e que alguns cuidados e algumas decisões precisam ser tomadas, assim como minimizadas algumas dificuldades. Quanto mais mantenho contato com mães, professoras e crianças, mais tenho clareza de que não há uma resposta única, aulas remotas tanto podem trazer benefícios quanto grandes problemas. São muitas as variáveis e a partir delas continuei a problematizar questões que iniciei no último artigo, uma vez que a insegurança e/ou as dificuldades têm sido uma constante nas entrevistas informais que venho realizando com mães, professoras e alunos, sem contar o que leio sobre o assunto e os seminários a que tenho assistido.

Simone, Ana Lúcia e algumas outras mães acreditam, assim como eu, que, apesar das desvantagens, as aulas remotas ajudam a criar uma rotina para as crianças, o que é muito positivo. Também ajudam a ocupá-las por algum tempo, dando um “respiro” para a família. Mas para apresentar mais vantagens que desvantagens e menos tensão são necessários alguns cuidados.  Percebo muitas mães assim como pais e professores “à beira de um ataque de nervos”, tentando conciliar o próprio trabalho com as muitas exigências das aulas das crianças, da rotina doméstica e, muitas vezes, de bebês ou filhos bem pequenos. Portanto, professores não devem exigir muito dos pais, propor excesso de atividades, fazer pedidos de esquemas, montagens ou afins que exijam tempo em excesso da família. Procurar criar uma certa autonomia para a criança quando possível, o que será um exercício valioso. 

Seria muito positivo que, como tenho visto acontecer, se aproveitasse este momento para propor atividades artísticas e a contação e leitura de muitas histórias, pois a arte sensibiliza e ajuda a criar uma nova forma de ver o mundo, possibilita novos olhares. Por exemplo: dar outra finalização para uma história lida, ilustrá-la, imaginar como gostaria que fosse a volta às aulas, imaginar um amiguinho com poderes mágicos e desenhá-lo. Ideias não vão faltar. Falaremos melhor dessas ideias mais adiante, assim como da importância da arte.

Foto gentilmente cedida por Daniela Fantoni: Depois da história, um lindo dedoche.

Talvez o pior que eu esteja percebendo, seja a sensação de “incompetência” e de “enxugar gelo” que toma conta de muita gente: crianças, mães e professoras, estas talvez as mais atingidas, especialmente, se forem mães e professoras. Há uma série de elementos que interferem e não podemos ter os mesmos resultados em todos os casos. Os professores não foram preparados para aulas a distância e, de repente, cai em suas mãos uma obrigação que lhes demanda tempo, conhecimento, recursos e disponibilidade, em uma situação que já traz uma nova rotina mais estressante.

Particularmente, acredito que o contato entre alunos e professoras possa fazer bem a todos, mas não é cabível manter a mesma carga horária (esta deveria ser bem menor), não é salutar conservar a mesma estrutura das aulas presenciais ou o mesmo conteúdo programático, especialmente para o ensino fundamental. Para uma situação extrema, especialíssima como se mostra esta pandemia por que passamos, e que nem sabemos por quanto tempo ainda ficará nos rondando, não podemos esperar que a escola mantenha um mesmo ritmo e as mesmas exigências. Poder-se-iam, entretanto, estabelecer esquemas de aulas mais curtas, que não exigissem tanto a participação dos pais que também têm suas atividades (e muitas vezes um só computador), que direção, coordenadores pedagógicos e professores pudessem pensar possibilidades, ações mais criativas até que se possa ter um retorno às aulas presenciais. Creio que temos também, na volta às escolas, uma oportunidade única de reavaliar a necessidade de pensar formas de mesclar aulas presenciais e remotas, metodologias inovadoras que tragam mais vida à sala de aula. Entretanto, se forem mantidas as aulas nos esquemas que temos presenciado na maioria das vezes, especialmente nas escolas públicas de alguns estados e municípios que possuem alunos com baixa renda e condições bem mais difíceis de moradia (sem internet, com muitos moradores e sem espaço minimamente apropriado), teremos um maior distanciamento social, só que este não necessário como o que vivemos devido à pandemia, mas um distanciamento que aumentará a desigualdade social, criando mais injustiças do que as já existentes.

É, no mínimo, ingênuo acreditar que todas as crianças deste nosso extenso e desigual país poderão computar este tempo com aulas remotas como se estivessem em aulas presenciais. É extremamente injusto agir como se as aulas estivessem sendo ministradas para todas as crianças de todas as escolas da mesma forma. Agir como se todos os nossos professores tivessem recursos metodológicos e materiais para dar aulas a distância sem que a internet trave, a imagem trema ou suma, e que lá, na outra ponta, os alunos recebam aulas criativas, apropriadas, com uma linguagem inteligível. Afinal, é essencial que haja um bom planejamento para que as aulas sejam bem preparadas e não a replicação das presenciais.

Eu, que tenho muito contato com professoras e mães professoras, as parabenizo pelo grande e contínuo esforço de “não deixarem a peteca cair”, de enfrentar tantos e tão variados desafios, de se mostrarem tão resilientes diante desta crise que é de saúde, econômica e educacional.

Uma nota: usei o gênero feminino falando de mães e professoras, porque são uma grande maioria no ensino fundamental e foram uma totalidade nas entrevistas, mas incluo aqui os professores, alguns que conheço e que considero muito especiais e pais que são muito presentes como mostra a foto em destaque enviada por Juliana Aparecida Pereira a quem muito agradeço.

Deixe seus comentários, dúvidas e sugestões no espaço abaixo e responderei logo que puder. Eles são sempre muito bem-vindos e significantes para mim.

Grande abraço  e até a próxima