Muitos são os estudiosos da criança que nos trazem orientações inestimáveis para a compreensão do desenvolvimento infantil. Mas um deles me fascina pela forma como analisa este processo e pela visão de totalidade que nos oferece: Henri Wallon. Tendo sido médico e psicólogo, e se dedicado aos estudos da psicomotricidade, o estudioso francês nos oferece uma rica produção que analisa em amplitude e profundidade a evolução da criança e suas características. Mas também enfatiza as diferenças que podemos encontrar entre faixas etárias, de uma criança para outra, como se caracterizam os vários estágios de desenvolvimento, nos chamando a atenção para suas singularidades e para seu contexto.

A teoria walloniana considera a criança um ser global em seus aspectos afetivo, cognitivo e motor. Atribui, ainda, ao meio social um papel fundamental na formação e desenvolvimento da criança, tendo a observação sido utilizada como método essencial para compreender as atitudes e comportamentos infantis.

Falar da influência do meio, isto é, do contexto da criança sobre seu desenvolvimento, implica aspectos múltiplos: o ambiente físico, as pessoas que convivem com a criança, a linguagem e o conhecimento utilizados, o fato de esta criança ser mais ou menos estimulada, de receber mais ou menos atenção, de ser ou não acolhida. Estes aspectos interagem e tanto podem contribuir para o desenvolvimento da criança como para impedi-lo ou prejudicá-lo. Cada criança tem suas particularidades e uma história de vida diferenciada, por isso, cada uma tem um desenvolvimento próprio, inclusive aquelas que têm a mesma faixa etária. Mesmo gêmeos que estejam no mesmo ambiente podem ter processos diferentes: falar, andar ou se alfabetizar em momentos diversos, por exemplo. Isto porque se apropriam dos recursos que o meio oferece também de formas diferenciadas.

Assim, não devemos comparar nossas crianças ao amiguinho, ao primo ou a quem quer que seja. Cada um tem seu tempo e suas características. A ansiedade dos pais porque o vizinho, o priminho e a filha da amiga já estão lendo, mas seu filho ainda não, pode gerar ansiedade também na criança, assim como insegurança. Crianças se ressentem muito com as emoções dos que a cercam, é o chamado contágio emocional.

O processo de desenvolvimento passa por etapas progressivas, mas não é contínuo, podem ocorrer estagnações ou retrocessos. O processo de desenvolvimento é comparado pelo autor a um pêndulo: progride, volta ao anterior, regride, volta a progredir. Também ocorrem alternâncias entre a predominância dos aspectos cognitivos ou afetivos, entretanto sempre se mantêm integrados no processo de desenvolvimento: os afetos influenciam as relações e os processos de aprendizagem, e o corpo é o veículo principal de expressão intelectual e afetiva. Vale observar que a palavra afeto aqui não tem o mesmo sentido de carinho, mas daquilo que nos afeta, de nossos sentimentos e emoções: alegria, tristeza, raiva, medo, entre outros.

Wallon considerava a criança contextualizada,ou seja, considerada em seu ambiente social e cultural..

Enumero algumas lições que Wallon legou para todos nós, educadores, tanto pais quanto professores:

* O movimento é fundamental para que o pensamento se desenvolva e se organize;

* É importante que pais e professores saibam lidar com suas próprias emoções, pois estas influenciam sua atuação assim como o comportamento das crianças. As emoções são contagiosas. Já repararam que, na escolinha, quando uma criança chora, é uma choradeira geral? E que quando estamos mais agitados, as crianças também ficam?

* Outro ponto importante é a necessidade de aprender a ler os sinais que as crianças emitem, pois a infância é a fase em que as emoções se mostram com mais facilidade, é quando podemos interpretar as pistas fornecidas pela respiração, postura, fisionomia, entonação da fala, pelo olhar e pelos gestos com mais facilidade. Especialmente quando há mudanças marcantes, como uma criança que não que falar, comer, brincar…

* Tanto o movimento excessivo, quanto a sua “ausência” podem revelar a presença de uma determinada emoção. Criança muito quieta deve fazer com que o nosso sinal de alerta funcione.

* É papel da escola também promover o desenvolvimento da personalidade da criança, o que significa ir além do mero desenvolvimento das funções intelectuais; os progressos da inteligência que são, especialmente, responsabilidade do professor, dependem, em grande parte, do desenvolvimento da afetividade e da motricidade.

* Brincar é uma necessidade da criança e fundamental para o seu desenvolvimento. Sejam jogos, brincadeiras de faz-de-conta ou imitação são experiências importantes no desenvolvimento cognitivo, motor e afetivo das crianças.

* Quando a criança se movimenta, explorando seu corpo, suas possibilidades de ação, também explora sua atividade psíquica, uma vez que não somos formados por segmentos dissociados, somos uma totalidade em movimento. Assim, uma criança que só fica sentada em sua carteira copiando do quadro e, em casa, sentada diante da TV, do computador ou com um tablet ou celular nas mãos, perde grandes chances de se desenvolver emocional e cognitivamente.

* Uma característica importante do aspecto lúdico da brincadeira e do jogo é a finalidade em si mesmo. Se uma atividade se torna utilitária e subordinada a um fim, ela perde o atrativo e as características do jogo. Por exemplo, se ofereço brincadeiras apenas com um fim didático sem que proporcionem o envolvimento dos pequenos, estas tendem a se tornar maçantes e sem sentido. Cabe observar, que tudo que se torna rotina perde muito de seu encanto, e que é importante não fazer da brincadeira uma situação repetitiva, procurando dar à criança possibilidades de criatividade e autonomia.

O aprendizado mais eficaz não se dá quando a criança está imóvel sentada na cadeirinha e, sim, quando pode agir, tocar, experimentar, vivenciar. Uma postura muito rígida e autoritária pode afastar o aluno do professor e a rebeldia em sala de aula pode ser a forma que a criança encontra para denunciar essa carência de contato e de chamar para si a atenção do professor. É importante frisar que a educação autoritária contribui para o bloqueio da criatividade e da espontaneidade. Limites são essenciais, a criança não pode fazer o que deseja. Mas cabe aos educadores exercitarem também a sua flexibilidade e bom senso.

No próximo texto, vamos analisar os estágios que Wallon nos traz em seus estudos com base na idade dos pequenos.

Suas perguntas, sugestões e comentários são bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo que responderemos assim que possível.

Fotos retiradas da web.

 

Resiliência: aprendizagem necessária

A palavra resiliência nem sempre, ao ser usada, se mostra compatível ao conceito que representa ou à sua complexidade, o que acontece, com frequência, com assuntos que são mais comentados ou que “estão na moda”. Modismos à parte, é muito importante que, da infância à idade mais avançada, nossa capacidade resiliente seja estimulada. Minha intenção é falar um pouco sobre isso de modo a contribuir, especialmente, com professores, pais e todos aqueles que estão envolvidos com crianças, uma vez que desenvolver a resiliência significa criar possibilidades de uma vida com mais qualidade, equilíbrio e flexibilidade.

Resiliência é um conceito que veio das ciências físicas, referindo-se à capacidade de materiais voltarem à sua forma original quando cessa a pressão exercida sobre eles. Podemos visualizar essa ideia facilmente se pensarmos em um elástico que volta ao seu tamanho quando deixa de ser puxado ou em uma esponja que, se apertada, muda de aparência, mas quando a pressão da mão deixa de existir, ela retorna ao seu aspecto inicial.

Transferindo este conceito para as ciências humanas e sociais, a resiliência se expressa na capacidade de um indivíduo ou de um grupo enfrentar as adversidades de forma a superá-las. Isso não significa ser invulnerável, ou seja, passar pelo problema sem ser afetado, e sim de ser capaz de encontrar respostas positivas para as situações, mesmo com a existência de dor, angústia e de conflitos. Significa poder continuar a viver de forma participativa e produtiva; ser capaz de se reconstruir, de se comprometer com a vida, sem “entregar os pontos”. Ser capaz de “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” como apregoa uma conhecida canção popular.

A resiliência tem se mostrado muito importante nos estudos, nas teorias e pesquisas sobre desenvolvimento infantil e saúde mental, se mostra também como um novo caminho a ser percorrido na busca de crescimento pessoal e de integração social.

Cada pessoa tem sua forma própria de lidar com as dificuldades. Algumas “desmoronam” por muito pouco, outras “balançam”, mas conseguem se refazer; há ainda as que se desesperam ou se revoltam e, desnorteadas, não conseguem encontrar saídas. O importante é saber que a capacidade resiliente pode ser desenvolvida, que não é algo inato, isto é, não é algo com que já nascemos; que há momentos em que podemos estar mais fragilizados que em outros.

Estudiosos afirmam que quando o indivíduo consegue resistir a situações potencialmente desfavoráveis, ele pode neutralizar ou diminuir suas consequências negativas, inclusive vindo tais adversidades a contribuir para sua flexibilidade e o seu amadurecimento, aumentando sua capacidade resiliente.

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A brincadeira, a alegria e o apoio afetivo ajudam a criança a passar por momentos difíceis.

As crianças iniciam suas experiências em família e esta tem um papel fundamental de lhe trazer segurança, afeto e limites. Um ambiente familiar que proporcione tais aspectos à criança, facilita muito um contexto saudável e de apoio ao seu crescimento. Ao entrar na escola, surgem os amiguinhos, a linguagem se expande, as relações sociais na mesma faixa etária se ampliam. Os novos vínculos criados no ambiente escolar aumentam os fatores de resiliência na criança.

Cabe aos pais (ou responsáveis) estimular os processos de adaptação e de interação dos pequenos para melhorar o convívio com parentes, vizinhos, coleguinhas, professores e demais pessoas que participam da vida da criança. Daí, também, a importância de não se fazerem críticas na sua frente à escola, ao professor, etc para que aprendam a respeitá-los.

Quais as características do ser resiliente?

José Tavares, estudioso de resiliência e educação, aponta cinco características que considero fundamentais para serem trabalhadas desde a primeira infância: autoestima, criatividade, autonomia, flexibilidade e vínculos afetivos. A autoestima positiva permite a autoaceitação e o respeito a si mesmo e ao outro, ajuda a aceitar críticas e saber usá-las em favor próprio. A criatividade permite buscar formas diferenciadas de resolver ou fazer algo, de solucionar um problema, de encontrar um meio de expressar alguma coisa. Ter autonomia é ser capaz de buscar as próprias soluções considerando regras, valores, a perspectiva pessoal e a do outro. É ter competência para atuar no seu mundo. A flexibilidade é a capacidade que permite produzir mudanças no modo de agir ou reagir de acordo com o momento, buscar respostas alternativas para solucionar problemas, elaborar respostas mais adequadas para uma situação. Em sentido mais amplo, é poder se adaptar a novas circunstâncias, superar dificuldades ou obstáculos.

Os vínculos afetivos são um ponto crucial para o fortalecimento da capacidade resiliente, merecendo algumas observações. As relações familiares são os primeiros vínculos estabelecidos e que, hoje, assumem formas diferenciadas de constituição. A organização pai, mãe e filhos já não é necessariamente a apresentação mais comum. Podemos ter pai ou mãe com seus filhos, casais homossexuais em que há duas mães ou dois pais, famílias de novos casamentos que, ainda, podem unir filhos de casamentos diferentes, crianças criadas por avós, enfim, um grande mosaico de possibilidades. Outro ponto importante a considerar é que, atualmente, de modo geral, ambos os cônjuges precisam trabalhar, ficando a criança mais tempo sem a sua companhia. E são muitos os desdobramentos destas, muitas vezes, complicadas organizações.

Vínculos afetivos trazem segurança, aspecto essencial para o desenvolvimento saudável

Nesse contexto, é muito importante que a criança se sinta acolhida, amada, que tenha regras e autoridade dos responsáveis bem estabelecidas, limites claros no contexto familiar e uma rotina instituída. Estes pontos são fundamentais para que se sinta segura e saiba não só de seus direitos, mas também de seus deveres. Que não seja o reizinho ou a princesinha da casa que dita todas as leis, a criança que ganha tudo o que quer porque os pais se sentem culpados de não terem tempo ou energia suficiente para estabelecerem os limites necessários. Estas posturas não são provas de amor, nem estabelecem os vínculos necessários que gerem segurança, respeito e confiança. Estas posturas infantis se refletirão nas suas relações, tendendo a gerar muitos conflitos na escola e na sociedade.

Se a criança se habitua a respeitar regras em casa, a ter limites estabelecidos, ficará muito mais fácil atender às regras e limites necessários na escola e na sociedade, o que temos visto não ser muito fácil para algumas crianças e adolescentes.

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Liberdade protegida é uma forma de cuidar e estimular a autonomia

A aprendizagem do respeito aos limites e ao outro começa sempre com a própria vivência do ser respeitado quando se é criança, de esta criança ter seus limites físicos ou emocionais também considerados; e da compreensão de que as regras são construídas para uma melhor convivência, e não impostas aleatoriamente. Ou seja, instituir regras é tão importante quanto a forma de fazê-lo, estabelecendo e discutindo em conjunto tais regras.

Quem tem filhos sabe o quanto os auxiliares são importantes em determinadas situações, sejam eles pessoas que trabalham para a família ou amigos, vizinhos e parentes que nos tiram de situações difíceis e que podem trazer nossos filhos da escola, acolhê-los numa emergência ou, até mesmo, levá-los ao médico ou à festa do coleguinha. Entretanto, cabe aos pais manter o comando e os cuidados da educação de seus filhos, estabelecer regras e limites, mostrar de forma clara o que pode ou não ser feito, o que é uma forma de amor. Assim como acolher, ouvir, dialogar, compreender, acarinhar também o é.

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Contar histórias: uma forma de dar atenção, carinho e aprendizagem

O amor é um vínculo poderoso e acredito que seja fundamental para que possamos sair das situações difíceis com mais inteireza e maior facilidade. Ter apoio da família torna tudo mais fácil para a criança. Da mesma forma que poder contar com laços de amorosidade amiga e confiança ajuda também a nós, adultos, a superar muitas crises.

No próximo artigo, continuaremos este assunto, pensando possibilidades de estimular nossa capacidade resiliente através da arte. Se tiver alguma dúvida em relação ao que foi apresentado, se algo não ficou claro, se tiver sugestões ou quiser fazer comentários, entre em contato conosco através do espaço logo abaixo. Sua participação é sempre muito bem-vinda e significativa.

As fotos são de meu arquivo pessoal

Arte e educação emocional

No último artigo, analisei a importância da Arte para o desenvolvimento infantil, e vimos que, para que sejam atividades ricas e não castradoras, elas precisam dar espaço à expressão criativa, à sensibilidade, à intuição, à fantasia, à percepção da criança, à autonomia, não devendo ser utilizadas apenas para exercitar a coordenação motora, fazer cópias de modelos, ensinar cores, cantar para manter a ordem ou direcionar uma atividade, entre outras que não podem ser denominadas de atividades artísticas.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Artes (PCNs), encontramos um trecho que me parece muito significativo para reflexão: “O ser humano que não conhece a arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida”. Embora este documento apresente as diretrizes para o Ensino Fundamental, ou seja, para crianças a partir dos seis anos, é na Educação Infantil que a criança inicia suas experiências no campo das manifestações artísticas, essenciais para seu desenvolvimento integral – cognição, motricidade, afetividade, relações interpessoais e espiritualidade, seu potencial para se tornar uma pessoa melhor.

E que criança não é contagiada pela música e pela dança?  Pelos jogos teatrais em que podem dar vida a seus mundos imaginários, seja com o próprio corpo ou com fantoches? Para que mundos mágicos a leva uma história, uma pintura, um desenho ou uma escultura? São muitas as possibilidades de vivenciar a arte, seja na escola ou em outros espaços, incluindo o espaço de nossas casas.

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Em artigos anteriores – Expressão e organização das emoções na ponta dos lápis de cor e Conta outra vez?!Abrindo as portas de um mundo encantado… e encantador, analisei a importância do desenho para as crianças e das histórias infantis, por isso não me deterei nestas manifestações tão significativas  e especiais para nossos pequenos.  Vamos ver um pouco de outras formas expressivas.

A música

Ainda no ventre da mãe, os ritmos envolvem o bebê: os batimentos cardíacos da mãe, seus sons viscerais, o pulsar da placenta. Com o nascimento, ampliam-se as experimentações sonoras e rítmicas. As canções de ninar e o balanço do colo o envolvem em aconchego e proteção. A pulsação rítmica é algo que faz parte de sua vida, que lhe é familiar e natural.

O trabalho com a música na Educação Infantil deve valorizar múltiplas fontes sonoras: brinquedos e objetos do cotidiano (como sininhos, chocalhos, caixinhas e latinhas com grãos com sonoridades diferentes), que vão ajudando a criança a discriminar sons diversos. Também os instrumentos musicais são muito bem-vindos e desejáveis. Ainda com poucos meses, minha neta participava vivamente quando o pai tocava violão para ela. Dava gritinhos, agitava pernas e braços, sacudindo todo o corpo sem tirar os olhos dele. Eram momentos deliciosos de presenciar.

É muito importante enfatizar que o primeiro instrumento é o próprio corpo, grande fonte de produção sonora: a voz, sons diversos feitos com a boca, com as mãos, com os pés. Cantar e fazer movimentos são outra forma de expressão que agrada muito a criança e a ajuda a estimular sua coordenação motora, lateralidade e ritmo.

Atividades com a música ajudam a desenvolver na criança a percepção, a sensibilidade, a atenção, a imaginação, a curiosidade, a organização de ideias. Podemos brincar com o andamento da música (mais lento, um pouco mais rápido, acelerado), com o grave e o agudo, alto e baixo, sons de diferentes instrumentos (piano, violão, tambor, pandeiro, reco-reco, etc). E tudo se transforma em uma grande brincadeira. Por falar em brincadeira, relembro que as atividades artísticas para os pequenos são essencialmente lúdicas.

Vale enfatizar o poder da música sobre as crianças, inclusive sobre aquelas que têm necessidades especiais. A linguagem musical estimula o autoconhecimento e o equilíbrio, acalma e estimula, favorecendo, ainda, a interação. Tive a oportunidade de trabalhar com professoras da APAE e/ou que tinham turmas com alunos especiais que me contavam, muito animadas, resultados muito significativos quando utilizavam a música com seus pequenos após nossas aulas.

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A dança

A dança para a criança pequena pode ser compreendida como uma maneira de a criança explorar o seu potencial, expandindo suas possibilidades de deslocamento no espaço e de exploração deste espaço e do movimento. Possibilidades, também, de estabelecer relações com outras crianças, trabalhar o ritmo, o equilíbrio e a coordenação a partir de gestos, assim como expressar seus sentimentos. Ela tem a rica oportunidade de experimentar a si mesma, seus limites; de perceber-se e perceber o outro. É claro que ela tem essas possibilidades através de outros movimentos, entretanto, na dança, ela poderá usar seu corpo com expressividade e com a ajuda da música que abre novas possibilidades como vimos acima.

Jogos teatrais

Os jogos teatrais ou dramáticos são uma modalidade artística fundamental no processo de formação da criança, uma vez que fornecem bases para se trabalhar a criatividade, a socialização, a integração grupal, a imaginação, a flexibilidade, as emoções, o corpo, a memória. Importante não desvalorizar a espontaneidade lúdica e criativa tão característica da criança pequena, exigindo-lhe movimentos estereotipados ou rígidos. Deixe que improvisem, que se apropriem do “texto”, que fiquem descontraídas, que sua linguagem corporal possa fluir. Essas atividades as ajudam a ter noção de tempo, de sequência, de organização e de improvisação de histórias. Uma forma que funciona bem com os menores é ir contando uma história para que eles a “representem”.

Lembro que um de meus filhos, na festinha das mães, era um passarinho que, em vez de voar em volta da flor (uma amiguinha de quem gostava), talvez assustado, ficou parado juntinho dela. E a professora, provocando risos da assistência, brincou: “Um passarinho ficou cansado e parou para descansar”. Isso foi um ótimo exemplo de como precisamos ser flexíveis quando educamos crianças e de como nosso entusiasmo contagia, pois, depois do comentário, ele “voou” um pouquinho. Também vale observar que as representações não precisam ter assistência que não a própria turminha.

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As expressões plásticas (desenhos, pinturas, modelagem) e as outras formas de expressão artística estimulam o senso de si, o pertencimento da criança ao grupo, a autoestima, a autovalorização e a autoexpressão, aspectos essenciais para o desenvolvimento mais equilibrado de nossos pequenos. Vale enfatizar que todos nós temos potencial artístico e criativo, mas ele precisa ser desenvolvido, potencializado.

Arte e educação emocional – primeiras reflexões

Estas habilidades e qualidades que a criança desenvolve através das múltiplas expressões artísticas são também formas de trabalhar sua inteligência emocional. A inteligência emocional é definida por Daniel Goleman como a “capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos”. Quando falamos de educação emocional estamos nos referindo a desenvolver essa forma de inteligência. Falamos de desenvolver a inteligência intrapessoal (autoconhecimento) e a interpessoal (relações estabelecidas).

É ser capaz de reconhecer e lidar apropriadamente com emoções e sentimentos que surgem como a raiva e o medo com que a criança (e todos nós) se depara com frequência. E este é um ponto fundamental de compreensão: não se trata de não sentir raiva, ciúme ou frustração. Trata-se de saber lidar com emoções que nos assaltam. Pessoas que desenvolvem o equilíbrio, a solidariedade, o respeito pelo outro, a amorosidade, a empatia têm maiores chances de boas relações e de estarem bem consigo mesmas.

Vivemos um momento em que o descuido, o descaso, a insensibilidade se mostram de muitas formas e em várias áreas da sociedade. Corrupção, jogos de poder, interesses corporativos, educação solapada e saúde em crise. Próteses e cirurgias desnecessárias, remédios vencidos sem a distribuição aos que deles necessitam, escolas sem condições mínimas que favoreçam a aprendizagem. Formas dolorosas de violência contra os mais pobres e nas relações interpessoais. Desquilíbrio ecológico e destruição da natureza.

Leonardo Boff enfatiza: “Não há cuidado pela inteligência emocional, pelo imaginário e pelos anjos e demônios que o habitam. (…) Há um abandono da reverência, indispensável para cuidar da vida e de sua fragilidade”.

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Há falta de solidariedade, de respeito, de humanidade, o que nos caracteriza como seres humanos. E a arte nos possibilita a sensibilização e a empatia de que tanto se necessita, o respeito ao diferente, tanto pessoal quanto social. A arte nos torna mais humanos e educa nossas emoções. Precisamos de mais arte.

Grande abraço e até a próxima.

Seus comentários, observações e sugestões são sempre bem-vindos, deixe-os no espaço abaixo que responderei assim que possível.

As fotos foram retiradas da web.

Criança faz arte?

Inegavelmente, criança faz arte: não podemos tirar os olhos delas que já estão inventando alguma estripulia. Lembro-me de minha avó: “Onde se meteu essa menina? Deve estar aprontando alguma coisa…” E eu estava mesmo.

Mas não é deste tipo de arte que estou falando agora, falo das atividades artísticas, que são fundamentais para o desenvolvimento da criança, muito mais importantes do que comumente se considera. Infelizmente, já ouvi alguns pais dizerem se referindo ao material para os trabalhinhos de arte: “Só serve para fazer sujeira e aumentar o custo do material escolar!”. Este é um grande engano que precisamos corrigir, embora concorde que, muitas vezes, há exagero nos pedidos das listas. Mas isso é outra história.

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É claro que a relação que se estabelece entre a criança ou o adulto e a arte é diversa. João Francisco Duarte-Júnior, conhecido estudioso de Arte, observa que o ponto principal da diferença é que o adulto é capaz de fruir, ou seja, de apreciar o objeto da arte: uma composição musical, um balé, pinturas, esculturas, etc. Já para a criança, a arte se constitui em um fazer, em uma atividade que podemos qualificar como artística. Ela é importante por ser uma ação significativa e não por proporcionar-lhe uma experiência estética como ocorre com o adulto. Devemos considerar, assim, que o importante não é o produto, mas o processo criador da criança, a sua atividade expressiva.

Embora a relação da criança com a arte seja a de um fazer e não, ainda, a de criar de acordo com padrões estéticos, a atividade artística, como enfatiza Duarte Júnior, é um fator que não pode ser desconsiderado para que sua consciência estética se desenvolva. As atividades artísticas trazem para os pequenos a possibilidade de que se crie uma postura mais harmoniosa e equilibrada diante do mundo, integrando sentimentos, razão e imaginação, e exercitando sua habilidade de discriminar e fazer escolhas, sua capacidade crítica.

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Embora possamos elencar muitos ganhos obtidos pela criança ao vivenciar tais atividades como o estímulo à autoestima, à autonomia e à criatividade, um muito importante nos salta aos olhos: elas possibilitam a vivência lúdica, a entrega total a seu fazer. As atividades expressivas como as artísticas e as lúdicas contribuem para que se trabalhe a integralidade do ser, estimulando o intelecto, as emoções e a motricidade, além das relações com o meio e as pessoas. Elas trabalham a corporeidade de que já falamos muitas outras vezes.

Ao estimular a criança a desenhar, contar ou recontar uma história, manipular lápis de cor, giz de cera, pinceis, tinta guache e aquarela, incentivando-a a expressar suas emoções, estamos ajudando-a a se relacionar com o mundo a sua volta e a desenvolver a autocompreensão. Da mesma forma, propiciar-lhe situações em que possa perceber diferentes ritmos, cantar músicas variadas, apreciar imagens, ajudando-a a fazer sua leitura, perceber texturas e formas dos objetos é um modo de lhe oferecer recursos para a leitura de seu mundo.

Viktor Lowenfeld, estudioso de arte e psicologia, aponta o papel vital que a arte desempenha na educação infantil. Segundo enfatiza, ao fazer desenhos, pinturas ou outras formas de construção, a criança realiza um processo complexo, pois une elementos variados de sua experiência para dar vida a um significado novo de uma totalidade. A criança une o que viu, o que sentiu, o que pensou e dá uma forma muito própria a isso. Ela busca compreender e dar sentidos a sua existência. Daí, o estudioso observar que a criança, mais que uma pintura ou escultura, cria uma parte de si mesma, um modo de interpretar e compreender o mundo. Assim, fazer arte não é um simples passatempo, é uma forma de comunicação consigo mesma, é importante para ela, para seus processos cognitivos, perceptuais, emocionais, sociais e para seu desenvolvimento criativo.

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Como na brincadeira de faz de conta, de que falamos em artigos anteriores, a criança, através de manifestações artísticas, pode expressar dúvidas, construir e reconstruir ideias que povoam seu imaginário, dando-lhes formas, cores, movimentos, brincando com possibilidades, buscando respostas para suas dúvidas. É um modo de vivenciar através de formas expressivas que não a verbal aquilo que percebe ou sente, uma vez que ainda não tem o domínio necessário das palavras.

Para que a expressão infantil seja estimulada, é importante que as atividades oferecidas sejam ricas e não castradoras como oferecer à criança folhas xerocadas com desenhos prontos, estipular o movimento exato, o que fazer com a argila ou a massinha de modelar, estipular as cores, fazê-la copiar do quadro de giz um determinado desenho sem permitir-lhe qualquer forma de variação. A pura imitação acaba por lhe podar os impulsos criativos, a autonomia e até a autoestima, pois se vê incapaz de se autoexpressar e fazer escolhas.

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As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, documento publicado em 2010, apresentam os princípios que devem nortear a primeira etapa da educação em todo o país. Nestes se incluem os princípios estéticos: “da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais”. O documento ainda enfatiza que devem ser observadas: “A educação em sua integralidade, entendendo o cuidado como algo indissociável ao processo educativo; A indivisibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística, ética, estética e sociocultural da criança”.

Causa-me muita estranheza não haver a valorização por parte de algumas escolas de Educação Infantil dos aspectos lúdico e artístico, corporal e afetivo, e que focam seus esforços no desenvolvimento cognitivo, uma vez que a legislação é muito clara. E não apenas a legislação, mas também toda a literatura pedagógica disponível aos profissionais da Educação.

As atividades artísticas desenvolvem aspectos importantes do ser como pessoa e como ser social como a intuição, a sensibilidade, a empatia (capacidade de compreensão e identificação com sentimentos do outro), a imaginação, a capacidade crítica e o pensamento divergente, que é a capacidade de pensar de forma original, de resolver algo de forma criativa, de encontrar soluções diferentes para um mesmo problema, tendo maior flexibilidade em lidar com situações.

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Também podemos citar a capacidade de simbolizar, analisar, julgar e avaliar; de melhor expressar ideias e emoções.

Duarte-Júnior enfatiza que o sensível não se limita à formação educacional escolar da criança e do jovem, mas que se prolonga pela vida dos indivíduos uma vez que estamos em aprendizado permanente. E como precisamos de arte e de sensibilidade, como precisamos de humanidade!

No próximo texto, vamos analisar algumas das formas artísticas para as crianças e como a arte contribui para sua educação emocional.

Até lá e grande abraço

As imagens são da web.

Um ano novo de verdade

 

Um novo ano se inicia e os votos para que seja feliz se renovam.  Mas será que apenas os nossos desejos para que seja mais feliz ou haja mais paz, mais alegrias, mais sucessos e realizações são suficientes?  Qual a nossa responsabilidade nesse processo? E como educadores – sejamos pais, avós ou professores, o que nos cabe para que um novo ano seja melhor que o anterior? Acredito que vale tecer algumas reflexões neste início de ano para que nossos pequenos possam colher frutos mais doces não só neste período de 365 dias que se iniciou há pouco, mas em anos vindouros ao longo de suas vidas. E que também nós, adultos, possamos fazê-lo.

Temos presenciado altos níveis de desrespeito, corrupção, descuido com a Natureza, violência, preconceitos, descaso com o ser humano, e, sem dúvida, queremos um ano melhor. Mas muito de tudo isso tem origem com a falta de cuidado, de educação ou de valores cuja aprendizagem começa na família e continua na escola. Cabe-nos perguntar o que podemos fazer para diminuir tais efeitos. Talvez, na correria do nosso cotidiano, na necessidade de se trabalhar mais para ganhar o necessário, no cansaço do final de cada dia, alguns aspectos sejam negligenciados. Coisas, às vezes, pequenas mas significativas que exigem persistência e atenção dos responsáveis pelas crianças – futuros jovens e adultos.

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Talvez você pense: “mas é diferente!” Será mesmo? Enumero algumas cenas presenciadas por mim ao longo do ano que se despede. Cena 1: Um adulto adverte uma criança por ter tirado um pacotinho de biscoitos do seu carrinho do supermercado e abri-lo. A mãe finge não ouvir e continua suas compras – um grande desrespeito. Cena 2: Um menino acompanhado por seu pai arranca flores da jardineira de um prédio, as joga no chão e pisa. Cena 3: Outro, desta vez com a mãe, chuta um cachorro que passa despreocupado à sua frente. Nas últimas cenas, também, nada de advertências – descuido com a Natureza e violência. Cena 4: Na pracinha, em meio à brincadeira, uma menina negra tromba com uma menina branca. A avó corre gritando: “Onde esta neguinha pensa que está?” (Brincando na pracinha, é claro). Isso é preconceito e violência (como toda forma de preconceito). No caso das duas meninas, à primeira vista, nenhuma das duas se incomodou, iriam continuar a brincadeira sem problemas. Mas como a atitude da avó repercutiu em cada uma delas? De que forma isso continuará a reverberar?

Cena que se repete: Uma situação que todos nós, professores, já vivenciamos em algum momento é a sujeira na sala de aula.  E isso vai da educação infantil ao ensino superior, o que é um grande desrespeito aos colegas, aos funcionários da limpeza e a si mesmos. Afinal, quem quer passar horas de seu dia em um lugar cheio de papel de bala, restos de tiras de lápis apontados, papel amassado e carteiras rabiscadas? E no canto da sala sempre há uma lixeira. Toda vez que pedia para alguns de meus alunos limparem a sua área, ficava me perguntando: será que fazem isso em qualquer lugar?

Cenas que não param de acontecer: Ainda falando em lixo, é comum vermos embalagens sendo jogadas no chão das ruas e praças, nos córregos, arremessadas de carros, de janelas, potinhos de sorvetes deixados nos lugares mais inusitados como janelas de casas que dão para as calçadas, muito comuns em cidades menores. E quando vamos à praia ou vêm as inundações? Pode-se ver de tudo! Pobre Natureza! Coitado de nosso meio ambiente!

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Muitas vezes, atitudes que vivenciamos, especialmente com crianças mais velhas, adolescentes ou jovens, notadamente, não podem ser vistas como desrespeito, simplesmente, porque estes jovens indivíduos nem sempre têm noção de que há regras de convivência, pois não chegaram a aprendê-las. Na Universidade, ficava muito irritada ao chegar ao térreo, pois sempre havia um grupo que queria entrar no elevador antes que eu pudesse sair. Amarrava a cara, mas ninguém percebia e nada mudava. Aí passei a dizer com um sorriso: “Calma aí, gente, me deixem sair primeiro. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço!” Muitos daqueles com quem cruzava regularmente passaram a esperar minha saída e, até, a sorrir.

Com certeza, você teria outros casos para contar, assim como eu, que prefiro parar por aqui.

O primeiro ponto a enfatizar é que crianças aprendem o que vivem ou presenciam. Por isso é tão importante que as orientemos para que não façam como “todo mundo”, mas que façam o que deveria ser feito. Importante também lembrar que as transformações não virão em um passe de mágica, nem de uma mudança na legislação, mas que dependem de nós, de nossas ações, de nosso compromisso com elas. Nós somos os responsáveis pelas mudanças que desejamos. Como poetiza Carlos Drummond de Andrade em um trechinho de sua Receita de Ano Novo, 

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

Outro ponto a considerar é que ações correspondem a reações, e esta lei deve ser considerada quando educamos nossas crianças. Irritação gera irritação, mau humor afasta as pessoas, gentileza gera gentileza, sorrisos provocam novos sorrisos, amor, afeto e respeito nos aproximam do outro, … Vamos estimulá-las a serem delicadas, e se pode começar com o uso das famosas palavrinhas mágicas: obrigada, por favor, com licença, que, quando partem dos pequenos, sempre geram simpatia. Não precisamos gostar de alguém para sermos delicados, e esta aprendizagem nos ajuda na convivência onde quer que estejamos.

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Podemos criar ambientes mais saudáveis a nossa volta ensinando nossas crianças a se aceitarem em suas diferenças, a serem mais leves, mais generosas, a apreciarem o que possuem, a valorizar seus amiguinhos e aqueles que as amam; ensinando-as a respeitar os mais velhos, a serem gratas, a valorizarem o que têm ao invés de lamentarem por aquilo que não podem ter.

Ninguém é feliz o tempo todo, é importante ajudá-las a aceitar ou suportar o que lhes traz angústia ou tristeza, decepção ou medo até que tenham maturidade para fazê-lo sozinhas. Com nossa ajuda fica mais fácil. Nesse sentido, acolhamos seus sentimentos e os respeitemos (o que não significa aceitar as birras como já analisamos em artigos anteriores). Falar o que sentem as ajuda a se sentirem melhor e, muitas vezes, apenas nossa presença, atenção ou mesmo um abraço são suficientes para trazer-lhes conforto.

Em momentos de muito egoísmo como os que temos presenciado, procuremos ensinar-lhes solidariedade e empatia. Em meio a preconceitos e diferenças, ensinemos o respeito àqueles que pensam diferente, que são de outra raça ou seguem outros credos. Além de normas de convivência, também estamos falando de algo essencial: educação das emoções (inteligência emocional).

Younger sister offers comfort to her big sister after a fall.

Ofereçamos aos nossos pequenos o nosso tempo (e mais vale a qualidade que a quantidade), brinquemos com eles, deixemos que façam escolhas e tomem decisões apropriadas para sua idade, estimulando-lhes a autonomia.

Dessa forma, viverão um novo ano com maior autoestima, autoconfiança, com a segurança de que são amados, e, certamente, se sentirão mais felizes. E nós também, pois, o ano novo que cochila dentro de nós, como diz Drummond, vai poder, aos poucos, despertar.

Um ano realmente novo para você e para aqueles que fazem parte de sua vida.

Comentários, sugestões e perguntas são sempre bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo, assim que possível responderei.

Grande abraço e até a próxima postagem

Lucia Helena

Fotos retiradas da web.

Precisamos de mais leveza… de ludicidade

Fiquei observando uma criança e sua mãe que cortava o cabelo enquanto eu fazia as unhas, ouvindo com atenção a conversa que travavam, e o quanto a mãe embarcava na fantasia da menina que parecia ter uns cinco anos. A pequena contava experiências do faz de conta que tivera na escola, cujo uniforme ainda vestia, e perguntava à mãe que personagem ela gostaria de ser se estivesse lá: a fada, a bruxa ou a princesa. E a mãe se imaginava em cada situação antes de se decidir a escolher. A menina dava sugestões, batia palmas, fazia movimentos que caracterizavam o porte de princesa, a expressão carrancuda da bruxa má e a leveza da fada. Fiquei a imaginar que eu gostaria de ser a fada para ter tanta leveza, sem ter que me preocupar em cumprir tarefas de princesa como conquistar um príncipe, ou de pensar maldades e ficar com a cara enrugada, nariguda e com uma enorme verruga na ponta do nariz como a bruxa.

Fiquei também pensando, que a professora da menina devia ser um pouco fada pela forma pela qual a pequena se referia a ela. Pelo menos não devia carregar para a sala de aula os pesos com que todos nós temos que lidar, as dificuldades naturais do dia a dia. E dava às crianças a possibilidade de se expressarem com liberdade e alegria.

Coluna-no-Divã-1Vocês já pararam para pensar no quanto falta leveza à nossa volta? E o pior, no quanto também nós vamos jogando peso em nossos ombros e nos enredando nessa energia desordenada que nos cerca de preocupações, mau humor, irritação e impaciência? Se não nos damos conta disso, acabamos nos contaminando e refletindo isso. E como nossas crianças são sensíveis aos estados de humor que as cercam. É contagiante! Sentia isso na sala de aula quando trabalhava com crianças e, também, com meus filhos pequenos. Mãe ou professora nervosa, na certa, crianças agitadas.

Nossos corpos são recursos fundamentais nas relações humanas, incluindo, é claro, as educativas; interagimos todo o tempo, mesmo que não falemos, pois os corpos falam da tensão, do carinho, do cuidado, da irritação, da pressa e de muito, muito mais que estejamos experimentando. Pensar em um processo ensino-aprendizagem que se estabelece através dessa ligação corporal com o outro e com o mundo ludicamente é uma forma também de valorizar a linguagem corporal que é um elemento-chave para a criança, e que é por ela utilizada bem antes da linguagem verbal.

Não basta a maturação dos processos biológicos para que a criança desenvolva suasagenda-digital-escolar 3 potencialidades. São, especialmente, as trocas entre pessoas e meio ambiente que permitirão que isso aconteça. No processo de escolarização, os professores são grandes referências da criança e, como os pais, também responsáveis por seu desenvolvimento. E um dos meios para este desenvolvimento é trabalhar ludicamente a corporeidade, dando novos significados às vivências corporais, permitindo que a criança conheça mais seu próprio corpo, que descubra e possa ir expandindo possibilidades de dialogar com ele e com o mundo a partir da experimentação. Por exemplo, quando a criança se vê fada, princesa, rei ou bruxo, ela estará vivenciando o potencial expressivo de seu corpo. Ao dançar, estará descobrindo movimentos, trabalhando a coordenação motora e o ritmo. Ao representar, descobrindo possibilidades de  expressar o que sente e pensa. E com prazer! A forma mais eficaz de aprender é a que se origina da experiência, a que é sentida, aquela que vem de dentro para fora, que permite a compreensão de corpo inteiro. Esta aprendizagem não se esquece.

agenda-digital-escolar2A criança, especialmente na primeira infância, vive essas experiências brincando, ou seja, ludicamente. A brincadeira e outras atividades lúdicas como as atividades artísticas fazem parte da sua realidade e do seu cotidiano, através dela, a criança se encontra, tem uma maior percepção do seu corpo, da sua cultura, da sua relação com o que a cerca. E nesse momento, ela está inteira no aqui-agora, pensamentos, sentimentos e movimentos integrados, ou seja, vivendo sua corporeidade. Nas atividades ludoartísticas, a criança vê e constrói o mundo, expressando aquilo que, muitas vezes, tem dificuldade de colocar em palavras, ou que ainda não consegue fazer.

O lúdico possibilita descobertas e alternativas, institui relações entre realidade e fantasia, possibilita que se criem formas de trabalhar com essa realidade, que, muitas vezes, precisa ser elaborada pela criança pelas dificuldades que lhe traz. Possibilita que as dificuldades possam ser ultrapassadas, que novos conhecimentos sejam adquiridos e novos mundos sejam descobertos. As atividades lúdicas viabilizam o desenvolvimento da criatividade, da imaginação, do raciocínio, da motricidade, da expressão emocional e da liberdade de experimentar.

Um ponto que merece atenção dos educadores é deixar que as crianças sejam crianças de fato, que não sejam “adultizadas” antes do tempo, mantendo agendas cheias e correndo de um lado para o outro para cumprir horários. Como já enfatizei em texto anterior, precisam de tempo para viver a sua infância ludicamente, de tempo para brincar. O que não é perda de tempo, muito pelo contrário, é um tempo de grande desenvolvimento.

Aliás, nós, adultos, deveríamos alimentar nossa leveza e nossa ludicidade, uma vez que estasagenda-escolar-digital4 são significativas para a nossa vida se desejamos que tenha maior qualidade. Seriedade, no sentido de ser responsável, comprometido, não se opõe à alegria, à leveza, à ludicidade. A sisudez excessiva ou a casmurrice sim, pois nos rouba a possibilidade do sorriso, do bom humor, da descontração. É claro que nem sempre podemos imprimir leveza e alegria à nossa vida, temos fases difíceis e, outras vezes, temos dificuldade de fazê-lo. Mas acredito que, neste caso, deva ser um exercício como tantos outros como caminhar ou fazer academia. O que no início é mais difícil, depois se torna um hábito. E os resultados positivos de ir deixando alguns pesos pelo caminho nos ajudam a continuar. E nossos pequenos vão agradecer.

Já falamos disso em um artigo anterior, mas vale repetir: a ludicidade não implica necessariamente uma brincadeira ou um jogo, implica uma postura. Implica uma entrega ao momento, vivê-lo com inteireza. E o diálogo entre a mãe e a menina lá no início da nossa história é um ótimo exemplo disso.

Suas observações, comentários e sugestões são sempre muito bem-vindos. Deixe-os no espaço abaixo e responderei logo que possível.

Grande abraço e até o próximo encontro.

As imagens foram retiradas da web.

Brinquedos de menino e brinquedos de menina. É isso mesmo?

As questões de gênero têm tomado conta da mídia e mobilizado muita gente, gerando discussões, críticas negativas e aplausos. E até os brinquedos têm entrado na discussão, o que aqui não podemos desconsiderar devido a sua importância para o desenvolvimento dos nossos pequenos. Estes vêm sendo enquadrados como próprios para meninos ou meninas há muito mais tempo, não se trata de uma questão surgida agora, embora continue atual. Mas, afinal, brinquedos têm gênero,são coisas de menino ou de menina?

Se observarmos crianças na primeira infância brincando, veremos que elas não consideram se o brinquedo é “o certo” ou “o errado”. Elas brincam de tudo, o que define sua escolha é a curiosidade e o prazer, seja brincar de casinha com as panelinhas no fogão, de boneca, de médico, de vendedor, de motorista, de lutar espadas, de jogar bola, e tantas outras brincadeiras. Os brinquedos são simples objetos que ganham significados, movimentos e histórias que vão se construindo de acordo com a fantasia que vai recontando a vida.

Girl plays with toy cars

O importante é que as crianças possam vivenciar o mundo e que não se criem fronteiras entre o masculino e o feminino nas brincadeiras. Para os pequenos isso não faz qualquer diferença, a não ser quando já aprenderam com os adultos que afirmam: “Boneca é para meninas. Meninos jogam bola e brincam com carrinhos”.  Crianças não são preconceituosas, elas aprendem a sê-lo com os adultos que são seus grandes modelos e que lhes transmitem seus próprios estereótipos. Isso não acontece apenas com os brinquedos, mas também com as questões raciais, religiosas, e com demais aspectos da diversidade humana.

Categorizar brinquedos como de meninos ou de meninas é uma construção social que parte dos adultos em uma sociedade que delimitava (e ainda tenta delimitar) rigidamente as tarefas, cabendo às mulheres os cuidados da casa e dos filhos, e ao homem trabalhar e prover o sustento da família. Uma construção de adultos que aprenderam isso com seus pais, assim como estes também aprenderam com os seus anteriormente.  O mundo vem mudando, mas alguns conceitos persistem, na verdade, preconceitos.

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Muitos pais têm medo de que os filhos, mais à frente, sigam outra orientação sexual que não o sexo biológico. Lembro-me muito bem quando um de meus filhos, que tinha uns cinco anos na época, chegou à sala com a boneca da prima no colo e o avô criou um verdadeiro alvoroço e me disse: “Olha o que você está deixando este menino fazer!” Custei um pouco a entender a que, exatamente, ele se referia e foi difícil fazê-lo aceitar (e acho que não se convenceu) que brincar com a boneca não tinha o menor problema e que, provavelmente, no futuro, ele seria pai e que acalentar seus bebês e cuidar deles seria muito positivo para ele e sua família.

Os brinquedos não orientam a sexualidade da criança. Quando a criança se interessa por brinquedos com os quais não costuma ter contato, ela está apenas descobrindo algo novo, explorando o que a cerca, o que faz parte do seu desenvolvimento natural.  Como analisamos em uma de nossas postagens anteriores, as brincadeiras de faz de conta são essenciais para os pequenos, pois lhes permitem experimentar diferentes papéis e entender melhor o mundo a sua volta e a si mesmos. Podem ser pai, filho, professora, médica, bruxa, príncipe, monstro, super-herói, aviador, motorista, entre outros. Através da brincadeira, eles trabalham, ainda, questões emocionais de forma lúdica como o medo de ir ao dentista, a briga com a mãe, a bronca da professora. Enfim, temores, dúvidas e angústias podem ser olhados sob um novo ângulo, sem “riscos”, permitindo-lhes compreendê-los e “metabolizá- los”. Podemos afirmar que a fantasia é uma forma ímpar de trabalhar as emoções e a criatividade.

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Os valores culturais definem nosso comportamento. A escolha de brinquedos, assim como de cores (azul para meninos e rosa para meninas), profissões, modos de se comportar e, até mesmo de sentir, passam por questões culturais. A famosa frase “Homem não chora” é um bom exemplo do sentimento controlado por esses valores. Meninos choram sim e homens também. Pior é quando não conseguem expressar a dor, a frustração, a angústia e as engolem, causando um grande mal a si mesmos. Para termos clareza de como estas normas estão presentes no cotidiano, basta observar o caso das mulheres do Afeganistão e do Paquistão que são obrigadas a se esconder sob burcas ou dos homens tupis que se recolhem à rede para o resguardo após o parto de suas mulheres. Até o início do século passado, mulheres não votavam e nem iam muito longe nos estudos, se preparavam para casar. É muito interessante perceber as características de momentos históricos diversos e de culturas diferentes. Os processos de mudança são sempre lentos e, invariavelmente, sofrem pressões de um lado e exigem resistência do outro.

agenda-digital-escolar6É importante não perder de vista que valores de gênero estereotipados podem ser danosos ao desenvolvimento infantil durante a formação da personalidade da criança. Cabe aos pais e professores orientar nossas crianças sem sombra de dúvida, mas isso não significa podar-lhes experiências e escolhas significativas para o desenvolvimento de sua autonomia. Meninos e meninas criados com tratamentos diferentes acabam por gerar um aprisionamento a papéis que “deverão” assumir, impedindo que se abram para uma visão que novos tempos nos trazem. Quantos pais dividem com as mães a tarefa de trabalhar fora de casa e de cuidar diretamente da educação das crianças? É justo que somente mulheres desenvolvam tarefas domésticas? Quantos rapazes vivem em repúblicas estudantis e fazem seu próprio almoço e lavam suas roupas? Diante de uma nova configuração social em que os papéis de homens e mulheres se redefinem, mais ainda se torna importante que todas as crianças brinquem de casinha e de cientista, de astronauta e de construtor entre outras opções. Assim, brincando, elas se preparam para uma vida adulta mais saudável, desconsiderando preconceitos e construindo possibilidade de relações mais equilibradas.

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Meninos e meninas que compartilham suas brincadeiras abrem espaço para o aprendizado de habilidades significativas e necessárias como a solidariedade, o cuidado, a generosidade, a amizade, a organização, a empatia entre muitas outras. Vale enfatizar que tais habilidades podem tornar o mundo melhor sem tanta competitividade e egoísmo; podem gerar uma aprendizagem com o outro.  Poder escolher como brincar é aprender a fazer escolhas de vida, de não se prender a ideias limitantes, de poder ter experiências diferentes. É estar aberto a outras possibilidades, não se atendo a ocupar espaços predeterminados.

As fotos foram retiradas da web.

Suas sugestões, perguntas e comentários são muito bem vindos, deixe-os no espaço abaixo.

Grande abraço e até a próxima.

A quem cabe estabelecer limites: a pais ou professores?

As crianças já deveriam vir educadas de casa, dizem muitos professores. E, infelizmente, temos percebido que há pais que delegam à escola tarefas que lhes cabem. Mas como lidar com a falta de limites de crianças que chegam à escola achando que podem tudo? Como vimos no texto anterior, a família é o primeiro núcleo com o qual a criança convive e onde inicia o seu processo de formação, o  que implica por parte dos familiares responsáveis estabelecer limites e dizer não ao que é indevido, mesmo frustrando muitas vontades infantis. Equilibrar permissividade, rigor, afeto e autoridade pode ser um grande desafio. E este desafio não é apenas da família, mas também da escola.

Uma das características da instituição escolar é ser um grupo social que, diferentemente da família, que pode ser bem pequena e ter apenas um membro além da criança, agrega muitas diferenças. A escola oportuniza um rico espaço-tempo coletivo de aprendizagem, de reflexão, de autodescoberta e descoberta do outro, em que as questões de respeito ao diferente, de cooperação e de solidariedade, de que tanto precisamos nos dias atuais, podem ser trabalhadas de forma mais intensa. E impor limites é responsabilidade também dos professores que a dividem com os pais e com a sociedade. Embora nosso texto se volte para a educação infantil, vale enfatizar que essa responsabilidade cabe a todos nós, professores, seja qual for o nível de escolarização de nossos alunos.223-choro2

Um primeiro ponto que me parece importante enfatizar é que devemos ter consciência da importância dessa colocação de limites, assim como das nossas atitudes e do respeito a nossos alunos em relação a isso, nos nutrindo de amorosidade, respeito, compreensão e firmeza, mas não de rigidez ou de autoritarismo. Paulo Freire, em sua Pedagogia da Autonomia, faz afirmações que sempre guiaram minha prática pedagógica nos diversos níveis de ensino. Segundo ele, ensinar é estar aberto ao querer bem aos alunos e à própria prática educativa.

É fundamental que pais e professores entendam que respeitar regras tanto em casa como na sala de aula é uma necessidade para o crescimento dos pequenos; que é um ato de amor e de cuidado. Seja em casa ou na escola, as crianças precisam, desde a mais tenra idade, manter rotinas, ter regras e hábitos estabelecidos. Mesmo os mais pequeninos vão aprendendo a fazer manha se não têm o que desejam ou se querem chamar nossa atenção. Daí surgem as reações intempestivas como chutes, gritos, mordidas ou uma modalidade muito utilizada: o arremesso de objetos.

Cabe a nós, adultos, pais ou professores, manter a calma e a firmeza, mostrando-lhes com falas simples e muito objetivas, que tais atitudes são impróprias e não vão funcionar, o que pode ser bem difícil muitas vezes. Mas o que é dito, precisa ser mantido. Ameaçar e não cumprir a ameaça o tornará alguém desacreditado. Se não for capaz de ir até o fim, não ameace. Para os professores isso pode ser ainda mais difícil pelo receio de desagradar à direção da escola ou aos pais.foto-centro-de-educacao-infantil---espaco-aberto-20032014214916

Fundamental manter uma relação de diálogo e confiança entre escola e família. E os pais devem ter cuidado com críticas à escola ou à professora na presença das crianças, o que pode gerar insegurança nos pequenos ou desafios à sua autoridade. Se tiver dúvidas ou desagrados, converse com a própria professora ou com a coordenação pedagógica. E lembre-se de que crianças nem sempre dizem a verdade,  e que elas sabem “jogar” quando lhes interessa um álibi: “a minha professora deixa eu brincar com água e pintar a parede” . E pode ser que deixe mesmo, mas em outro contexto, como no pátio em uma parede de azulejos.

Não podemos fazer de conta que não vemos determinadas atitudes que precisam ser coibidas; que não nos damos conta de transgressões de normas básicas. Estas são questões que precisam ser discutidas na escola. Como diz a sabedoria popular: a união faz a força, e estas são questões que merecem ser trabalhadas em conjunto. Violências físicas (como não deixar a criança merendar, sacudi-la, fechá-la sozinha em uma sala) ou psicológica (como fazê-la passar por humilhações; ter atitudes ou palavras depreciativas para com a criança) são absolutamente inaceitáveis em uma instituição que visa à formação dos pequenos e à criação de hábitos e atitudes.

crianca sem limitesO que a falta de limites pode gerar?

É importante que haja uma comunicação permanente entre escola e família. Acredito que seja importante também utilizar alguns teóricos da educação e pequenos textos que orientem nossas atitudes em sala de aula e sirvam de base às trocas com os familiares. Provavelmente, muitos responsáveis pela criança não têm a percepção do mal que fazemos aos nossos pequenos quando não estabelecemos limites apropriados.  Como já havíamos enunciado no texto anterior, muitos são os prejuízos na formação da criança. Vale enfatizar alguns dos mais graves: dificuldade de concentração, atenção e de persistência; irritabilidade e instabilidade emocional; falta de interesse pelos estudos; dificuldade de suportar frustrações, contrariedades e percalços; dificuldade de respeitar outras pessoas, sejam pais, professores, familiares, colegas, amigos e autoridades.

Tais consequências, certamente, dificultarão muito a vida do adolescente que ainda vai se deparar com a profusão de hormônios a partir da puberdade e do adulto em que se transformará. Tal adulto poderá vir a se considerar como o detentor de todos os direitos, mas sem os deveres que cabem a todos nós. Nesse sentido, é fundamental que a criança seja respeitada e que os nãos que receber sejam justificados. Não podemos esquecer que as crianças aprendem por imitação e que violência gera mais violência, o que existe de sobra no nosso momento.

Como agir na sala de aula?images

Os famosos combinados são uma boa forma de criar as regras de comportamento em sala de aula, sendo estas resolvidas em conjunto, mesmo que direcionadas pelo professor.  A partir dos três anos, a criança já apresenta um entendimento que lhe permite dar contribuições. O que pode e o que não pode? Por quê? Tais normas não são impostas de maneira aleatória, têm um porquê,  e podem se transformar em uma “brincadeira”, que como outras possuem suas regras. Como afirma Vygotsky, as brincadeiras apresentam muitas regras e são uma forma livre e ético-educativa. O autor também enfatiza o valor da brincadeira para a educação de sentimentos e emoções, pois as regras estabelecidas exigem que a criança aprenda a lidar com o que sente, a se comportar de acordo com as regras, a aguardar sua vez, a repartir, a perceber que outros também estão compartilhando aquele momento. O papel do professor é fundamental, ele é um mediador, um elemento que dialoga, sugere, acompanha, orienta, mas que também dá autonomia a seus alunos.

Os combinados são anotados pela professora e são relembrados sempre que necessário. O espaço escolar ganha um pequeno código que não precisa conter apenas o que não pode, mas também o que é desejável como dar bom dia ou boa tarde quando se chega, dizer obrigada quando se recebe um favor, com licença e por favor, entre outros.  Bater, morder ou chutar o coleguinha ou nele cuspir não pode. Pegar algo do amiguinho sem permissão também não, embora seja possível negociar, trocar o brinquedo ou o giz de cera. Outras normas visam à segurança dos pequenos como não sair sozinho pela escola nem entrar na cozinha ou no estacionamento.

Uma dica importante, que vale para todos os níveis de ensino: se a criança insiste em descumprir as regras ou está atrapalhando as atividades, converse com ela longe dos coleguinhas. Por que você está gritando tanto? Por que não quer brincar com seus amiguinhos? Por que não quer guardar os brinquedos ou os joga longe? Isso pode lhe dar algumas respostas, e evita que a criança queira aparecer e ganhe força com a presença do grupo. Você pode nomeá-la sua ajudante e lhe dar tarefas, o que pode ajudar a diminuir sua agitação ou ter atenção, se este for o caso: ajudar a prender trabalhos no mural, recolher os lápis de cor, guardar seu material no armário…

Relembrando uma temática trazida em alguns textos anteriores, muito da agitação e da dificuldade corpo-e-movimento-infantil-01de a criança cumprir regras se deve a um excesso de energia que ela não tem como descarregar ou equilibrar. É importante que, principalmente, a criança da educação infantil tenha, na escola, um espaço-tempo para canalizar sua necessidade de movimento seja no parquinho ou em atividades corporais expressivas como através da dança e em movimentos orientados ou livres. Fazer ponta nos lápis a toda hora, pedir para beber água e ir ao banheiro repetidas vezes, ou andar pela sala a todo momento pode ser resultado dessa necessidade de se mover que a criança pequena ainda não consegue controlar por muito tempo. E não podemos esquecer que se um faz, outros também querem fazer.

Este assunto não se esgota em um pequeno texto, mas, mais adiante, retomaremos algumas questões que merecem ser bem entendidas como a diferença entre autoridade e autoritarismo e a brincadeira como forma de internalizar regras e de aprender a respeitá-las.

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Grande abraço e até o próximo

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Limites e a formação da criança

Estabelecer limites é imprescindível para a formação da criança, é uma forma de proteção e de preparação para a vida. Trata-se de ensinar aos nossos pequenos o que é ou não permitido, quais são ou não os comportamentos aceitáveis, o que, nem sempre, é uma tarefa fácil. Cada idade exige limites adequados e estes precisam ser enunciados com firmeza e olhando a criança nos olhos, colocando-se na sua altura: “não pode puxar a toalha da mesa, celular não é brinquedo, brincadeiras com água só no banho ou na varanda,  …”.

agressividade-crianca-1383583892277_1920x1280Além de proteger a criança de acidentes como não deixá-la puxar a toalha posta para o jantar ou brincar com objetos cortantes e tomadas, é importante protegê-la de si mesma quando os sentimentos são intensos e difíceis para ela controlar sozinha. Por exemplo, com muita raiva, porque não a deixam brincar com o celular, lança longe o primeiro objeto que encontra e o quebra, ou se joga no chão gritando. Devemos reconhecer sua raiva (isso é importante), mas deixar claro que é inadmissível tal atitude: “Sei que está muito zangada, mas não vou permitir que faça isso!”.

Um aspecto que precisa ser considerado são as mudanças que estão ocorrendo nas últimas décadas que exigem que os pais fiquem mais tempo longe de seus filhos devido às demandas profissionais, acadêmicas e/ou financeiras. Muitas crianças frequentam a escola em tempo integral ou são cuidadas por avós, outros parentes ou, ainda, por babás. Isso pode gerar o sentimento de culpa nos pais que buscam compensar o tempo de afastamento, exagerando, muitas vezes, nos presentes, no atendimento às vontades da criança, e deixando de impor os limites necessários. As crianças acabam por se transformar nos reis e rainhas da casa, ou melhor, em “tiranos” que ditam as ordens. Tais atitudes acarretam a perda de autoridade dos pais, e extrapolam o núcleo familiar, atingindo a escola, e geram muita dificuldade em se manter o controle das situações.

Colocar limites e estabelecer regras para a criança é uma tarefa demorada, exige persistência e atenção dos educadores. Exige que aprendam a distinguir a manha, os caprichos e artimanhas infantis das dificuldades ou necessidades dos pequenos. Mesmo que reclame e sinta raiva, a criança é capaz de entender que seus pais se preocupam com ela e com seu bem estar, o que lhe traz segurança e a faz sentir-se cuidada e protegida.

Crianças, mesmo as bem pequenas, podem ser muito ardilosas e desafiadoras. Há pouco tempo, na hora da refeição, minha nora disse a meu neto que ele não poderia tomar mais suco até acabar de comer. Desafiadoramente, ele pegou o copo e foi para baixo da mesa, olhando para mim e para a mãe, fazendo questão de mostrar que estava nos testando.

Podem também usar o recurso da sedução, da simpatia. Minha sobrinha, quando tinha cerca de cinco anos e vinha à nossa casa, ficava encantada com meus livros infantis, material que utilizava nas minhas aulas da faculdade e queria levá-los para sua casa. Ela se aproximava, me beijava, abraçava e disparava seu discurso habitual: “Tia Lucinha, você está tão bonita! Amo muito você … me dá seus livrinhos de história?”

tuyet-chieu-do-tre-qua-con-tuc-gian-ma-khong-can-ipadCrianças que não recebem limites têm muita dificuldade de viver em grupo, de aceitar as normas de boa convivência, imprescindíveis na vida familiar, estudantil e, futuramente, profissional. São estas normas que asseguram direitos e deveres de todos os envolvidos, assim como a capacidade de respeitarem e serem respeitados. Imagine alguém que quer sempre que suas vontades e ideias prevaleçam, o famoso “dono da verdade”. Esta criança (futuro jovem e adulto) terá dificuldade em ser aceita em um grupo, em estabelecer vínculos afetivos significativos e duradouros, o que pode trazer danos emocionais profundos e sofrimento gerados pelo isolamento.

Convivi com uma pessoa com tais características. Não aceitava as regras, mexia céus e terras para conseguir o que queria, usava de sedução e artimanhas, desrespeitava opiniões e avisos, impunha sua vontade. Dizia o que queria (e, claro, ouvia o que não queria também), enfim, não tinha limites. Todos se afastavam dela, apesar de suas tentativas de se aproximar, pois a convivência era muito incômoda e tensa. Ela sofria com isso, mas não conseguia ver que ela era a responsável, e que não era apenas uma implicância dos outros, coisa em que, realmente, acreditava.

Frustrações fazem parte da existência, não há como evitá-las: um carro ou a casa almejada que não podemos ter, uma viagem que fica no desejo num ano difícil, um concurso em que somos excluídos, um texto não aceito para publicação, um emprego perdido, um namoro bruscamente terminado…  São muitos os nãos que recebemos nas mais diversas situações e com os quais precisamos aprender a lidar para não nos tornarmos pessoas amargas e que desistem de buscar seus intentos e construir sua própria vida. E esta aprendizagem tem início na infância, quando a criança aprende que não pode ter tudo o que quer, nem fazer tudo que deseja. Que algumas coisas são possíveis, mas outras não, que há valores a serem respeitados.

Cabe a nós, educadores, mostrar à criança que todos temos limites a serem considerados, que o mundo não gira a nosso redor, ensinar-lhe a superar frustrações, com a clareza de que a estamos preparando para se tornarem adultos mais equilibrados e maduros. Colocar limites não é bater, gritar ou impor castigos de forma autoritária sem explicações. O importante é que isso seja feito com firmeza e amor, que seja expresso com clareza e coerência, em linguagem compreensível para a idade da criança, mostrando-lhe o que é possível ou não e o porquê, apontando implicações dos seus atos. Vale ressaltar que violência ou severidade excessiva em palavras ou atos pode prejudicar em vez de solucionar problemas.Dampak-Buruk-Anak-Sering-Dimarahi

A psicóloga Tânia Zagury, em seu livro Limites sem trauma, atenta para o quadro que pode se desenvolver com a falta de limites: dificuldade progressiva em aceitá-los, distúrbios comportamentais, descontrole emocional, ataques de raiva, desrespeito a pais, colegas, professores e outras figuras de autoridade, incapacidade de concentração e de concluir tarefas, agressões físicas quando surgem contrariedades.

Fico muito incomodada quando vejo crianças chutando ou xingando os pais, tendo acessos de raiva, se jogando no chão, ou dando gritos e ouço os responsáveis dizendo: “ele é rabugento, ela é temperamental, está irritado, cansado, entendiado,…”. Isso não pode ser considerado algo aceitável e corriqueiro, e sim algo a ser trabalhado e olhado com atenção. Claramente há necessidade de limites.autoritarismo

A falta de limites não permite que a criança tenha clareza do seu espaço e do espaço do outro, e que os respeite. Isso gera egoísmo, atitudes egocêntricas, isto é, um indivíduo que só consegue “olhar para o próprio umbigo” como bem expressa o ditado popular. A firmeza dos educadores na contenção de condutas inadequadas se somará ao aumento progressivo da maturidade e da capacidade de autocontrole da criança, resultando em uma gradual mudança das atitudes impulsivas e inaceitáveis em condutas apropriadas. Colocar limites, afirma Zagury, também é fazer a criança compreender que seus direitos acabam onde começam os do outro. Dar limites é respeitar a criança e promover a sua autoestima e autonomia.

Conhecer as fases de desenvolvimento da criança nos ajuda a melhor compreender nossos pequenos e suas atitudes, de forma a podermos estabelecer os limites com mais segurança. Mais que ensinar regras de convivência, os limites são fundamentais para a saúde mental e emocional da criança (futuro adolescente e adulto). É, ainda, uma forma de ajudar esses seres em formação a respeitarem, ao longo de suas vidas, os próprios limites e os do outro, a saberem dizer não quando necessário, o que, com certeza, lhes trará maior qualidade de vida e relações mais saudáveis.

No próximo texto, vamos refletir sobre a questão dos limites na escola, onde, muitas vezes, a criança chega sem tê-los recebido em casa, gerando problemas delicados para os professores.

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