Frustração: é mesmo necessária?

 

Este mês, iniciamos uma sequência de textos que nos ajudarão a entender melhor a relação da criança com seu corpo e o movimento, com seu fluxo de energia vital, com seu processo de autorregulação, e aspectos pontuais para a construção da sua personalidade.  Vamos entender um pouco mais sobre como a criança pode estabelecer relações mais equilibradas consigo, com a família, a escola e outros grupos com os quais conviva.

Contrariamente ao que muitos acreditam, não é apenas a mente que assimila conhecimentos. Afetividade, motricidade e cognição estão permanentemente envolvidas na aprendizagem. As tendências naturais para o movimento e para sua expressão são, desde os primeiros anos, prejudicadas pela prioridade dada à formação intelectual em detrimento do desenvolvimento corporal. E assim, não há uma harmonização entre inteligência, sensações e necessidades básicas, criando-se uma desordem psicossomática que se manifesta cada vez com maior frequência e que pode se traduzir por tensões, tiques, perturbações respiratórias, dificuldades de aprendizagem, perda da espontaneidade e ansiedade.

Para maior compreensão do significado da visão da totalidade corpo-mente na educação da criança, vale conhecer um pouquinho da teoria de Wilhelm Reich e suas contribuições no campo da educação e para a Bioexpressão, uma proposta psicomotora e pedagógica com foco na visão integrativa do ser humano.

A teoria reichiana e a educação da criança

Wilhelm Reich foi um dos primeiros a sistematizar a relação entre o corpo e o psiquismo em inícios do século passado. Postulou a unidade funcional entre o psíquico e o somático, concluindo que a mesma energia alimenta estes dois aspectos, gerando a relação e a mútua influência entre atitudes corporais e atitudes psíquicas. Corpo e mente são uma totalidade e interagem todo o tempo. Quando se trabalha o corpo, se trabalha o ser como um todo.

Segundo Reich, apesar de todo anseio natural pela liberdade e pela vivacidade, as crianças contêm seus impulsos quando não há um ambiente natural propício ao desenvolvimento de sua vitalidade sadia. Muitas vezes, a criança sofre pressões para assumir atitudes que contrariam necessidades essenciais que acabam por fazê-la assumir uma atitude rígida e não-natural. Por exemplo: uma criança muda de posição inúmeras vezes ao realizar uma atividade; inclina o corpo, o movimenta de acordo com o que realiza com as mãos, se alonga, se dobra, senta sobre os pés, se levanta; se agita mais quando está alegre ou narra uma aventura, enfim, pensa, sente e age com todo o corpo. Como exigir que fique sentado imóvel durante muito tempo na escola? Isso contraria uma dessas necessidades básicas: o movimento. Vale destacar que o tempo excessivo diante das telas da TV, do celular, tablet ou computador, embora atraiam muito a criança, também trazem malefícios ao desenvolvimento corporal, uma vez que ficam “hipnotizadas” pelas imagens, imóveis, deixando de desenvolver relações espaciais mais equilibradas.

Quando o educador despreza potencialidades infantis, vendo suas necessidades de contato, movimento e brincadeira, apenas como fonte de transgressão ou impedimentos para a aprendizagem, corre-se o risco de realmente se queimarem etapas do desenvolvimento da criança, impedindo-as de desfrutarem a infância em sua plenitude. Para a criança da educação infantil e séries iniciais torna-se evidente a necessidade do trabalho intelectual conectado ao trabalho motor, lúdico e expressivo para que a criança atinja patamares mais elevados no processo de aprendizagem.

As couraças musculares e de caráter

Pais e professores atuam sobre a criança desde os primeiros anos da infância contribuindo, mesmo que sem intenção, para o seu encouraçamento, através da exigência de um aprendizado do autocontrole que vai além do apropriado para a criança: “Uma criança boazinha senta-se quieta”; “Ficar com raiva da mãe é pecado”; “Homem não chora”; “Coma mesmo sem gostar”; “Engula o choro!”, “Não pode se sujar!”. Como analisa Reich, frases como estas, que bem caracterizam um viés da educação, são, de início, rejeitadas pelas crianças; aos poucos vão sendo relutantemente aceitas, assimiladas e, por fim, exercitadas.  Já ouvi narrativas de estagiárias sobre professoras que serviam pratos muito cheios para alunos e os obrigavam a comer tudo, a comida se misturando às lágrimas. Também de professoras que não aceitavam a criatividade e curiosidade tão naturais da criança, obrigando-as a copiar modelos ou calar perguntas (Felizmente, isso não era a regra; havia situações muito positivas).

A criança tem a “espinha da alma” dobrada, diz Reich; suas vontades não são consideradas, a vida interior e os sonhos são abafados, a espontaneidade contida, a expressão amordaçada. E a criatividade também. Chega um momento em que algumas crenças sem fundamento são assumidas e a criança que se tornou adulto repete para seu filho: “Homem não chora!”. E em momentos de intensa dor não consegue sentir o alívio da dor através das lágrimas devido às couraças criadas.

As couraças musculares, marcas que se gravam no corpo, foram assim denominadas por Reich por representarem um mecanismo de defesa, um escudo de proteção, que surge da necessidade de o ser humano suportar os golpes recebidos ao longo da vida, desde a infância. São um enrijecimento crônico dos músculos que, para proteger o indivíduo de experiências traumatizantes e que podem provocar desequilíbrios, bloqueiam a energia corporal, contendo as emoções. As emoções fortemente sentidas e mal trabalhadas geram tensões que se registram em alguma parte do corpo, bloqueando o fluxo normal das emoções. Os bloqueios criados fazem com que a pessoa tenha dificuldade (ou impossibilidade) de expressar sentimentos comuns como raiva, medo ou prazer. As couraças musculares impedem as crianças (e os futuros adultos) de sentirem seu corpo, de o respeitarem e de aprenderem a ouvi-lo, pois são criados padrões automáticos e inconscientes de resposta.

Não se trata, de forma alguma, de a criança deixar de ser orientada e corrigida, de ter limites impostos, isso faz parte do processo de educar que pais e professores têm a seu cargo, trata-se de ser necessário que suas dificuldades e especificidades, ou seja, de que sua forma de ser e necessidades sejam respeitadas. Uns são mais lentos, outros mais rápidos, há os extrovertidos e os introvertidos, os mais sensíveis ou menos, os mais quietos e os mais agitados, enfim, cada criança tem sua individualidade, sua forma de sentir, de pensar e de agir.

É importante que os sentimentos da criança sejam reconhecidos; que ela seja estimulada a vencer desafios e superar dificuldades, mas sem críticas e castigos duros se ainda não conseguiu chegar lá; elogios pontuais são sempre bem vindos, e os erros podem ser mostrados com amorosidade. E, também, dar-lhes autonomia de escolhas sempre que possível e quando não prejudicar a disciplina necessária. É claro que não podemos deixar que tenha atitudes como fazer birra, se não tem um desejo atendido, pois, lidar com a frustração faz parte do crescimento, mas podemos sim admitir que ela tem o direito de ficar zangada e de dizer ou demonstrar isso, mas não podemos permitir que morda a coleguinha ou chute a professora, que jogue objetos ou grite descontroladamente. As emoções precisam ser trabalhadas e educadas também.

O que basicamente diferencia a criança saudável daquela que apresenta bloqueios energéticos, isto é, os encouraçamentos, é a forma como lidam com as situações; a criança saudável, ao enfrentar circunstâncias difíceis, sai sem maiores danos da condição problemática, ao passo que a que já apresenta encouraçamentos permanece na situação patológica. Problemas e bloqueios vão sempre existir, entretanto, pais e educadores podem contribuir para minimizá-los, para evitar que se cronifiquem e para que as crianças aprendam a lidar com suas emoções.

Outro ponto a considerar, é que tentando evitar a dor das emoções indesejáveis ou insuportáveis, nos fechamos na insensibilidade, nos fechando, também, para sentimentos prazerosos, para o afeto; acabamos por nos fechar ao outro e à própria vida. O isolamento cria novos hábitos, imperceptivelmente, a espontaneidade e a receptividade vão-se perdendo aos poucos e cada vez se torna mais árduo ultrapassar as barreiras criadas, fazer “contato”. O diálogo vai-se tornando cada vez mais difícil.

Para Reich, a frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência.

Entretanto, quando o ambiente escolar e/ou familiar é cercado por uma atmosfera de frustração constante, forma-se na criança um caráter inibido e sem autonomia, o que é prejudicial para seu desenvolvimento. Entretanto, se o educador não tem autoridade, assumindo uma atitude muito permissiva, criam-se crianças sem limites. E todos nós sabemos da importância de estabelecer limites para a vida social, familiar e escolar. Relações interpessoais saudáveis exigem que existam normas de convivência.

De acordo com Reich, uma prática educativa saudável seria aquela em que o professor e/ou os pais colocam limites, algumas regras, que até podem causar descontentamentos, mas que ajudam no desenvolvimento infantil, sem, no entanto, causar inibição através de repressões, críticas e censuras excessivas, o que gera o encouraçamento. Educar com amor e autoridade ao mesmo tempo seria a medida ideal para a formação do educando.

Hoje, ficamos por aqui. No próximo artigo, vamos pensar possibilidades para evitar que as couraças se cronifiquem e analisar alguns pontos que aproximam Wallon, um dos grandes estudiosos da criança, da teoria reichiana.

Dúvidas, sugestões ou comentários? Deixe seu recadinho que responderei logo que possível.

Grande abraço e até lá

Música, sensibilização e aprendizagem

 

Uma das funções do ritmo em nós é a integração das diversas partes

do nosso organismo e a sua harmonização com os ritmos exteriores:

(…) O ritmo é o equilíbrio (…) que sustenta nossas emoções;

é a base de todo movimento humano no espaço, incluindo a música.

Carlos Fregtman

 

Como enfatizei na última postagem, a música é uma linguagem tão valiosa quanto a linguagem verbal (conceitual). Seu poder terapêutico, artístico e pedagógico é ilimitado, pois ela se integra a pensamentos, sentimentos e percepções sensoriais nos níveis mais profundos da personalidade. Trabalhar uma educação estética através da arte é possibilitar que se desenvolva uma personalidade capaz de harmonizar o indivíduo e as relações que ele estabelece com o mundo que o cerca. E isso vale para suas relações intra e interpessoais, assim como para lidar com situações do seu cotidiano.

Yvonne Berge afirma que o trabalho corporal estimula a normalização das alterações rítmicas que ocorrem na transição da fase infantil para a fase adulta, que pode ser perturbada por numerosos fatores psicológicos. Alerta-nos que valorizar muito cedo a leitura e a reflexão abstrata, deixando de lado as capacidades sensoriais e motoras das crianças, é criar uma desordem rítmica que se reflete no modo como se movimentam, gerando coordenações instintivas desorganizadas, provocando desajeitamento. E trabalhar com ritmo, com música, é descobrir e estimular também o domínio espaço-temporal. Para reorganizar o ritmo cotidiano da vida (vejam que boa ideia!), ela propõe uma estratégia que uso muito no meu dia a dia e nas minhas aulas e que funciona muito bem: o deslocamento rítmico. Quando nos sentirmos sobrecarregados, tensos, esgotados, podemos inverter a ordem e/ou o ritmo das nossas atividades. Minha vivência em sala de aula e em trabalho com grupos de professores tem comprovado sua eficiência. Quebrar a rotina, sentir o ritmo da turma e adaptar-se a ele, aproveitar um determinado momento alterando a ordem prevista são, sem sombra de dúvidas, formas de alcançar bons resultados com menos esforço.

Como bem observa Berge, saber extrair energias das fontes do silêncio e distensão e, principalmente, tomar consciência de que o ritmo vivo é muito mais importante do que o rendimento são coisas essenciais, que parecem ter sido esquecidas há muito tempo. Com crianças isso é fantástico, uma cantiga com movimentos ou brincadeiras rítmicas na própria mesinha ou em outro lugar já possibilita que a criança, que vai ficando cada vez mais dispersa e agitada, retorne a um estado de maior tranquilidade e atenção. Vale ter algumas “cartas na manga”.

A música, por ser uma manifestação do sensível, da Arte, geralmente, é vista como um elemento que atua no hemisfério direito. Entretanto, por depender de outras funções como a memória e a análise localizadas no lado esquerdo, o aprendizado musical depende dos dois hemisférios. Estudos comprovam que atividades simples como acompanhar uma música mentalmente, com instrumentos de percussão, ou cantá-la, já é o suficiente para promover uma ativação cerebral. Naturalmente que tocar um instrumento, traz uma atividade cerebral muito mais intensa. De qualquer forma há um estímulo à neuroplasticidade.

Quanto maior o número de estímulos musicais no ambiente escolar (ou em outros ambientes), maior será a atividade cerebral, maior será a formação de novos neurônios. A criança tem uma grande plasticidade cerebral, que embora seja menor no adulto, também pode lhe trazer benefícios.

Cabe lembrar que aquilo que é significativo para a criança (e para os adultos também), que é prazeroso, que é lúdico tem uma atuação muito maior no campo da aprendizagem, da atenção e da memória. E a música tem essa característica de dar prazer, naturalmente dependendo de que se considerem gostos e idades.

Algo de essencial se perde se as vivências estéticas não forem oferecidas pelo sistema educacional. Tais experiências não são o mais importante por si sós, mais importante é a qualidade que está além, que como observei no texto anterior não nos torna artistas, mas seres melhores porque mais humanos. As crianças cantam, fazem rimas, brincam com sons, dançam, desenham e, ao mesmo tempo, orientam-se no seu espaço vital, giram, descem, sobem, descobrem conexões, desenvolvem sua imaginação, dando-lhe forma expressiva. Vivências estéticas criam simbolismos, ajudam a lidar com emoções de uma forma própria a cada pequeno. Temos ainda a possibilidade de vivenciar emoções que aproximem as crianças, estimulando a empatia; ajudar nosso cérebro a criar novas conexões, novos caminhos através das emoções despertadas, novas percepções de mundo. Apreciar, dançar, cantar muitas e variadas músicas proporciona formas criativas para transformar, reconstruir e reintegrar as ideias em novos significados. Traz possibilidades de se desenvolver uma percepção musical mais apurada. Para isso, podemos usar o canto, sons diferenciados (incluindo os do ambiente e os dos instrumentos construídos) ou um Cd.

No texto anterior, sugeri algumas possibilidades de trabalhar música e sons com a criança e elenquei alguns benefícios das experiências musicais como a expressão criativa, o desenvolvimento da atenção, do equilíbrio e do autoconhecimento. Acrescento aqui algumas possibilidades que se relacionam com o hemisfério esquerdo do nosso cérebro: trabalhar a memória, habilidades motoras, coordenação corporal. E outras que se relacionam ao hemisfério direito: desenvolver a imaginação, a criatividade, a harmonia, estimular a fruição, a sensibilidade, a intuição.

O musicoterapeuta Carlos Fregtman aborda a má utilização do hemisfério direito do cérebro onde possuímos faculdades intuitivas e afetivas. Observa que muitos só consideram o hemisfério esquerdo como digno de ser levado em conta por ali se localizaram nossas faculdades cognitivas, racionais; nossa consciência verbal e analítica. O hemisfério direito, muitas vezes deixado de lado, se relaciona com a visão tridimensional, o reconhecimento das formas e contornos, as faculdades musicais, artísticas e o raciocínio holístico. Mas, como frisa o autor, as grandes atividades criadoras surgem da combinação e da ação conjunta de ambos os hemisférios. Lembra-nos o musicoterapeuta que nossa totalidade como pessoa exige a união dos lados esquerdo e direito, da percepção diferenciada de cada um deles, que, na verdade, são complementares.

Visto que desde a mais simples até a mais complexa atividade musical existe atividade cerebral isolada, integrada ou simultânea, é preciso considerar que a educação musical na escola proporcionará ganhos consideráveis para a criança e para qualquer outra faixa etária. É imprescindível, portanto, considerar a musicalização muito além de um passatempo ou preenchimento de tempo vago, deve ser considerada tão importante quanto qualquer outra área de conhecimento.

Seus comentários, perguntas e sugestões são sempre bem-vindos. Deixe-os no nosso site, assim que puder responderei.

Grande abraço e até nosso próximo artigo!

A fotos foram retiradas da web.

 

 

Poder e magia da música para a criança

 

O ritmo está presente em toda parte – nas batidas do coração, no fluxo respiratório; nos processos biológicos, nos fenômenos da natureza. Há ritmo no bater de asas dos pássaros, no vaivém das ondas do mar, nas fases da lua, na cadência dos passos, das palavras, no movimento das máquinas. Como afirma o musicoterapeuta Carlos Fregtman, tudo se manifesta através do ritmo, que é a pulsação vital. Estamos envoltos em uma poderosa sonosfera e não ficamos imunes a ela, pois não temos como desligar nossa audição como fazemos com a visão fechando os olhos.

Pendurados no berço, há caixinhas e objetos que atraem o bebê com musiquinhas e sons suaves, são muitas as cantigas e sons presentes nos brinquedos sonoros, na tevê e nos computadores que atraem a atenção imediata das crianças, e que com o tempo mais e mais exercem atração sobre elas. Primeiro balbuciam, depois, com a aprendizagem da linguagem passam a cantar, mexendo o corpinho, batendo palmas, se entregando ao prazer que a música lhes proporciona.

A música é uma linguagem tão valiosa quanto a linguagem verbal, ou seja, a linguagem conceitual. Seu poder terapêutico e pedagógico é ilimitado, pois ela se integra a pensamentos, sentimentos e percepções sensoriais nos níveis mais profundos da personalidade. Atividades com música como jogos cantados e brincadeiras de roda são formas de a criança se expressar e de adquirir conhecimentos adequados à sua faixa etária. Crianças com necessidades especiais muito se beneficiam com a música, exatamente pelo poder da música de atuar além do verbalizável e de superar resistências, tocando corpo e mente, atuando sobre a sensibilidade que é uma forte marca dessas crianças.

A educação musical na escola não se destina, assim como as outras expressões da Arte, a formar possíveis artistas, mas, sim, a proporcionar uma formação integral de nossos pequenos, trabalhando a corporeidade, ou seja, integrando cognição, afetividade, motricidade e relações sociais. A linguagem musical é um dos meios de desenvolver a expressão criativa e o autoconhecimento, contribuindo muito para as relações interpessoais. Como vimos no texto anterior, uma vez que trabalha as inteligências inter e intrapessoal (autoconhecimento e relações pessoais) estimula a educação emocional.

Também é um meio importante de desenvolver o equilíbrio. Fregtman afirma que tanto os processos corporais voluntários como os involuntários são afetados pelos sons. A música provoca mudanças biológicas – provoca alteração no pulso, na respiração e na pressão sanguínea; relaxa, diminui a fadiga muscular, amplia a capacidade metabólica. Trabalha a sensibilidade, facilitando o acesso a outras formas de estímulo e percepção. O ouvido está diretamente conectado com o sentido do equilíbrio e da direção, do qual depende o controle dos movimentos.

A prática comum em boa parte de nossas escolas de oferecer tudo pronto rouba muito do prazer da aprendizagem – o prazer de experimentar, de vivenciar, de sentir. Construir um instrumento por mais simples que seja e fazê-lo emitir sons é uma rica e prazerosa experiência que merece ser aproveitada.

Muitos são os materiais possíveis: garrafinhas de água e pauzinho de sorvete se transformam em reco-reco que podem sonorizar o barulho de um trem (rápido ou lento, parando na estação) ou acompanhar uma cantiga; tambores e outros instrumentos de percussão surgem magicamente de latas e caixas de papelão de tamanhos diferentes; como baquetas podem ser usados palitos de churrascos com rolhas nas pontas; potinhos e latinhas se transformam em chocalhos. Ainda podem ser usados guizos, sinos e tantos outros objetos que vamos descobrindo aos poucos. A web lhe trará muitas outras ideias. Este material pode ainda ser decorado, ficando com o jeitinho do seu dono.

Sendo a música uma capacidade inerente ao ser humano, todos nós podemos descobrir meios de expressão sonora, seja com o corpo, com a voz ou com um instrumento musical construído com as próprias mãos ou mesmo pronto. É importante que o adulto compartilhe com a criança essas experiências ricas e prazerosas. A improvisação abre espaços incríveis. Os sons são excelentes detonadores da expressão criativa e na contação de histórias; e crianças adoram sons (e histórias também).

Emoção e criação são movimentos pessoais que não fluem através de movimentos alheios, estranhos ou sem sentido; não podem ser moldados por parâmetros massificadores. É importante que a criança (e o adulto também) tenha seus momentos de expressão autêntica, natural, emocional, criadora. Não se pode esperar que todos reajam e se manifestem da mesma forma. Mais que isso, não se deve. Estimular o lugar comum, a uniformidade, é estimular a alienação e o conformismo.

A música possibilita ainda ao educador trabalhar outros aspectos em sala de aula: a atenção, a observação e a concentração; possibilita criar variados ritmos, sons, letras e movimentos; auxilia o desenvolvimento integral do ser (desenvolvendo cognição, motricidade e afetividade); possibilita o conhecimento de ritmos e costumes de diferentes culturas e etnias, como da cultura indígena ou africana.

A música na escola pode estar presente em múltiplas situações e atividades. Pode ser o fundo musical para inspirar uma pintura (mais suave ou mais rápida), um desenho ou qualquer outra atividade através da qual a criança se expresse; pode marcar movimentos do corpo no espaço; pode estar no pátio nas cantigas de roda, nos jogos dramáticos e em inúmeras outras situações escolares.

Trabalhar a música na escola (e em casa também) traz possibilidades múltiplas e bastante significativas para professores que atuam na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, embora não deva ser desconsiderada em outros níveis e modalidades de ensino.

Desta vez, ficamos por aqui. No próximo post, vamos continuar com a música e ver mais de seus grandes poderes. Incluindo o desenvolvimento da neuroplasticidade, do estímulo à aprendizagem e domínio de tempo-espaço.

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Refletindo sobre educação emocional e espiritualidade: algumas relações

Enquanto escrevia o artigo anterior, cujo foco era a meditação, fui observando relações significativas entre corporeidade, educação emocional, meditação e espiritualidade, algumas ainda não analisadas por mim, mas que mereceriam um novo olhar e maior aprofundamento. Neste texto, resolvi ir um pouco mais a fundo nessa questão por acreditar que ela é significativa tanto para a criança, quanto para nós, adultos, para que possamos entrar em maior contato conosco e ter relações mais equilibradas, e para que estejamos  mais conscientes do nosso papel junto aos nossos pequenos.

Inteligência Emocional e Inteligências Múltiplas: conceitos diferentes que se interpenetram

Daniel Goleman, que popularizou o conceito de Inteligência Emocional, e Howard Gardner, com sua teoria das Inteligências Múltiplas, ao final do século passado, trouxeram um novo olhar para o desenvolvimento humano e uma nova visão da interface emoções e inteligência (temas tratados em artigos anteriores). Por muito tempo, a razão foi priorizada em detrimento das emoções, pois estas eram consideradas prejudiciais ao bom funcionamento do intelecto. Entretanto, os estudos das neurociências trouxeram uma visão que revolucionou o que estava posto, e as emoções passaram a ser vistas como fundamentais ao bom desempenho da mente.

As teorias citadas acima foram essenciais para que a relação intelecto-inteligência-emoções fosse revista. A teoria das inteligências múltiplas traz uma visão ampliada das habilidades cognitivas, considerando a Inteligência um constructo subdividido em áreas. Uma criança que não tem grande competência em cálculos pode ter maior habilidade linguística ou musical, o que não significa ser mais ou menos inteligente. As habilidades de autoconhecimento e de conhecimento das emoções dos demais passam a ter tanto peso quanto as anteriormente chamadas habilidades cognitivas.

Aprender mais sobre nossas emoções e identificá-las é uma forma de lidar melhor com elas

Educar as emoções significa aprender a administrá-las  e não é algo tão simples como se vê em algumas propostas que carecem de um bom embasamento teórico. O conceito de inteligência emocional, trazido por Peter Salovey e David  Sluyter, no livro “Inteligência emocional da criança”, expressa bem a sua grande complexidade: “Inteligência emocional é a inteligência que envolve a capacidade de perceber acuradamente, avaliar e expressar emoção; a capacidade de perceber e/ou gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; a capacidade de compreender a emoção; e a capacidade de controlar emoções reflexivamente, de modo a promover o crescimento emocional e intelectual”.

A definição dos autores não deixa dúvidas de que educar as emoções não se limita à capacidade de percebê-las e controlá-las, mas envolve a ação do pensamento sobre o sentimento, da cognição sobre a emoção e exige múltiplas capacidades. Passando sempre das habilidades mais simples às mais difíceis, do perceber e integrar ao administrar. É um processo complexo de construção permanente, que se inicia em contato com a primeira família, passa pela escola e se estende aos ambientes por onde circulamos ao longo da vida como os profissionais, acadêmicos, grupais, de amigos, etc.

Na primeira infância, de forma muito natural, a criança já expressa suas emoções como o medo, a raiva, a alegria, a tristeza e, com frequência, essas emoções são reprimidas pelos adultos. Estas não podem ser mostradas por duas principais razões: por preconceito, por julgarem que emoções não devem ser mostradas ou porque eles mesmos não sabem como lidar com elas.  Aprendemos que se mostrarmos nossas fraquezas, nossas decepções e frustrações, isso pode ser usado contra nós, ou, então, que ficaremos mal diante dos outros. Reich aponta a contenção de nossas emoções como um dos grandes causadores das couraças musculares e de caráter, que bloqueiam o fluxo da nossa energia vital. Um exemplo que todos, com certeza, conhecem é a “proibição” de sentir raiva de um ser querido e a culpa por um sentimento absolutamente normal e incontrolável. Quem de nós não vivenciou isso? Raiva da mãe ou da professora, do irmão ou de um amiguinho? Sentimentos que vêm e vão, embora seja necessário aprendermos a lidar com eles. Afinal, o problema não é sentir raiva, inveja ou medo, mas, sim, o que fazemos com eles. E é na vivência das situações comuns e com as respostas dos adultos que as crianças podem ou não aprender como gerenciar suas emoções. Isso dá uma pequena mostra de como é necessário saber mais sobre as emoções, tanto sobre as próprias como sobre as dos outros.

Mais acima, citei que as emoções eram consideradas prejudiciais à razão, e muita gente, incluindo boa parte dos educadores, acreditam cegamente nisso, e há um sentido para que tal ocorra, uma vez que, em determinadas circunstâncias, as reações emocionais prejudicam o raciocínio e podem levar a ações indesejáveis. Na verdade, o que nubla o raciocínio são as emoções descontroladas, ou não saber identificá-las e delas se proteger. Reconhecer o que sinto, como se chama e que posso fazer com este sentimento, na verdade, melhora minha capacidade de decidir e de atuar.

Exemplifico: em meio a um acesso de raiva, um motorista dirige como um louco e acaba provocando um acidente. Em um momento de desespero e revolta, uma mulher quebra toda a louça que está na bancada da cozinha, tendo um enorme prejuízo. Estes exemplos mostram um destempero causado por emoções e reações extremadas e nada racionais. Mostram ainda a importância de trabalhar as emoções em vez de desconsiderá-las e “empurrá-las para o fundo do baú” ou “pra baixo do tapete”.

O que é espiritualidade?

A corporeidade, como vimos em textos anteriores, é um conceito que engloba motricidade, afetividade, cognição, espiritualidade, relações pessoais e ambientais. A espiritualidade, no contexto aqui utilizado, se refere às necessidades mais profundas do ser humano e que lhe permitem se tornar uma pessoa melhor, como o cuidado com o outro, com seu meio ambiente e consigo mesmo. Quando se fala em espiritualidade, a relação que, geralmente, se estabelece é com religião, e há uma lógica nesse pensamento uma vez que as religiões se voltam para o desenvolvimento espiritual.  Eu a vejo relacionada à forma como Leonardo Boff a considera, como aquilo que provoca uma transformação mais profunda em nós. O teólogo observa que a percepção da unidade corpo, mente e espírito foi fragmentada, deixando de ser considerada devido a um olhar mecânico-racional da nossa cultura. Eu acrescento aqui o viés capitalista da nossa sociedade em que “ter é muito mais estimulado que ser”.

Cuidar de nós e do nosso meio ambiente: uma manifestação da espiritualidade, da nossa humanidade

Assim, não vejo a espiritualidade ligada a uma crença religiosa, mas sim vinculada a uma dimensão mais profunda do ser humano, que nos induz a ir além de comer, dormir e trabalhar, de realizar tarefas de forma mecânica e rotineira; nos induz a sonhar, a construir algo que tenha sentido para nós, a transcender, a nos responsabilizar, a nos compadecer e nos enternecer, a nos sensibilizar, a partilhar, a viver com mais amorosidade, solidariedade e respeito. Tais qualidades não são próprias apenas de alguns; como Boff afirma, a espiritualidade é própria da natureza humana, faz parte do processo de se humanizar, é justamente a dimensão mais profunda do ser. A falta dos sentimentos que nos tornam mais humanos abre espaço à violência, ao vandalismo, ao desrespeito, à indiferença e a outros tantos danos que a sociedade tem vivenciado. E o próprio Gardner investiga e descreve a espiritualidade como um constructo das oito inteligências múltiplas.

Educação emocional e espiritualidade: unindo os fios

Como vimos, falar em espiritualidade significa falar de uma relação consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com o Universo, significa falar da inteligência intrapessoal e da interpessoal, duas das inteligências propostas por Gardner e que são consideradas por Goleman quando trata da inteligência emocional. A inteligência intrapessoal pode ser considerada a capacidade de construir uma imagem real e verdadeira de si mesmo, e de ser capaz de usar essa imagem de forma eficaz. É ter a capacidade de discriminar as próprias emoções, dar nome a elas e saber usá-las para orientar decisões. É uma forma de inteligência que se relaciona à capacidade de se autoperceber e de desenvolver o autoconhecimento. Como ressalta Boff, a espiritualidade que cada um de nós tem se revela pela capacidade de dialogar conosco e com o próprio coração. É poder ouvir nossa alma e atender seus pedidos.

Já a inteligência interpessoal é a capacidade de perceber, valorizar e trabalhar com as intenções e motivações de outras pessoas, de estabelecer relações mais equilibradas. Nas palavras de Boff, a espiritualidade nas relações com o outro se traduz pelo amor, pela sensibilidade, pela compaixão, pela escuta, pelo acolhimento e pelo cuidado. Acrescento aqui o respeito, pois sua ausência tem gerado muita violência tanto psicológica quanto física e inviabilizado muitas relações.

Acolher, cuidar do outro e respeitar as diferenças são expressões da espiritualidade do ser

A meditação de que falamos no último post pode ser considerada uma prática que estimula a nossa espiritualidade, trazendo-nos o aquietamento mental e a consciência do momento presente, uma forma de autocuidado e de autopercepção, portanto de autoconhecimento. Também nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e estimula a empatia, a capacidade de se ver no lugar da outra pessoa. Isso torna mais fácil criar relações em que haja respeito entre aqueles de raças, crenças e culturas diferentes, com opções sexuais diferenciadas e que haja maior solidariedade e fraternidade de que estamos bastante carentes.

Se a criança, como foi analisado, exercitar desde uma idade mais tenra a prática da meditação, do relaxamento e da respiração, estes recursos preciosos e seus efeitos estarão a sua disposição quando forem necessários. Quanto a nós, adultos, se ainda não começamos, é hora de começar. Afinal, como temos conversado, a neuroplasticidade permite que mudanças ocorram a qualquer tempo. E cuidar de nós é fundamental.

 

Fotos retiradas da web.

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Meditação: o que dizem as neurociências?

 

Há algum tempo, assisti a um documentário que falava da meditação para crianças em escolas de São Paulo, e fiquei muito animada por ver que algo que defendo há algum tempo com as práticas da Bioexpressão vem sendo considerado com maior frequência. O desenvolvimento equilibrado do corpo, das emoções, dos sentidos e da cognição da criança constitui, como enfatiza Violet Oaklander em seu livro Descobrindo crianças, o embasamento do senso do Eu dos pequenos e este, quando fortalecido, gera condições para que a criança mantenha relações apropriadas com seu meio e com as pessoas com quem convive.

A Bioexpressão tem como um dos seus principais eixos as atividades de centramento, que objetivam estimular uma respiração mais profunda e favorecer o equilíbrio emocional. A respiração consciente, o relaxamento e a meditação criam um senso de concentração e reequilibram as emoções, aumentando a vitalidade do organismo.

Vivemos uma fase de muita ebulição, de uma preocupação enorme com o ter e o fazer, mas de pouco investimento no ser. Uma época em que somos expostos a muitos estímulos externos o que inclui tablets, computadores, celulares e televisão, que exercem um grande poder e fascínio sobre nossos pequenos (e sobre jovens e adultos, também), cujo uso merece ser visto com cuidado para evitar problemas como analisei em artigo anterior.

Experiências de meditação, visualização, relaxamento e respiração conscientes criam novos caminhos neurais, novas sinapses e conectam todo o cérebro, gerando um novo fluxo de informações e compreensão do aqui-agora. No aquietamento necessário para tais experiências, sentimos paz e temos maior clareza do que acontece a nossa volta.

A meditação ativa permite que a criança se entregue ao momento através de movimentos suaves (Foto de Jaqueline Madeira).

Experimentos científicos realizados mostram como a prática da meditação altera as sinapses cerebrais permitindo maior controle do corpo como a redução da pressão arterial, da aceleração cardíaca e da respiração superficial e irregular, oportunizando que emoções descontroladas sejam substituídas por outras mais saudáveis.

Ensinar nossos pequenos a entrarem em contato consigo e se aquietarem por alguns momentos pode ser mais simples do que se pensa. E, na escola, isso pode ocorrer de forma muito natural com o trabalho em grupo, como já acompanhei algumas vezes. Inicialmente, tudo se mostra uma grande brincadeira para os pequenos, que, gradativamente, vão aprendendo a aquietar o corpo e a mente. Isso se aplica à meditação e, também, às atividades de respiração e relaxamento que são excelentes caminhos para o autoequilíbrio.

As atividades de relaxamento e respiração que nos conduzem a um estado meditativo estimulam áreas do cérebro relacionadas à atenção, à memória e ao raciocínio, o que favorece a aprendizagem, assim como a autoconsciência e a autorregulação emocional. Isso se dá através da plasticidade cerebral que tem o poder de transformar o cérebro emocional, criando muitas possibilidades, como observa o cardiologista brasileiro Georg Tuppy, que afirma meditar há mais de dez anos, sentindo os efeitos positivos desta prática e estimulando seus pacientes a realizá-la. Segundo ele, “não estamos presos ao cérebro com o qual nascemos, pois temos a capacidade de direcionar deliberadamente as funções que vão florir e as que vão fenecer, as capacidades morais que vão surgir e as que não vão surgir, as emoções que vão florescer e as que vão ser silenciadas”. Aquela observação que ouvimos muitas vezes de “nasci assim e vou morrer assim”, está longe de ser verdadeira como mostram os estudos das neurociências. Esta é uma desculpa dos que se acomodam e não querem investir em mudanças.

Meditar traz efeitos muito positivos como aquietar a mente, propiciar um sono mais tranquilo, relaxar, diminuir a ansiedade, estimular o funcionamento do sistema imunológico, estimular a criatividade, a imaginação e a autodisciplina, aprender a respirar em momentos de tensão, trabalhar a autoestima positiva. E podemos afirmar que os muito ganhos aqui elencados não são apenas para as crianças, mas para todos que invistam nesse processo.

A criança que passar pela experiência da meditação com regularidade, se tornará um jovem e um adulto com bem mais facilidade de meditar e usufruir os efeitos desta técnica milenar que ganha, a cada dia, maior número de adeptos. Pesquisas na área médica revelam resultados muito positivos, incluindo a melhora de doenças e/ou maior equilíbrio para lidar com elas. No Rio de Janeiro, o INCA – Instituto Nacional do Câncer tem uma experiência maravilhosa no setor pediátrico com sessões de meditação, que ajudam as crianças e seus responsáveis a lidarem com as tensões e dificuldades de enfrentar o tratamento. Também membros da equipe médica  e de enfermagem participam desses momentos de alívio de uma rotina estressante, contribuindo para que se tornem mais empáticos.

Vale enfatizar que a meditação nos ajuda a criar conexões mais equilibradas e saudáveis não só conosco, mas também com o outro, e aumenta a empatia, a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Isso facilita que se criem relações em que, independente de raças, crenças religiosas ou culturas, predomine um espírito de solidariedade e fraternidade de que estamos bastante carentes. As práticas meditativas contribuem, por tudo isso, para aumentar a inteligência emocional e a resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades e delas se recobrar mais facilmente.

Pequenos movimentos e alongamentos podem dar início ao momento da meditação (Foto de Rosilene Maria da Silva Gaio)

 

Não podemos esquecer que a criança, especialmente na Educação Infantil, ainda não está preparada para ficar períodos mais longos concentrada e que o efeito de uma tentativa de maior tempo de imobilidade não teria êxito. Portanto, devemos oferecer poucos minutinhos que poderão ser aumentados aos poucos, de acordo com a aceitação da criança.

É importante que os pequenos não se sintam forçados a praticar a meditação. Sugiro sempre aos educadores (pais ou professores) que façam deste momento uma atividade lúdica e que, em princípio, seja orientada por eles. Há várias formas de meditar, mas pela minha experiência, a narração de uma história a ser vivenciada pela imaginação, é uma ótima opção, ou seja, temos um processo de visualização ou imagens mentais. O educador deve conduzir a criança com uma pequena história de fácil compreensão, de forma relaxante, com voz suave.

“Feche os olhos e imagine que você está flutuando como um barquinho em um lago muito azul que reflete o céu. (Pausa para que imaginem) Um calorzinho gostoso aquece seu rosto e um ventinho bem suave faz com que você se movimente por este lago. (Pausa) Sinta seu corpo subindo e descendo com o movimento suave das pequenas ondas que se formam, ouça o barulhinho da água, sinta o cheirinho da mata que cerca o lago. (Pausa) Aos poucos, você vai flutuando até a margem e se senta na areia, respira profundamente se espreguiçando.”

Muitas são as possibilidades, e você pode criar pequenas narrativas que façam parte da vivência da(s) criança(s). Podemos pedir que fechem os olhos e usar sons que permaneçam vibrando por um tempo e que devem ser ouvidos até que desapareçam como o de um sino tibetano, um pau de chuva ou a corda de um violão. Isso ajuda muito a concentração dos pequenos. Repita apenas um número de vezes que não cause dispersão.

Há muitas sugestões interessantes que podem ser encontradas na web, mas, como disse antes, você pode criar as possibilidades. Deixe que sua imaginação o ajude nesta tarefa.

 

Fotos de arquivo pessoal de Jaqueline Madeira e Rosilene Maria da Silva Gaio que realizaram  pesquisas nessa área sob minha orientação.

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O que eu gostaria de já saber com filhos e alunos pequenos

Um olhar para a Educação Infantil. Este é o foco do livro cujo lançamento acontece em 26 de abril em São João del-Rei no Solar da Baronesa – Centro Cultural UFSJ às 17h30min.
A finalidade é travar uma conversa com educadores, tanto pais e professores como aqueles que cuidam dos nossos pequenos e têm a tarefa de orientá-los no dia a dia, seja na escola, em casa ou em outros locais. Gostaria muito de saber o que sei agora quando tinha filhos e alunos pequenos. Com certeza, teria lidado melhor com muitas situações, superado melhor diversas dificuldades. O fato de ser avó e ter sido, por muitos anos, professora de futuros professores de crianças, também, me permitiu e permite vivenciar e me conectar a situações muito atuais que afligem responsáveis pelos pequenos.

São 22 capítulos em uma linguagem bem acessível com sugestões de atividades, aliando teoria e prática com leveza. O tempo é sempre corrido, mas todos nós que cuidamos da criança sabemos da necessidade de conhecer um pouco mais os desafios de nossa tarefa. Assim, embora utilize uma linguagem simples, as questões não são tratadas de forma simplista.

A temática é bem variada, mas há ênfase em alguns aspectos em que desenvolvi e orientei pesquisas e sobre os quais escrevi: Bioexpressão, educação infantil, corporeidade, movimento, ludicidade e arte. Estes conhecimentos dão, ainda, a estrutura necessária para lidar com algumas questões de que nossa sociedade está muito carente como educação emocional, resiliência, o estabelecer limites, relações mais equilibradas, entre outras.

As questões que dizem respeito à criança são de extrema importância, pois, nesta fase da vida, estamos trabalhando as bases para o restante dela. Crianças felizes e bem orientadas se tornam adultos que lidam melhor com as dificuldades da adolescência e da fase adulta. Crianças que desenvolvem de forma adequada aspectos mentais, emocionais e corporais se tornam adultos mais inteiros, que aprendem a valorizá-los e a considerá-los positivamente.

Nossa educação está pautada prioritariamente no trabalho mental, e não é difícil encontrarmos adultos com um grande desenvolvimento intelectual, alguns brilhantes, mas com grande imaturidade emocional e sérias dificuldades corporais. Saber lidar com as próprias emoções é um dos grandes investimentos que precisam ser considerados tanto na escola quanto em família. Sentir-se acolhido no próprio corpo e de bem com ele, sabendo escutar seus sábios conselhos também é um grande ganho. E sabe qual a melhor notícia? É bem mais fácil estimular tais ganhos quando a criança ainda se encontra na primeira infância.

Estresse, plasticidade cerebral e aprendizagem: o que é importante saber?

Como observei no nosso último texto, chamamos de neuroplasticidade a capacidade cerebral de mudar e reorganizar sua rede neuronal em função de demandas do meio ambiente, de experiências vividas, de aprendizagens e memórias. Sempre que aprendemos algo novo ou vivemos experiências diferentes das habituais como quando fazemos uma viagem que nos encanta, visitamos um museu ou lemos um livro que nos envolve, e mesmo quando sentimos uma sensação ainda não sentida como pegar nosso primeiro filho ou netinho no colo, as sinapses se fortalecem, estes momentos ficam indelevelmente registrados. Isto é, ativam-se as transmissões de impulsos nervosos entre os neurônios.

Com a criança não é diferente. Quando ela tem experiências diferentes, situações envolventes e estímulos prazerosos, há este fortalecimento neural. Isto se dá porque a neuroplasticidade ocorre de forma muito mais rápida e intensa quando associada a interesse, vontade e motivação. Uma atividade maçante só nos estimula a querer terminá-la o mais rápido possível, e a memória a descarta.

Outro aspecto importante a considerar é que nem sempre os estímulos são positivos, muitas vezes, causam estresse, resultado de um desequilíbrio entre demandas internas e externas, estando associados a medos, frustrações, raiva ou ansiedade. Este desequilíbrio ocorre desde a mais tenra idade ao longo de toda a vida. Nossa habilidade em lidar com o estresse, isto é, a forma como o enfrentamos, permite (ou não) que seus impactos sejam minimizados. É necessário que sejam encontradas respostas adequadas para lidar com as situações estressantes e estimular a neuroplasticidade, uma vez que esta é afetada por agentes estressores, podendo mesmo dificultar o processo de aprendizagem.

Ortiz Alonso, prestigiado neurocientista, especialista em educação, afirma: “A diferença entre um cérebro que se exercita na escola de forma ordenada, regular e sustentável e outro que não o faz é a mesma que existe entre uma árvore vista no outono e na primavera”.

Situações estressantes fazem parte da vida, e cabe a nós aprendermos a lidar com elas e nos defender de efeitos nocivos, protegendo também nossos pequenos, facilitando o desenvolvimento da resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades, e estabelecendo respostas mais saudáveis.

Vamos exemplificar: um adulto, diante de uma situação estressante pode repetir determinadas atitudes como brigar com a família ou os colegas no trabalho, dirigir feito um louco colocando sua integridade e a dos outros em risco, reclamar de Deus e do mundo, bater portas e panelas… Uma criança pode chutar o coleguinha, chorar, morder, gritar, jogar objetos… Tais atos se tornam padrões de comportamento frente à tensão. E como criar novos padrões, evitando que os antigos sejam automaticamente assumidos?

O neurocientista Michael Merzenich nos diz que o que muda no cérebro é a força conjunta das conexões neurais. Uma ação repetida, praticada várias vezes, fortalece as sinapses. Assim, há práticas que podem criar respostas diferenciadas e, para isso, manter a regularidade é fundamental, assim como manter a motivação. Se a criança, por exemplo, não obtiver resultados com suas manhas e perceber que se não as fizer terá mais atenção, este se torna um fator motivacional para mudança de atitude.

O estresse afeta os receptores do hipocampo, que já não conseguem desenvolver sua capacidade de memória, atenção e codificação de coisas novas, dificultando, portanto, a aprendizagem. Muitas vezes, crianças que sofrem ou presenciam violência doméstica mesmo que psicológica, ou cujos pais se separam de forma traumática, por exemplo, apresentam dificuldades de aprendizagem que podem ser justificadas por um alto nível de estresse.

Muitas são as possibilidades que podem ser trabalhadas para minimizar efeitos do estresse e/ou evitar que se instalem; trago algumas sugestões de atividades que podem ser usadas com as crianças, sendo, aos poucos transformadas em hábitos saudáveis, ocasionando novas respostas.

Como lidar com o estresse, ativar estruturas cerebrais e estimular a aprendizagem?

Ouvindo histórias

Um aspecto significativo para enfatizar quando pensamos a prática pedagógica é que estímulos diferenciados que envolvem a criança, que lhe trazem encantamento e prazer, que lhe permitem se expressar como as brincadeiras, a contação de histórias, as atividades ludoartísticas, o movimento, a expressão criativa entre outras ativam estruturas cerebrais, minimizam o estresse, facilitando a aprendizagem.

A educação infantil deveria dar continuidade ao seu deslumbramento de descobrir o mundo; à percepção sensorial vívida que a desperta para sabores, aromas, ruídos, imagens, texturas; que faz com que sua curiosidade se aguce e a tome por inteiro; com que pulse alegremente diante do novo – dos sons, das cores, das tramas, dos gestos, das sensações…

As atividades ludoartísticas, que expandem nossa imaginação e o nosso potencial de entendimento, são possibilitadoras de uma educação mais sensível e prazerosa, de criar outras possibilidades de ver o mundo, de se expressar, de criar, de perceber e de sentir.

O Dr. Ortiz Alonso, em entrevista a El País, observa que a brincadeira prepara para a vida, desenvolve a cognição e a moral. Eu acrescento que trabalha também as emoções e que é um poderoso estímulo para a aprendizagem. A brincadeira traz a motivação, a interação entre os coleguinhas, o saber lidar com ideias diferentes. “Com mais novidade, o cérebro capta informações com mais velocidade e as arquiva muito melhor. A pergunta é por que os adultos não continuam brincando. Perdemos essa capacidade? É uma grande pergunta e acontece em todas as culturas. Antes da Revolução Industrial, o aluno aprendia de uma forma prática e utilizava mais a brincadeira do que nós. (…) Em nossa sociedade, a memória e o conhecimento estão associados aos sistemas educacionais. Com brincadeiras se levaria mais tempo e hoje a rapidez é um valor”. Também por isso, posso seguramente afirmar, que a escola nem sempre reserva um tempo fundamental para a brincadeira, com a falsa ideia de que brincar é perder tempo, a partir da crença de que “tempo é dinheiro”.

Brincando com jogos cantados

A música é um santo remédio, um caso à parte e está provado por vários estudos que relaxa e ativa a memória. Benefícios em dose dupla. Jogos cantados devem fazer parte da rotina escolar, pois aliam o movimento à música, trazem alegria e prazer que são antiestresse. E como sabiamente afirma o conhecimento popular: quem canta seus males espanta.

Outras atividades prazerosas podem nos ajudar muito a lidar com o estresse e estimular a neuroplasticidade como atividades respiratórias, a meditação ativa e a visualização. E, naturalmente, para a criança devem ter uma boa dose de ludicidade. Mas voltaremos a isso no próximo artigo. Por hoje, ficamos por aqui.

Fotos de meu arquivo pessoal.

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Aprendizagem e neuroplasticidade: algumas relações iniciais

Não tenho a menor dúvida de que todos nós, educadores, sejamos professores ou pais, queremos que nossos pequenos se desenvolvam e aprendam, e que também tenham prazer em passar por esse processo. Entretanto, a aprendizagem não ocorre de maneira linear, não é a mesma para todos, e o conhecimento da neuroplasticidade pode nos ajudar a entender melhor alguns aspectos da estimulação da criança e do direcionamento da prática pedagógica.

Ao longo de nossa existência, o cérebro passa por uma constante mutação de sua rede de conexões neurais – as sinapses, e estas conexões se devem aos estímulos do meio ambiente, do contato com pessoas e situações. A plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem em se adaptar às necessidades do indivíduo. O Sistema Nervoso Central (SNC) é capaz de modificar sua organização estrutural e funcional em função dos estímulos externos. A partir de experiências vividas pelo indivíduo, redes de neurônios são reorganizadas, sinapses são reforçadas e são possibilitadas novas respostas em função do que é necessário.

Até meados do século passado, acreditava-se que as conexões entre os neurônios (sinapses) que se formavam na infância eram imutáveis. Mas estudos em neurociências nos mostram que não é isso que acontece, nos mostram que estas sinapses continuam a surgir durante a fase adulta, o que significa que sempre é tempo de aprender. Porém, os estudos também apontam que o sistema nervoso da criança tem maior plasticidade que o de um adulto, e isto significa que é importante que a criança possa ser estimulada nessa fase para favorecer seu desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social.

Um primeiro ponto importante para a prática pedagógica a enfatizar é que estímulos diferenciados (música, brincadeiras, movimento, desenhos, pinturas, modelagem, diálogos da criança com o adulto e com os amiguinhos, entre muitos outros) ativam estruturas cerebrais.

Outro ponto é que adquirir novos conhecimentos depende de conhecimentos anteriores, assim como de estímulos para aquisição e manutenção do aprendizado.  O conhecimento prévio necessário para adquirir uma nova noção é fundamental, assim como os métodos pedagógicos mais adequados para o nível de aprendizado do educando.  Por exemplo: A criança precisa adquirir uma coordenação global dos movimentos para que tempos ritmados possam ser trabalhados em danças e jogos cantados.  Ela precisa ainda ser estimulada de forma a “curtir” o novo conhecimento (Neste aspecto acredito que isto não é difícil).

Se isso ocorrer, aquele que faz a mediação da aprendizagem, o educador, poderá ter maiores chances de ser bem sucedido. Porém, se a qualidade da mediação não for boa o bastante, as sinapses ocorridas podem não ser eficientes o bastante para que a aprendizagem aconteça.

Dois aspectos merecem ainda ser destacados aqui: o primeiro se apoia na questão de que falamos em nosso artigo do mês de janeiro – a corporeidade, considerando que o indivíduo é uma totalidade que envolve cognição, afetividade, motricidade e relações com o outro e com seu meio social.  Assim, a aprendizagem também ocorre de forma mais ampla. Aquilo que nos afeta (isto é, que atua em nossa afetividade, que nos traz alguma emoção como alegria, encantamento ou prazer), ou que podemos vivenciar corporalmente, ou criativamente, que tem relação direta com com nosso grupo social (como o estudo da região em que a criança mora) será mais facilmente apreendido e aprendido. É importante ter clareza de que o aluno como um todo está envolvido na aprendizagem, não apenas o intelecto.

Outro aspecto a considerar é o que a teoria das Inteligências Múltiplas, criada pelo psicólogo norte-americano Howard Gardner, na década de 1980, nos traz de contribuição. Segundo ele, cada indivíduo tem uma forma própria de ser, com aptidões diferenciadas, interesses diversos. Gardner propôs sete diferentes tipos de inteligência, deixando de lado o conhecido QI (quociente de inteligência) usado na época. São elas: inteligência linguística, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, inteligência musical, interpessoal e intrapessoal.  Posteriormente, a inteligência naturalística foi adicionada à lista.

Assim sendo, não se aprende da mesma maneira, pois há maior ou menor afinidade com diferentes áreas de conhecimento, de acordo com o tipo de inteligência que predomina em cada indivíduo. Todos nós temos todas elas em maior ou menor grau e todas as inteligências podem ser estimuladas e desenvolvidas ao longo da vida. Isso nos permite compreender que é necessário que as crianças recebam maior suporte do professor para trabalhar determinados conteúdos em que haja maiores dificuldades. E isso pode significar mudar a maneira de ensinar. Se o professor repete, mesmo que numerosas vezes, da mesma maneira, a explicação de um conceito, são sempre ativadas as mesmas conexões neurais, o que não favorece a aprendizagem.

O fato de que todas as inteligências podem ser estimuladas e desenvolvidas se refere ao poder de o cérebro criar novas sinapses, ativando áreas menos desenvolvidas.

Se faz necessário considerar as competências e habilidades do indivíduo visto em sua totalidade, que não se valorizem apenas a inteligência linguística ou lógico-matemática, as duas formas de inteligência priorizadas na escola. São importantes? Claro, sem sombra de dúvida!!! O problema é que as demais formas de Inteligência não sejam devidamente consideradas, sejam deixadas de lado.

Se os educadores tiverem conhecimento da inter-relação entre neuroplasticidade  e o processo de aprendizagem, poderão ter maior clareza da importância de  instigar novas aquisições, inovar, propor atividades que estimulem motricidade, cognição, emoções e as relações, e que sejam significativas para as crianças, gerando maior desenvolvimento.

 

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Qual o lugar do corpo na escola?

Será sentado atrás de carteiras enfileiradas? Será que conter a vivacidade da criança é o mais indicado para seu desenvolvimento? Como permitir que a criança possa, desde pequena, desenvolver seu potencial expressivo?

O ser humano para seu desenvolvimento mais equilibrado precisa ser considerado como alguém que pensa, sente, se movimenta, e está vinculado a seu meio sociocultural, o que significa ser considerado em sua corporeidade. O movimento é visto, na maioria das vezes, como se atrapalhasse o desenvolvimento e a aprendizagem da criança, ideia totalmente falsa, mais que isso, uma ideia absurda, uma vez que o movimento é condição fundamental para a construção do conhecimento pela criança, no processo de conhecer a si mesma e se diferenciar do outro, enfim, de sua constituição como sujeito.

O desenvolvimento da criança implica consciência e conhecimento progressivo e cada vez mais profundo do próprio corpo. A criança é o seu corpo e a criança é movimento. Até que a criança tenha adquirido a linguagem verbal de forma mais ampla, é a motricidade o que lhe permite atender suas necessidades básicas, expressar emoções e criar relações. E é desta forma que ela se desenvolve e constrói aos poucos a sua personalidade. A motricidade é o que permite a interação entre o seu movimento interno e o externo, é o que permite que a criança estabeleça relações com seu grupo social (família, escola, amiguinhos da pracinha, da natação, etc).

É através do corpo, do movimento e dos sentidos que a criança percebe o mundo que a cerca, com ele interage e o transforma. O que é experienciado é imediatamente assimilado, o que é vivido é mais facilmente apreendido e aprendido. No entanto, à criança tem sido, com frequência, imposta uma imobilidade que contraria suas necessidades fundamentais, e atividades pouco ou nada significativas para sua experiência pessoal que, muitas vezes, seguem rotinas rígidas e repetitivas que não possibilitam o desenvolvimento de sua autonomia e expressividade.

Os espaços são inadequados, especialmente na educação infantil, em geral, ocupados por mesinhas e cadeiras, que tolhem as atividades físicas da criança, reduzem seu campo de experiências e reprimem a expressão natural de suas emoções. Se lhe são oferecidos movimentos reduzidos e rígidos, repetitivos e imitados, suas sensações e sua vivacidade vão sendo entorpecidas, o que tenderá a gerar desajeitamento e desconfiança, que poderão permanecer na juventude e idade adulta. O psicopedagogo e psicomotricista Vítor da Fonseca observa que muitas “epidemias escolares” como dislexias, disgrafias e discalculias põem em questão os métodos de aprendizagem, afirmando que mobilidade e inteligência são inseparáveis, uma vez que o pensamento se estrutura por meio do movimento.

Há anos atrás, fazia parte da infância brincar na rua, correr, ter contato com espaços amplos. Hoje, infelizmente, por motivos incontestáveis como a insegurança, isso não acontece da mesma forma, o que é mais uma razão para estarmos atentos a esse aspecto. O corpo tem permanecido muitas horas imóvel diante das telas de TV, computadores e celulares, questão esta que não cabe aprofundar neste momento, mas que merece atenção redobrada.

As muitas pesquisas que desenvolvi e orientei de mestrado, doutorado, iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso (TCC) e outras tantas que li, além do acompanhamento de estágios, mostram que o controle corporal é muito mais comum do que imaginamos, e que é preciso insistir nessa questão, pois as crianças de hoje serão os adultos de amanhã. E é mais que desejável que se tornem adultos que, além de usarem a cabeça, saibam lidar com suas emoções e com seu corpo, enfim, que sejam pessoas felizes consigo mesmas e que saibam se relacionar adequadamente, o que percebemos ser uma carência do nosso mundo.

A escola é um espaço privilegiado para o movimento, as relações e o desenvolvimento. Existem muitas possibilidades de movimento e podemos escolher o que mais se adeque ao local e ao momento. E movimento não significa necessariamente desordem ou indisciplina, podem ser jogos cantados, representações, brincadeiras e muitas outras possibilidades. Mais adiante, vamos falar um pouco mais do significado e da importância de considerar a corporeidade na escola e como esta visão integrativa ajuda nossos pequenos a se tornarem pessoas mais inteiras.

Nosso blog se transformou em livro…

Fotos retiradas da web.

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Olá, educadores,

Estamos de volta com muita alegria e animação. Mas, antes de publicar nosso primeiro artigo deste ano, quero lhes apresentar meu novo livro, cujo foco, como os textos deste blog, é a criança pequena. Nossos artigos foram aprofundados, reorganizados por temáticas, ganharam referências bibliográficas e se transformaram em livro: O que eu gostaria de já saber com filhos e alunos pequenos. Um olhar para a Educação Infantil.

Este livro tem por finalidade travar uma conversa com educadores, tanto pais e professores como aqueles que cuidam dos nossos pequenos e têm a tarefa de orientá-los no dia a dia, seja na escola, em casa ou em outros locais. Gostaria muito de saber o que sei agora quando tinha filhos e alunos pequenos. Com certeza, teria lidado melhor com muitas situações, superado melhor diversas dificuldades. O fato de ser avó e ter sido, por muitos anos, professora de futuros professores de crianças, também, me permitiu e permite vivenciar e me conectar a situações muito atuais que afligem responsáveis pelos pequenos.

São 22 capítulos não muito longos, em uma linguagem bem acessível com sugestões de atividades, aliando teoria e prática com leveza. O tempo é sempre corrido, mas todos nós que cuidamos da criança sabemos da necessidade de conhecer um pouco mais os desafios de nossa tarefa. Assim, embora utilize uma linguagem simples, as questões não são tratadas de forma simplista. Ao final de cada uma das quatro partes que compõem a obra, são apresentadas, além das referências que surgem nos capítulos, algumas sugestões de outras leituras para quem deseje saber mais e aprofundar o assunto trazido. Tive o cuidado de organizar os capítulos por assunto para que o leitor possa reler ou antecipar algo que lhe desperte maior atenção ou interesse.

A temática é bem variada, mas há ênfase em alguns aspectos em que desenvolvi e orientei pesquisas e sobre os quais escrevi: Bioexpressão, corporeidade, movimento, ludicidade e arte. Estes conhecimentos dão, ainda, a estrutura necessária para lidar com algumas questões de que nossa sociedade está muito carente como educação emocional, resiliência, o estabelecer limites, relações mais equilibradas, entre outras.

As questões que dizem respeito à criança são de extrema importância, pois, nesta fase da vida, estamos trabalhando as bases para o restante dela. Crianças felizes e bem orientadas se tornam adultos que lidam melhor com as dificuldades da adolescência ou da fase adulta. Crianças que desenvolvem de forma adequada aspectos mentais, emocionais e corporais se tornam adultos mais inteiros, que aprendem a se valorizar e a considerar positivamente tais aspectos.

Nossa educação está pautada prioritariamente no trabalho mental, e não é difícil encontrarmos adultos com um grande desenvolvimento intelectual, mas com uma grande imaturidade emocional e sérias dificuldades corporais. Saber lidar com as próprias emoções é um dos grandes investimentos que precisam ser considerados tanto na escola quanto em família. Sentir-se acolhido no próprio corpo e de bem com ele, sabendo escutar seus sábios conselhos também é um grande ganho. E sabe qual a melhor notícia? É bem mais fácil estimular tais ganhos quando a criança ainda se encontra na primeira infância.

Grande abraço e até breve