Rotina, autonomia e resiliência: os novos tempos exigem

No último artigo, mais uma vez nos detivemos em questões significativas neste momento em que nossas vidas sofreram muitas mudanças. Filhos em casa, home office, aulas online, novos protocolos de comunicação e de convivência. Falamos da importância do que nos traz a BNCC, que não só nos orienta para a educação escolar como dá dicas valiosas para a educação familiar. Nesta postagem, vamos nos deter mais um pouco na importância de criar rotinas e aproveitar este momento para trabalhar mais a autonomia da criança e a resiliência.

Rotina: mais segurança e equilíbrio

Estabelecer rotinas proporciona maior segurança aos nossos pequenos e ajuda a minimizar a ansiedade. Neste momento, em que muitas foram as mudanças sofridas, a manutenção de novas regras cria, além de uma “nova normalidade”, uma forma de equilibrar a convivência familiar, de estabelecer novos padrões que possam conciliar atividades de pais e de filhos. Como salientei no texto anterior, propor tarefas para todos é também um modo de desenvolver a autonomia das crianças e de incluí-las nas atividades da casa, o que as ajuda, ainda, a criar um maior senso de pertencimento. Cada um poderá ajudar com pequenas tarefas ou maiores, dependendo de sua idade e aptidão.

Mais importante que qualquer coisa é a intenção da criança de colaborar nas atividades de casa. Foto de Tatiana Syrikova

Mas não confunda rotina com camisa de força; se assim for, o resultado será infalivelmente o estresse. As atividades podem ser combinadas e passar por rodízios. Há muito a ser feito como molhar as plantas, alimentar o bichinho de estimação, colocar objetos no lugar ou recolher a roupa para lavar. Outro aspecto que volto a enfatizar é a importância de abrir espaço para o diálogo que una a família para trocas, para conversas. Dizer o que se pensa e do que se gosta ou não de fazer pode ajudar a criança a falar do que a incomoda e pode nos dar a chance de fazer o que talvez seja possível lhe oferecer. Ajudar, dialogar e expressar sentimentos é muito mais simples quando a criança ainda é pequena. E são maneiras de trabalhar a sua autonomia e a inteligência emocional.

Relembrando as orientações da Base Nacional Comum Curricular- BNCC para a Educação Infantil, se estabelecem seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças que lhes asseguram situações em que possam ter papel ativo e que lhes permitam vivenciar desafios, sendo estimuladas a resolvê-los. Mesmo em casa, tais situações podem e devem ser proporcionadas. A ideia é que possam, assim, “construir significados sobre si, os outros, e o mundo social e natural”. Tais direitos são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

Autonomia: o que toda criança precisa desenvolver

Dar força e assessorar a criança é fundamental Foto de Gustavo Fring do Pexels

É comum vermos pais que por pressa devido à pressão dos horários, por quererem ajudar a criança, para evitar sujeira ou mesmo com medo que se frustre, tomam a frente para resolver situações que precisam ser vividas por ela. São tarefas das mais simples às mais elaboradas como guardar brinquedos, amarrar cadarços, tirar a roupa ou colocá-la, arrumar a mochila, comer sozinha e outras tantas. Cada fase tem os seus desafios. Mas todas elas precisam de estímulo para que os pequenos, passo a passo, ganhem autonomia motora, cognitiva e emocional.

 

Deixar que a criança tome decisões aumenta sua autoconfiança e senso de iniciativa. Foto do Unsplash

Uma forma de estimular a autonomia da criança e que os especialistas apontam como fundamental é incentivá-la a brincar sozinha. Além de criar suas próprias brincadeiras, ela terá o tempo necessário para “conviver consigo mesma” e desenvolver mecanismos de se divertir e aprender sozinha. Isso não significa que a criança não tenha a companhia do adulto para suas brincadeiras em outros momentos, o que os neurocientistas afirmam gerar sentimentos de segurança e de prazer, sendo muito positivo para o seu desenvolvimento. Falamos aqui de um tempo que ela possa se entregar às brincadeiras e à fantasia, tempo que também é importante para seus pais.

Para estimular seus pequenos a brincarem sozinhos e a cumprir pequenas tarefas, deixe-os com brinquedos que não precisem da ajuda do adulto e que lhes permita brincar em segurança. Deixe-os imaginar situações, conversar com os personagens da sua fantasia, criar suas próprias regras. Jogos de encaixe e bloquinhos de construção são brinquedos que oferecem sempre novas possibilidades, que viram carros, aviões, barcos, casas e o que mais a imaginação comandar. E não podemos nos esquecer também das atividades de desenho e pintura se a criança puder ser deixada com canetinhas na mão sem pintar a casa toda.

Seu filho se atrapalha para montar o quebra-cabeça ou calçar a sandália? Coloca os dois pés na mesma perna da bermuda? Deixe que tente algumas vezes solucionar a questão ao invés de correr para resolver. Este é um pequeno começo de exercitar a busca da solução. Estimule-o a fazer de outro modo, a lidar com seu erro, a encontrar uma a forma de fazer.

Incentivar a criança a desenvolver atividades como as tarefas rotineiras de que falei acima é muito significativo, pois ela vai ser desafiada a buscar meios de realizar os afazeres que lhe cabem. Também realizar tarefas passadas pela escola, mesmo que supervisionada pelos pais, as ajuda a assumirem a responsabilidade que lhes cabe, e a se sentirem seguros de realizar tarefas. O psicólogo e neurocientista Hudson de Carvalho observa que, para um desenvolvimento psicológico saudável, é necessário propor à criança situações que estimulem a busca ativa por soluções. Isso significa que é benéfico para a criança lidar com situações que a desafiem a buscar saídas para superar dificuldades.

Lidar com a frustração: mais que um problema, uma solução

Frustrações fazem parte da vida, não há como evitá-las. E, por mais que seja difícil, precisamos ensinar nossos pequenos a enfrentá-las ou estaremos criando jovens e adultos insatisfeitos, que têm dificuldade de ser gratos, e que não conseguem lidar com os revezes da vida. Somente aprendendo a suportar as frustrações, tendo clareza de que a vida não nos oferece apenas respostas positivas, mas nos dá inumeráveis retornos negativos e que a persistência faz parte do processo de crescimento do ser poderemos viver com maior equilíbrio. A frustração desde que em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode e nem deve ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem. Afinal, a vida não atende a todos os nossos desejos, e maturidade emocional é saber aceitar isso e ter os meios para seguir em frente. Esta é a base da resiliência. Ser resiliente não significa passar pelos problemas sem sofrimentos, mas sim ser capaz de superar a si mesmo, de se recompor, até mesmo se fortalecendo.

Resiliência é a capacidade de passar por dificuldades sem que o desespero nos incapacite para a ação, é ser capaz de enfrentar pressões, situações de estresse sem se deixar abater a ponto de desmoronar. Esta capacidade que temos tido necessidade de trabalhar em nós neste momento da pandemia, de grandes perdas para muitos, deve começar a ser estimulada ainda na primeira infância como acabamos de ver.  E a este assunto voltaremos no próximo artigo.

Se tiver alguma dúvida em relação ao que foi apresentado, se algo não ficou claro, se tiver sugestões ou quiser fazer comentários, entre em contato conosco através do espaço abaixo no próprio site. Sua participação é sempre muito bem-vinda e significativa.

Grande abraço e até a próxima

A foto em destaque é de Pragyan Bezbaruah de Pexels

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

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