Alfabetização do afeto e a pandemia da covid 19

Este texto foi escrito após minha participação em uma roda de conversas online da III Semana de Pedagogia da UEMG, da qual participaram, além de mim, três professoras e uma psicóloga. O link do Youtube para quem desejar assistir está abaixo.

A pandemia está nos obrigando a rever algumas formas de agir e até mesmo de ser. Estamos diante de grandes desafios, como lidar com nossas relações no isolamento social e com o processo de escolarização dos pequenos. Quando falamos em alfabetização, o desafio é maior ainda, pois aumentam as cobranças cognitivas, a necessidade de acompanhamento e diminuem os “alimentos” emocionais que são tão importantes para as crianças como as brincadeiras, o lúdico e as artes. O que me foi proposto foi que fechasse a conversa, pensando o afeto para além do processo de escolarização, o que implica pensar as relações humanas tanto as da escola como as familiares.

 

São muitos os desafios que a educação online nos apresenta, especialmente, na Alfabetização (Foto de August Richelieu do Pexels)

Tornou-se evidente, um crescente incômodo emocional entre as crianças como irritabilidade, instabilidade das emoções, agressividade, que têm cada vez menos tempo de viver sua infância de forma mais plena. Mesmo antes do isolamento social, os pequenos já se viam mais confinados e, muitas vezes, sob a influência constante das telas de computadores, tabletes e celulares. Grande parte dos pais exercem seu fazer sob pressões e conflitos, numa sociedade que cobra cada vez mais produtividade, o que ocasiona uma crescente perda do tempo de convívio com as crianças. Não é incomum pais saírem de casa com os filhos ainda dormindo e voltarem quando eles já foram para a cama ou que estejam lutando contra o sono à sua espera.

Relações familiares afetuosas são fundamentais para o desenvolvimento equilibrado da criança (Foto de Elly Fairytalle do Pexels)

Não tenho dúvidas de que a infância é uma fase decisiva para a formação do futuro adolescente e do futuro adulto, e que é um tempo essencial para que as crianças aprendam a lidar com as próprias emoções, e com as emoções do outro para que se estabeleçam contatos humanos que sejam significativos e lhes traga segurança. Considerar os afetos, que englobam emoções, sentimentos e paixões, é imprescindível. Não é difícil encontrarmos adultos e jovens brilhantes intelectualmente, mas com pouca maturidade emocional, pessoas que não conseguem reconhecer seus sentimentos nem lidar bem com eles.

O estar juntos em confinamento oferece uma oportunidade ímpar de convivência familiar que pode e deve ser aproveitada. Este é um momento em que os pais, mesmo que em home office, têm mais chance de conviver e de conhecer suas crianças, de ajudar seus filhos a lidarem com as próprias emoções que são muitas diante de uma tensão que vibra, que vem da tevê, das conversas dos adultos, das notícias repetidas que fogem à compreensão dos pequenos. Crianças são muito perceptivas e captam tudo que acontece a sua volta, mesmo que, aparentemente, não estejam prestando atenção. E, cá pra nós, foram muitas mudanças repentinas. Fomos obrigados a mudar, completamente, hábitos e rotinas.  Claro que a insegurança chegou para assombrar a todos nós, adultos e crianças.

Devemos conversar com as crianças e explicar o que acontece de forma que possam entender e participar dos cuidados e da nova rotina. Também os professores podem contribuir para além das temáticas tradicionais, oferecendo meios para estimular o que Daniel Goleman, psicólogo que desenvolveu os estudos de Inteligência Emocional chama de alfabetização emocional.

Mas antes, vamos entender melhor este processo, pois penso que se iniciarmos agora este exercício de alfabetizar as emoções, ao retornarmos às aulas presenciais será bem mais fácil dar continuidade a essa outra forma de alfabetização.

A teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner traz uma visão diferenciada de considerar as habilidades cognitivas. Uma criança que não tem maior competência em cálculos pode ter uma maior habilidade linguística ou musical, o que não significa ser mais ou menos inteligente. Quando se pensa em educação emocional, é importante considerar duas formas de inteligência entre outras que foram propostas por Gardner: inteligências intrapessoal e interpessoal. O psicólogo define a inteligência intrapessoal como a capacidade de construir uma imagem real, exata e verdadeira de si mesmo, e de ser capaz de usar essa imagem de forma eficaz. É ter a capacidade de discriminar as próprias emoções, dar nome a elas e saber usá-las para orientar decisões. É uma forma de inteligência que se relaciona à capacidade de se autoperceber e de desenvolver o autoconhecimento.

a inteligência interpessoal é a capacidade de perceber, valorizar e trabalhar com as intenções e motivações de outras pessoas. E as crianças são boas nisso de uma forma muito espontânea. Elas são capazes, por exemplo, de perceber mudanças de humor e muitas emoções daqueles que convivem com elas. Lembro bem de quando meus pequenos (filhos e alunos) me perguntavam: por que você está triste hoje? E, na maioria das vezes, me abraçavam ou me enlaçavam pela cintura. E esta capacidade muitas vezes inata ou que pode ocorrer pelo que Henri Wallon, grande estudioso da criança, chama de contágio, deve ser mais bem trabalhada para que se criem relações mais significativas. O contágio também se mostra quando uma criança chora e as outras choram também; ainda é visível se a mãe ou a professora está irritada e as crianças ficam bem mais agitadas. Este é um bom exemplo da importância de nos darmos conta de como está nosso estado emocional e evitar, inclusive, que um aborrecimento matinal acabe criando uma sequência de problemas e desacertos em função das nossas reações em cadeia.

Como podemos estimular estas duas formas de inteligência tão importantes para a educação emocional?

Foto de meu arquivo pessoal: as atividades artísticas são também uma forma de fazer carinho e demonstrar afeto

As atividades lúdicas e as atividades artísticas (que são também lúdicas para a criança) contribuem para que a criança entre em contato consigo mesma, com suas emoções, sua sensibilidade e fantasia, com sua criatividade. São atividades que estimulam a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, e que é um aspecto essencial para essas formas de inteligência.

Exercícios de respiração e relaxamento que devem ser lúdicos para envolver as crianças, sendo utilizadas imagens expressivas como puxar o ar como se sentisse um perfume gostoso e soltá-lo como se enchesse devagarzinho uma bola de aniversário. Imaginar que é uma bola se sorvete que vai derretendo e se espalhando no chão. Trabalhar os sentidos, percebendo cheiros, sabores, sons, texturas, imagens.

Ouvir e contar muitas histórias. Criar personagens e contar a sua história, imaginar o que sentem, o que pensam e como se relacionam.

Deixar que a criança expresse suas emoções e ajudá-la a dar nome aos seus sentimentos e a perceber expressões gestuais que falam de sentimentos e emoções: tristeza, alegria, medo, raiva, dúvida. Trabalhar com emojis que podem ser desenhados pela própria criança.

Foto cedida gentilmente por Daniela Fantoni: Criando atividades lúdicas

Goleman observa que todas as emoções têm um valor e um significado, logo a questão não é ocultá-las ou buscar eliminá-las, o que precisamos é equilibrá-las, saber usá-las de forma apropriada. Daniel Goleman e o neurocientista Antonio Damásio, entre outros, enfatizam que o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.  Emoções são importantes para a racionalidade. O intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional.

É muito importante oferecer afeto seja ele físico ou não, especialmente em momentos de tensão. O contato físico, como o abraço, um beijo, um afago, faz falta para a criança nesta pandemia em que perderam a relação com os amiguinhos e a professora, e a maioria dessas crianças perdeu, ainda, o contato com os avós, os tios e primos. Em texto anterior, vimos que, nas entrevistas, as crianças comentaram que sentem falta de contato físico, de abraços. Há ainda outras formas de afeto que “nutrem a alma” como prestar atenção ao que a criança diz, brincar com elas, mesmo que seja um pouquinho, contar histórias na hora de dormir, e outros pequenos gestos afetuosos.

Relatório da UNESCO publicado como livro – Educação: um tesouro a descobrir – propõe quatro pilares para a Educação do Século XXI: aprender a conhecer (adquirir instrumentos de compreensão), aprender a fazer (para poder agir sobre nosso meio ambiente), aprender a conviver (cooperar com os outros em todas as atividades humanas), e finalmente aprender a ser (conceito principal que integra todos os anteriores).  Se observarmos, veremos que aprender a conviver é exatamente desenvolver a inteligência interpessoal; e aprender a ser é trabalhar a inteligência intrapessoal (autoconhecimento).

A herança genética nos dota de pontos-chave que determinam nosso temperamento, mas temperamento não é destino como enfatiza Daniel Goleman. Na infância e na adolescência, em casa e na escola, aprendemos lições emocionais que modelam novos circuitos devido à plasticidade cerebral. Então, aquela desculpa de que “sou assim porque nasci assim e vou morrer assim” não faz sentido, podemos gerar mudanças ao longo de toda nossa vida. E na infância, é muito mais fácil assimilar novas aprendizagens.

Alfabetizar as emoções significa trabalhá-las e aprender a lidar com elas. Significa também estimular a resiliência, a capacidade de lidar com as dificuldades de forma mais equilibrada.

Grande abraço e até a próxima

Link da roda de conversas a que me referi acima:https://www.youtube.com/watch?v=XJ4Awr0-DfA

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Foto de capa de Andrea Piacquadio do Pexels.

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

Comentários
  • Avatar
    16-julho-2020 às 08:27

    Eu tenho restrições as teorias que dizem que áreas do cérebro humano são responsáveis por resolver certas atividades. O desconhecimento de uma matriz fluidica ou corpo emocional é o que falta, pois esta matriz está conectada através de cordões fluidicos ao corpo denso(físico) e o que da a sensação de ser o cérebro o responsável, o que não é a verdade! Estudo e experiências comprovam que os cérebro não pensa e apenas decodifica as informações. Este avanço colocaria todas estas teorias no topo e explicariam mais claramente o processo de construção da inteligência e como consequência dos saberes e a evolução humana no planeta!

    • Lucia Helena
      16-julho-2020 às 15:48

      Olá, Luiz Carlos,
      Agradeço seu comentário e respeito sua posição, entretanto, as considerações feitas por mim têm uma base científica aprovada por pesquisadores de vários países e publicada em revistas e livros indexados. As questões da inteligência emocional e das inteligências múltiplas foi, inclusive, tema de uma tese de doutorado em Psicologia que co-orientei em Oviedo, na Espanha. Tenho interesse em estudos espiritualistas, já li textos sobre o corpo emocional, mas, no caso deste artigo, são outras teorias que me dão suporte acadêmico.
      Grande abraço

  • Avatar
    15-julho-2020 às 20:02

    Boa noite professora Lúcia Helena.
    Brilhante conteúdo, nos remete a nossa prática profissional .
    Estou diretamente com os jovens mas vejo a importância dos momentos de vivência da infância.
    Saudade de suas aulas, há 20 anos a Pedagogia mudou minhas perspectivas que hoje me sinto agradecida.
    Fraterno abraço!!!

    • Lucia Helena
      16-julho-2020 às 16:06

      Olá, Viviane,
      Que bom receber seu comentário e saber que o artigo contribui para nossa prática profissional. Com certeza, uma educação de corpo inteiro das crianças (cognição, afetividade e motricidade) dá margem a que os jovens tenham maior facilidade em lidar com problemas afetivos e cognitivos. Os estudos da Pedagogia nos dão também uma nova perspectiva sobre educar. Como trabalhei com o Ensino Médio como professora de Português, senti a diferença após o Curso de Pedagogia; acho que me tornei uma professora melhor. Um abraço carinhoso e sucessos para você

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