Síndrome do Imperador – o que é isso?

 

Em nosso último artigo analisamos a importância de a criança lidar com a frustração. Hoje, vamos aprofundar um pouco mais essa questão e pensar no que o psicólogo Leo Fraiman aponta quanto aos riscos que a chamada síndrome do imperador apresenta ao desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Como havia enfatizado, a frustração em graus toleráveis faz parte do processo educacional.  A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos, suportar o que a desagrada. Também nós, adultos, precisamos desta aprendizagem assim como os adolescentes. Afinal, a vida não responde sempre de forma positiva ou amigável aos nossos desejos, e ter maturidade emocional é saber aceitar as frustrações e adquirir meios de lidar com elas, seguindo em frente, o que, como já observamos em outros textos, é a base da resiliência.

Muitos estudiosos concordam que essa síndrome, muito comum de ser encontrada nos nossos dias, tem origem no fato de que os pais têm menos tempo de estar com seus filhos devido às exigências profissionais e tentam compensar essa ausência cedendo aos desejos das crianças para não as desagradar ou criar desavenças nos momentos de convivência. Acreditam que têm que “fazê-los felizes a todo custo”, sendo criadas situações indevidas para evitar que as crianças sofram frustrações, julgando que é o melhor a fazer. Acabam por criar crianças teimosas, prepotentes, mandonas, intolerantes, mimadas, e sem empatia, isto é, que não conseguem se colocar no lugar do outro.

A síndrome do imperador é resultado de uma visão distorcida dos pais e outros responsáveis pelas crianças que deixam de estabelecer limites, falta esta que pode gerar graves problemas na sua formação. Como observa Leo Fraiman, quem não sabe viver a frustração corre o risco de entrar em depressão porque é alguém que não sabe ir atrás do que deseja, que não sabe ser grato ao que a vida lhe oferece. O psicólogo enfatiza que é uma atitude narcísica dos pais o que gera tal situação, embora estes não tenham conhecimento disso. É claro que nós sempre fazemos o que consideramos o melhor para nossos filhos, ninguém com clareza dos riscos a que a criança é exposta o faria. Fraiman observa que, sobretudo em um mundo em que as relações estão bastante difíceis, os pais ou outros responsáveis pela criança querem ser amados, querem que os filhos sejam seus amigos, que não se aborreçam com eles. Segundo ele, isto se repete no seu consultório inúmeras vezes: os pais querem resolver as dificuldades, mas não querem que os filhos se zanguem, não querem se indispor com eles.

Muitos pais também foram vítimas de uma educação autoritária e não desejam repetir o que vivenciaram, mantendo um clima de camaradagem com os filhos. Entretanto, é importante compreender que estabelecer limites, normas e rotinas domésticas não significa ser autoritário, mas oferecer às crianças o clima necessário que lhes traga segurança e equilíbrio; é assumir a autoridade de quem se responsabiliza por elas e as ama.

Essas atitudes indevidas dos responsáveis impedem que as crianças ganhem autonomia, e Fraiman observa que tirar a autonomia das crianças, gerando apatia, o seu oposto, é como não desenvolver uma musculatura que dá sustentação ao indivíduo e o aleijar. Observa que a neurociência nos mostra que a área do córtex orbitofrontal, atrás da área ocular, é onde se planejam as ações, se criam relações de causa e efeito, se pensam as consequências, é a sede da força de vontade, do freio moral, sendo uma área que se desenvolve pelo treino. O mestre em psicologia educacional e desenvolvimento pela USP enfatiza, ainda, que se a criança não for treinada a esperar, a criar, a negociar, a ceder e a se frustrar está sendo deformada. Alerta que esta criança se tornará chata, birrenta, gastadeira e neurótica. E correrá o risco de vir a se drogar, uma vez que não desenvolveu sua autonomia, e vai precisar o tempo todo do outro para o que deseja. Não é difícil entender que a dependência aos vícios, funcionará como uma “muleta”.

É fundamental que a criança, o adolescente ou mesmo o adulto aprenda a se sustentar nas próprias pernas, que a relação com o outro não seja a de receber o que se quer, que o outro possa lhe proporcionar relações de troca, relações mais saudáveis, que aprenda a investir no que deseja, a ser persistente, criativo… Frustrações são inevitáveis, fazem parte da vida. Poupar nossas crianças de vivê-las só as deixa mais vulneráveis e frágeis, dando-lhes a falsa impressão de que tudo gira em torno delas, ensinando-as a olharem apenas “para o próprio umbigo”, tirando-lhes a possibilidade de lidar com as dificuldades inerentes à vida.

Ouço queixas de professores que sofrem pressões dos responsáveis para fazerem vista grossa a deslizes de seus filhos; que recebem solicitações de mudar notas e de não punirem ações indevidas; de pais que não aceitam reclamações de atitudes incompatíveis com a sala de aula. Ouço reclamações de que os responsáveis lhes pedem: “Dê um jeito no Joãozinho (ou na Mariazinha). Eu não sei mais o que fazer”.  Imaginem uma professora com vinte ou mais reizinhos e princesinhas para dar conta. Também vejo pais que fazem a tarefa dos filhos; deixam que eles já crescidos, na pré-adolescência, durmam na cama do casal; que tomem as decisões do que a família vai fazer ou deixar de fazer; ou  criam brigas com os coleguinhas que se colocam contrários a seu filho ou o desagradam.

Quem não tem sua autonomia trabalhada, muito mais facilmente deposita nas mãos do outro a sua felicidade, o que pode gerar transtornos inúmeros como os que vemos no notíciário. O rapaz que abandonado pela namorada a agride ou tenta matá-la; aquele(a) que tem reações indevidas e muitas vezes violentas se passa por situações que o incomodam ou se leva uma fechada no trânsito. Com certeza, você que me lê já se lembrou de várias outras situações.

Hoje, ficamos por aqui, mas é importante que nos lembremos de que família e escola têm responsabilidades a serem compartilhadas, mas que professores não podem assumir tarefas que cabem aos pais.

Dúvidas, comentários e sugestões são sempre bem-vindos. Assim que puder, entrarei em contato.

Grande abraço e até a próxima

 

Se quiser  saber mais:

FRAIMAN, Leo. Entrevista: O que é Síndrome do Imperador? Programa Todo Seu em 26 fev.2018  https://www.youtube.com/watch?v=RXHvwnJW9Fs

FRAIMAN, Leo. A síndrome do imperador: Pai empoderados educam melhor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019

 

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

Comentários
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    02-fevereiro-2020 às 00:23

    Esse texto nos possibilita uma boa reflexão sobre os caminhos que a educação exercida pela família tem tomado. Em um mundo que o ter tem prevalecido sobre o ser, cabe a nós, enquanto pais e/ou educadores, repensar nossas atitudes e nossas ações, além da forma como utilizamos nossa autoridade, necessária na formação dos nossos filhos e/ou alunos, conforme muito bem colocado pela professora Lucia Helena.

    • Lucia Helena
      02-fevereiro-2020 às 00:56

      Obrigada, Cintia, pelo seu comentário.Temos, de fato uma responsabilidade muito grande nesse processo e a educação e a formação adequada são o maior legado que podemos deixar para nossos filhos e alunos. Grande abraço

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