Estresse, plasticidade cerebral e aprendizagem: o que é importante saber?

Como observei no nosso último texto, chamamos de neuroplasticidade a capacidade cerebral de mudar e reorganizar sua rede neuronal em função de demandas do meio ambiente, de experiências vividas, de aprendizagens e memórias. Sempre que aprendemos algo novo ou vivemos experiências diferentes das habituais como quando fazemos uma viagem que nos encanta, visitamos um museu ou lemos um livro que nos envolve, e mesmo quando sentimos uma sensação ainda não sentida como pegar nosso primeiro filho ou netinho no colo, as sinapses se fortalecem, estes momentos ficam indelevelmente registrados. Isto é, ativam-se as transmissões de impulsos nervosos entre os neurônios.

Com a criança não é diferente. Quando ela tem experiências diferentes, situações envolventes e estímulos prazerosos, há este fortalecimento neural. Isto se dá porque a neuroplasticidade ocorre de forma muito mais rápida e intensa quando associada a interesse, vontade e motivação. Uma atividade maçante só nos estimula a querer terminá-la o mais rápido possível, e a memória a descarta.

Outro aspecto importante a considerar é que nem sempre os estímulos são positivos, muitas vezes, causam estresse, resultado de um desequilíbrio entre demandas internas e externas, estando associados a medos, frustrações, raiva ou ansiedade. Este desequilíbrio ocorre desde a mais tenra idade ao longo de toda a vida. Nossa habilidade em lidar com o estresse, isto é, a forma como o enfrentamos, permite (ou não) que seus impactos sejam minimizados. É necessário que sejam encontradas respostas adequadas para lidar com as situações estressantes e estimular a neuroplasticidade, uma vez que esta é afetada por agentes estressores, podendo mesmo dificultar o processo de aprendizagem.

Ortiz Alonso, prestigiado neurocientista, especialista em educação, afirma: “A diferença entre um cérebro que se exercita na escola de forma ordenada, regular e sustentável e outro que não o faz é a mesma que existe entre uma árvore vista no outono e na primavera”.

Situações estressantes fazem parte da vida, e cabe a nós aprendermos a lidar com elas e nos defender de efeitos nocivos, protegendo também nossos pequenos, facilitando o desenvolvimento da resiliência, a capacidade de lidar com as adversidades, e estabelecendo respostas mais saudáveis.

Vamos exemplificar: um adulto, diante de uma situação estressante pode repetir determinadas atitudes como brigar com a família ou os colegas no trabalho, dirigir feito um louco colocando sua integridade e a dos outros em risco, reclamar de Deus e do mundo, bater portas e panelas… Uma criança pode chutar o coleguinha, chorar, morder, gritar, jogar objetos… Tais atos se tornam padrões de comportamento frente à tensão. E como criar novos padrões, evitando que os antigos sejam automaticamente assumidos?

O neurocientista Michael Merzenich nos diz que o que muda no cérebro é a força conjunta das conexões neurais. Uma ação repetida, praticada várias vezes, fortalece as sinapses. Assim, há práticas que podem criar respostas diferenciadas e, para isso, manter a regularidade é fundamental, assim como manter a motivação. Se a criança, por exemplo, não obtiver resultados com suas manhas e perceber que se não as fizer terá mais atenção, este se torna um fator motivacional para mudança de atitude.

O estresse afeta os receptores do hipocampo, que já não conseguem desenvolver sua capacidade de memória, atenção e codificação de coisas novas, dificultando, portanto, a aprendizagem. Muitas vezes, crianças que sofrem ou presenciam violência doméstica mesmo que psicológica, ou cujos pais se separam de forma traumática, por exemplo, apresentam dificuldades de aprendizagem que podem ser justificadas por um alto nível de estresse.

Muitas são as possibilidades que podem ser trabalhadas para minimizar efeitos do estresse e/ou evitar que se instalem; trago algumas sugestões de atividades que podem ser usadas com as crianças, sendo, aos poucos transformadas em hábitos saudáveis, ocasionando novas respostas.

Como lidar com o estresse, ativar estruturas cerebrais e estimular a aprendizagem?

Ouvindo histórias

Um aspecto significativo para enfatizar quando pensamos a prática pedagógica é que estímulos diferenciados que envolvem a criança, que lhe trazem encantamento e prazer, que lhe permitem se expressar como as brincadeiras, a contação de histórias, as atividades ludoartísticas, o movimento, a expressão criativa entre outras ativam estruturas cerebrais, minimizam o estresse, facilitando a aprendizagem.

A educação infantil deveria dar continuidade ao seu deslumbramento de descobrir o mundo; à percepção sensorial vívida que a desperta para sabores, aromas, ruídos, imagens, texturas; que faz com que sua curiosidade se aguce e a tome por inteiro; com que pulse alegremente diante do novo – dos sons, das cores, das tramas, dos gestos, das sensações…

As atividades ludoartísticas, que expandem nossa imaginação e o nosso potencial de entendimento, são possibilitadoras de uma educação mais sensível e prazerosa, de criar outras possibilidades de ver o mundo, de se expressar, de criar, de perceber e de sentir.

O Dr. Ortiz Alonso, em entrevista a El País, observa que a brincadeira prepara para a vida, desenvolve a cognição e a moral. Eu acrescento que trabalha também as emoções e que é um poderoso estímulo para a aprendizagem. A brincadeira traz a motivação, a interação entre os coleguinhas, o saber lidar com ideias diferentes. “Com mais novidade, o cérebro capta informações com mais velocidade e as arquiva muito melhor. A pergunta é por que os adultos não continuam brincando. Perdemos essa capacidade? É uma grande pergunta e acontece em todas as culturas. Antes da Revolução Industrial, o aluno aprendia de uma forma prática e utilizava mais a brincadeira do que nós. (…) Em nossa sociedade, a memória e o conhecimento estão associados aos sistemas educacionais. Com brincadeiras se levaria mais tempo e hoje a rapidez é um valor”. Também por isso, posso seguramente afirmar, que a escola nem sempre reserva um tempo fundamental para a brincadeira, com a falsa ideia de que brincar é perder tempo, a partir da crença de que “tempo é dinheiro”.

Brincando com jogos cantados

A música é um santo remédio, um caso à parte e está provado por vários estudos que relaxa e ativa a memória. Benefícios em dose dupla. Jogos cantados devem fazer parte da rotina escolar, pois aliam o movimento à música, trazem alegria e prazer que são antiestresse. E como sabiamente afirma o conhecimento popular: quem canta seus males espanta.

Outras atividades prazerosas podem nos ajudar muito a lidar com o estresse e estimular a neuroplasticidade como atividades respiratórias, a meditação ativa e a visualização. E, naturalmente, para a criança devem ter uma boa dose de ludicidade. Mas voltaremos a isso no próximo artigo. Por hoje, ficamos por aqui.

Fotos de meu arquivo pessoal.

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Nosso blog se transformou em livro…

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

Comentários
  • Avatar
    24-março-2019 às 00:21

    Olá, Lúcia Helena
    Tenho usado bastante músicas, exercícios de relaxamento e respiração com minha turminha de 4 anos. Os resultados são excelentes. As crianças, mesmo as bem pequenas, apresentam ansiedade e estresse. São muitos estímulos externos, desordem na rotina e na dinâmica familiar. Aos pouquinhos vamos conquistando momentos mais tranquilos e prazerosos. Favorecendo assim o desenvolvimento e o aprendizado dos pequenos.

    • Lucia Helena
      24-março-2019 às 18:45

      Olá, Renata,
      Agradeço seu comentário, ele vem comprovar o quanto estas atividades são importantes para nossos pequenos.
      Nosso mundo anda muito agitado e crianças são particularmente sensíveis, sofrendo os efeitos das tensões, especialmente se estas ocorrem no ambiente familiar.
      Beijinho pra você

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