Arte e educação emocional

No último artigo, analisei a importância da Arte para o desenvolvimento infantil, e vimos que, para que sejam atividades ricas e não castradoras, elas precisam dar espaço à expressão criativa, à sensibilidade, à intuição, à fantasia, à percepção da criança, à autonomia, não devendo ser utilizadas apenas para exercitar a coordenação motora, fazer cópias de modelos, ensinar cores, cantar para manter a ordem ou direcionar uma atividade, entre outras que não podem ser denominadas de atividades artísticas.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Artes (PCNs), encontramos um trecho que me parece muito significativo para reflexão: “O ser humano que não conhece a arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida”. Embora este documento apresente as diretrizes para o Ensino Fundamental, ou seja, para crianças a partir dos seis anos, é na Educação Infantil que a criança inicia suas experiências no campo das manifestações artísticas, essenciais para seu desenvolvimento integral – cognição, motricidade, afetividade, relações interpessoais e espiritualidade, seu potencial para se tornar uma pessoa melhor.

E que criança não é contagiada pela música e pela dança?  Pelos jogos teatrais em que podem dar vida a seus mundos imaginários, seja com o próprio corpo ou com fantoches? Para que mundos mágicos a leva uma história, uma pintura, um desenho ou uma escultura? São muitas as possibilidades de vivenciar a arte, seja na escola ou em outros espaços, incluindo o espaço de nossas casas.

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Em artigos anteriores – Expressão e organização das emoções na ponta dos lápis de cor e Conta outra vez?!Abrindo as portas de um mundo encantado… e encantador, analisei a importância do desenho para as crianças e das histórias infantis, por isso não me deterei nestas manifestações tão significativas  e especiais para nossos pequenos.  Vamos ver um pouco de outras formas expressivas.

A música

Ainda no ventre da mãe, os ritmos envolvem o bebê: os batimentos cardíacos da mãe, seus sons viscerais, o pulsar da placenta. Com o nascimento, ampliam-se as experimentações sonoras e rítmicas. As canções de ninar e o balanço do colo o envolvem em aconchego e proteção. A pulsação rítmica é algo que faz parte de sua vida, que lhe é familiar e natural.

O trabalho com a música na Educação Infantil deve valorizar múltiplas fontes sonoras: brinquedos e objetos do cotidiano (como sininhos, chocalhos, caixinhas e latinhas com grãos com sonoridades diferentes), que vão ajudando a criança a discriminar sons diversos. Também os instrumentos musicais são muito bem-vindos e desejáveis. Ainda com poucos meses, minha neta participava vivamente quando o pai tocava violão para ela. Dava gritinhos, agitava pernas e braços, sacudindo todo o corpo sem tirar os olhos dele. Eram momentos deliciosos de presenciar.

É muito importante enfatizar que o primeiro instrumento é o próprio corpo, grande fonte de produção sonora: a voz, sons diversos feitos com a boca, com as mãos, com os pés. Cantar e fazer movimentos são outra forma de expressão que agrada muito a criança e a ajuda a estimular sua coordenação motora, lateralidade e ritmo.

Atividades com a música ajudam a desenvolver na criança a percepção, a sensibilidade, a atenção, a imaginação, a curiosidade, a organização de ideias. Podemos brincar com o andamento da música (mais lento, um pouco mais rápido, acelerado), com o grave e o agudo, alto e baixo, sons de diferentes instrumentos (piano, violão, tambor, pandeiro, reco-reco, etc). E tudo se transforma em uma grande brincadeira. Por falar em brincadeira, relembro que as atividades artísticas para os pequenos são essencialmente lúdicas.

Vale enfatizar o poder da música sobre as crianças, inclusive sobre aquelas que têm necessidades especiais. A linguagem musical estimula o autoconhecimento e o equilíbrio, acalma e estimula, favorecendo, ainda, a interação. Tive a oportunidade de trabalhar com professoras da APAE e/ou que tinham turmas com alunos especiais que me contavam, muito animadas, resultados muito significativos quando utilizavam a música com seus pequenos após nossas aulas.

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A dança

A dança para a criança pequena pode ser compreendida como uma maneira de a criança explorar o seu potencial, expandindo suas possibilidades de deslocamento no espaço e de exploração deste espaço e do movimento. Possibilidades, também, de estabelecer relações com outras crianças, trabalhar o ritmo, o equilíbrio e a coordenação a partir de gestos, assim como expressar seus sentimentos. Ela tem a rica oportunidade de experimentar a si mesma, seus limites; de perceber-se e perceber o outro. É claro que ela tem essas possibilidades através de outros movimentos, entretanto, na dança, ela poderá usar seu corpo com expressividade e com a ajuda da música que abre novas possibilidades como vimos acima.

Jogos teatrais

Os jogos teatrais ou dramáticos são uma modalidade artística fundamental no processo de formação da criança, uma vez que fornecem bases para se trabalhar a criatividade, a socialização, a integração grupal, a imaginação, a flexibilidade, as emoções, o corpo, a memória. Importante não desvalorizar a espontaneidade lúdica e criativa tão característica da criança pequena, exigindo-lhe movimentos estereotipados ou rígidos. Deixe que improvisem, que se apropriem do “texto”, que fiquem descontraídas, que sua linguagem corporal possa fluir. Essas atividades as ajudam a ter noção de tempo, de sequência, de organização e de improvisação de histórias. Uma forma que funciona bem com os menores é ir contando uma história para que eles a “representem”.

Lembro que um de meus filhos, na festinha das mães, era um passarinho que, em vez de voar em volta da flor (uma amiguinha de quem gostava), talvez assustado, ficou parado juntinho dela. E a professora, provocando risos da assistência, brincou: “Um passarinho ficou cansado e parou para descansar”. Isso foi um ótimo exemplo de como precisamos ser flexíveis quando educamos crianças e de como nosso entusiasmo contagia, pois, depois do comentário, ele “voou” um pouquinho. Também vale observar que as representações não precisam ter assistência que não a própria turminha.

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As expressões plásticas (desenhos, pinturas, modelagem) e as outras formas de expressão artística estimulam o senso de si, o pertencimento da criança ao grupo, a autoestima, a autovalorização e a autoexpressão, aspectos essenciais para o desenvolvimento mais equilibrado de nossos pequenos. Vale enfatizar que todos nós temos potencial artístico e criativo, mas ele precisa ser desenvolvido, potencializado.

Arte e educação emocional – primeiras reflexões

Estas habilidades e qualidades que a criança desenvolve através das múltiplas expressões artísticas são também formas de trabalhar sua inteligência emocional. A inteligência emocional é definida por Daniel Goleman como a “capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos”. Quando falamos de educação emocional estamos nos referindo a desenvolver essa forma de inteligência. Falamos de desenvolver a inteligência intrapessoal (autoconhecimento) e a interpessoal (relações estabelecidas).

É ser capaz de reconhecer e lidar apropriadamente com emoções e sentimentos que surgem como a raiva e o medo com que a criança (e todos nós) se depara com frequência. E este é um ponto fundamental de compreensão: não se trata de não sentir raiva, ciúme ou frustração. Trata-se de saber lidar com emoções que nos assaltam. Pessoas que desenvolvem o equilíbrio, a solidariedade, o respeito pelo outro, a amorosidade, a empatia têm maiores chances de boas relações e de estarem bem consigo mesmas.

Vivemos um momento em que o descuido, o descaso, a insensibilidade se mostram de muitas formas e em várias áreas da sociedade. Corrupção, jogos de poder, interesses corporativos, educação solapada e saúde em crise. Próteses e cirurgias desnecessárias, remédios vencidos sem a distribuição aos que deles necessitam, escolas sem condições mínimas que favoreçam a aprendizagem. Formas dolorosas de violência contra os mais pobres e nas relações interpessoais. Desquilíbrio ecológico e destruição da natureza.

Leonardo Boff enfatiza: “Não há cuidado pela inteligência emocional, pelo imaginário e pelos anjos e demônios que o habitam. (…) Há um abandono da reverência, indispensável para cuidar da vida e de sua fragilidade”.

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Há falta de solidariedade, de respeito, de humanidade, o que nos caracteriza como seres humanos. E a arte nos possibilita a sensibilização e a empatia de que tanto se necessita, o respeito ao diferente, tanto pessoal quanto social. A arte nos torna mais humanos e educa nossas emoções. Precisamos de mais arte.

Grande abraço e até a próxima.

Seus comentários, observações e sugestões são sempre bem-vindos, deixe-os no espaço abaixo que responderei assim que possível.

As fotos foram retiradas da web.

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

Comentários
  • 12-março-2018 às 10:44

    Muito bom o texto Lucia, adorei. Claro e didático como sempre. Beijos

    • Lucia Helena
      12-março-2018 às 13:12

      Olá, Jaqueline querida,
      Fico feliz que tenha gostado. Afinal, você é uma estudiosa de Educação Emocional. Gratidão pelo comentário.
      Beijo saudoso

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