Criança faz arte?

Inegavelmente, criança faz arte: não podemos tirar os olhos delas que já estão inventando alguma estripulia. Lembro-me de minha avó: “Onde se meteu essa menina? Deve estar aprontando alguma coisa…” E eu estava mesmo.

Mas não é deste tipo de arte que estou falando agora, falo das atividades artísticas, que são fundamentais para o desenvolvimento da criança, muito mais importantes do que comumente se considera. Infelizmente, já ouvi alguns pais dizerem se referindo ao material para os trabalhinhos de arte: “Só serve para fazer sujeira e aumentar o custo do material escolar!”. Este é um grande engano que precisamos corrigir, embora concorde que, muitas vezes, há exagero nos pedidos das listas. Mas isso é outra história.

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É claro que a relação que se estabelece entre a criança ou o adulto e a arte é diversa. João Francisco Duarte-Júnior, conhecido estudioso de Arte, observa que o ponto principal da diferença é que o adulto é capaz de fruir, ou seja, de apreciar o objeto da arte: uma composição musical, um balé, pinturas, esculturas, etc. Já para a criança, a arte se constitui em um fazer, em uma atividade que podemos qualificar como artística. Ela é importante por ser uma ação significativa e não por proporcionar-lhe uma experiência estética como ocorre com o adulto. Devemos considerar, assim, que o importante não é o produto, mas o processo criador da criança, a sua atividade expressiva.

Embora a relação da criança com a arte seja a de um fazer e não, ainda, a de criar de acordo com padrões estéticos, a atividade artística, como enfatiza Duarte Júnior, é um fator que não pode ser desconsiderado para que sua consciência estética se desenvolva. As atividades artísticas trazem para os pequenos a possibilidade de que se crie uma postura mais harmoniosa e equilibrada diante do mundo, integrando sentimentos, razão e imaginação, e exercitando sua habilidade de discriminar e fazer escolhas, sua capacidade crítica.

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Embora possamos elencar muitos ganhos obtidos pela criança ao vivenciar tais atividades como o estímulo à autoestima, à autonomia e à criatividade, um muito importante nos salta aos olhos: elas possibilitam a vivência lúdica, a entrega total a seu fazer. As atividades expressivas como as artísticas e as lúdicas contribuem para que se trabalhe a integralidade do ser, estimulando o intelecto, as emoções e a motricidade, além das relações com o meio e as pessoas. Elas trabalham a corporeidade de que já falamos muitas outras vezes.

Ao estimular a criança a desenhar, contar ou recontar uma história, manipular lápis de cor, giz de cera, pinceis, tinta guache e aquarela, incentivando-a a expressar suas emoções, estamos ajudando-a a se relacionar com o mundo a sua volta e a desenvolver a autocompreensão. Da mesma forma, propiciar-lhe situações em que possa perceber diferentes ritmos, cantar músicas variadas, apreciar imagens, ajudando-a a fazer sua leitura, perceber texturas e formas dos objetos é um modo de lhe oferecer recursos para a leitura de seu mundo.

Viktor Lowenfeld, estudioso de arte e psicologia, aponta o papel vital que a arte desempenha na educação infantil. Segundo enfatiza, ao fazer desenhos, pinturas ou outras formas de construção, a criança realiza um processo complexo, pois une elementos variados de sua experiência para dar vida a um significado novo de uma totalidade. A criança une o que viu, o que sentiu, o que pensou e dá uma forma muito própria a isso. Ela busca compreender e dar sentidos a sua existência. Daí, o estudioso observar que a criança, mais que uma pintura ou escultura, cria uma parte de si mesma, um modo de interpretar e compreender o mundo. Assim, fazer arte não é um simples passatempo, é uma forma de comunicação consigo mesma, é importante para ela, para seus processos cognitivos, perceptuais, emocionais, sociais e para seu desenvolvimento criativo.

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Como na brincadeira de faz de conta, de que falamos em artigos anteriores, a criança, através de manifestações artísticas, pode expressar dúvidas, construir e reconstruir ideias que povoam seu imaginário, dando-lhes formas, cores, movimentos, brincando com possibilidades, buscando respostas para suas dúvidas. É um modo de vivenciar através de formas expressivas que não a verbal aquilo que percebe ou sente, uma vez que ainda não tem o domínio necessário das palavras.

Para que a expressão infantil seja estimulada, é importante que as atividades oferecidas sejam ricas e não castradoras como oferecer à criança folhas xerocadas com desenhos prontos, estipular o movimento exato, o que fazer com a argila ou a massinha de modelar, estipular as cores, fazê-la copiar do quadro de giz um determinado desenho sem permitir-lhe qualquer forma de variação. A pura imitação acaba por lhe podar os impulsos criativos, a autonomia e até a autoestima, pois se vê incapaz de se autoexpressar e fazer escolhas.

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As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, documento publicado em 2010, apresentam os princípios que devem nortear a primeira etapa da educação em todo o país. Nestes se incluem os princípios estéticos: “da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais”. O documento ainda enfatiza que devem ser observadas: “A educação em sua integralidade, entendendo o cuidado como algo indissociável ao processo educativo; A indivisibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística, ética, estética e sociocultural da criança”.

Causa-me muita estranheza não haver a valorização por parte de algumas escolas de Educação Infantil dos aspectos lúdico e artístico, corporal e afetivo, e que focam seus esforços no desenvolvimento cognitivo, uma vez que a legislação é muito clara. E não apenas a legislação, mas também toda a literatura pedagógica disponível aos profissionais da Educação.

As atividades artísticas desenvolvem aspectos importantes do ser como pessoa e como ser social como a intuição, a sensibilidade, a empatia (capacidade de compreensão e identificação com sentimentos do outro), a imaginação, a capacidade crítica e o pensamento divergente, que é a capacidade de pensar de forma original, de resolver algo de forma criativa, de encontrar soluções diferentes para um mesmo problema, tendo maior flexibilidade em lidar com situações.

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Também podemos citar a capacidade de simbolizar, analisar, julgar e avaliar; de melhor expressar ideias e emoções.

Duarte-Júnior enfatiza que o sensível não se limita à formação educacional escolar da criança e do jovem, mas que se prolonga pela vida dos indivíduos uma vez que estamos em aprendizado permanente. E como precisamos de arte e de sensibilidade, como precisamos de humanidade!

No próximo texto, vamos analisar algumas das formas artísticas para as crianças e como a arte contribui para sua educação emocional.

Até lá e grande abraço

As imagens são da web.

Administrator

Lucia Helena Pena Pereira é pedagoga e doutora em Educação. Atua com palestras e oficinas para professores da Educação Infantil, compartilhando a experiência adquirida em pesquisas e em sala de aula na Educação Básica e no Ensino Superior.

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